Estilo

7 dias no reino dos magnatas

“A verdadeira qualidade é uma pechincha”, ensinou o escritor Peter Mayle. Esse inglês de alma francesa, autor de Um Ano na Provence, passou quatro anos de sua vida financiado por editores de revistas famosas para pesquisar a forma como os magnatas gastam. Seu trabalho era desvendar se realmente valiam o que custavam os grandes e pequenos luxos dessa gente que já superou, com larga folga, os temores da subsistência. Se eles estavam pagando por algo especial ou se o verdadeiro prazer era a própria sensação de ter o que quiser sem se preocupar com o preço. 



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Mayle publicou parte dessas reportagens no livro Gostos Adquiridos, um título que por si só revela a conclusão do esforço: ele, que não era um rico congênito, pegou o gosto pela coisa por meio da simples experimentação. DINHEIRO teve oportunidade de provar esse estilo de vida que fascinou Mayle. Foi um mergulho concentrado: sete dias com uma programação que custaria de € 30 mil a € 40 mil. “O problema de quando se gasta uma fortuna é que se espera nada menos que a perfeição”, advertiu Mayle em seu livro. E então, um simples deslize, “como um jornal que chegou a seu quarto sem ter sido bem passado a ferro”, ganha o poder de estragar uma jornada inteira. 

 

Não corremos este risco. O programa era uma press trip, organizada pela Swiss International Air Lines e pelos hotéis Plaza Athénée Paris, Le Meurice e Principe di Savoia. Os hotéis pertencem ao sultão de Brunei, Muda Hassanal Bolkiah. Dono de uma fortuna avaliada em US$ 20 bilhões. Bolkiah tem mania de colecionar. Possui uma famosa frota de 2.500 carros esportivos e já chama sua sofisticada rede de hotéis de Dorchester Collection. Já a Swiss marcava a inauguração de seu Arrival Lounge, no aeroporto de Zurique. Uma ampla área vip com bistrô, estações de trabalho e 20 cabines para banho. Ali, uma providencial ducha tem o poder de abreviar a espera pelo voo para Paris, a primeira escala desta visita memorável ao reino dos magnatas.



 

 

1º dia – UMA VIDA INTEIRA ESPERANDO PARA SERVI-LO

 

Durante seus 177 anos no número 228 da rue de Rivoli, o Le Meurice viu de tudo. O hotel já funcionava naquele prédio quando, em 1871, o povo da Comuna de Paris resolveu botar fogo no Palácio das Tulherias, logo ali em frente. Na Segunda Guerra Mundial, foi o Le Meurice que o general Von Choltitz escolheu para instalar o QG das forças nazistas de ocupação. Como primeiro hotel-palácio da cidade, ele hospedou monarcas e celebridades variadas. Mas entre todos, foi Salvador Dalí a presença mais marcante. Nas suas últimas três décadas de vida, o pintor catalão sempre reservava um mês por ano para passar no Le Meurice. 

 

Essas temporadas forneceram ao hotel material suficiente para temperar a mitologia do lugar com lembranças das solicitações absurdas (ovelhas, cavalos, piano de cauda…) do artista à conciergerie ou de seus passeios pelos corredores com duas jaguatiricas de estimação. Dalí também inspirou a reforma que o hotel encomendou ao renomado designer Philippe Starck. O luxo exuberante dos salões foi pontuado pela imaginação do designer com tapeçarias que remetem a quadros do pintor, mesas com pernas esculpidas em forma humana, cadeiras aladas e outras réplicas de móveis desenhados por Dalí. Tudo ali parece um sonho, levemente iluminado por uma luz âmbar que, elegante, impede até os dourados de brilhar muito. 

 

O hotel tem 115 quartos e 45 suítes. A diária mais barata é de € 790. As suítes partem de € 2,1 mil, sendo que a presidencial, com sala de visitas capaz de abrigar um ministério inteiro, fica por € 12 mil. O top é a “Belle Étoile”, por € 17 mil. O terraço de 250 metros quadrados dessa suíte, com vista de 360 graus, Torre Eiffel ao fundo, serviu de locação para o filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen. Logo de entrada, você experimenta uma característica das estalagens desse naipe. Cada funcionário, da portaria aos restaurantes, agirá como se estivesse esperado a existência inteira pelo glorioso momento de servi-lo. 

 

No quarto, um champanhe no balde de gelo, torradas e terrine de foie gras fazem às vezes de cartão de boas-vindas. Le Bar 228, no térreo do hotel, é um emblema de Paris. Os velhos maltes que guarda e o estilo inglês homenageiam os tempos em que os britânicos eram os fregueses preferenciais. Poltronas de couro castanho, velhos afrescos na parede e um cálido céu pintado no teto. Ao fundo, a música do piano e baixo que separam o bar do restaurante Le Dalí. Um senhor calvo, bigodinho esbranquiçado, é o mestre-de-cerimônia do pedaço. Há 32 anos, o barman William Oliveri cuida dos sedentos que se refugiam naquele espaço. 

 

É discreto, mas não desmente a fama de colecionar confidências de astros melancólicos que enterraram os cotovelos no balcão. Numa conversa amena, você poderá descobrir que William foi registrado na sua Itália natal como Guglielmo e que se orgulha de preparar o melhor bellini da cidade, combinando o champanhe mais seco possível com o sumo dos pêssegos mais carnudos que encontrar. William tem suas receitas prediletas, mas aceita variar, ao gosto do freguês, o gin inglês do Dry Martini, sem negociar, jamais, a medida do Noilly Prat da mistura: “Só uma gota, como o perfume das damas,” diz.

 

 

2º dia – ENCONTRO COM OS SABORES DA PERFEIÇÃO

 

A mãe do chef Yannick Alléno foi discreta no dia em que ele ganhou a cobiçada terceira estrela do Guia Michelin. Mas gritava de alegria quando ligou para o filho congratulando-o por ter sido eleito o chef mais sexy de Paris. Artista da cozinha, Alléno é responsável por tudo que você come no Le Meurice: dos croissants e doces feitos pelo premiado pâtissier Camille Lesecq aos grissini com abacate, camarão e grapefruit que acompanham os drinques de William Oliveri. Alléno tem uma equipe de 74 pessoas na cozinha e outras 25 para atender às mesas do triestrelado restaurante Le Meurice, o ponto mais alto desse templo de gastronomia em que o hotel se transformou. 

 

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Suíte royal do plaza Athéné, em Paris: com 500 metros quadrados, acaba de ser remodelada.

Com cinco quartos, sala de jantar e dois escritórios, custa € 20 mil

por dia e hospeda chefes de Estado e magnatas.

 

Quatro dias antes da eleição de François Hollande para a presidência da França, o salão cor de pérola do restaurante estava lotado para o almoço. E ninguém ali parecia muito preocupado com as ameaças de taxação sobre as fortunas feitas pelo Partido Socialista durante a campanha nem com a saúde da economia europeia. Era com um sorriso santificado no rosto que os comensais iam provando o menu-degustação preparado pelo chef. Há uma versão rápida do menu para o almoço (leia quadro “A comida em estado de arte”) e outra completa, com mais duas entradas e dois pratos quentes para o jantar, ao preço de € 260 por pessoa.

 

Depois do almoço, uma caminhada de cinco quarteirões até os fundos da Place Vendôme leva ao ateliê da Van Cleef & Arpels. Trata-se de uma das mais famosas e caras joalherias do mundo. Hoje integra o grupo Richemont, conglomerado fundado pelo magnata sul-africano Anton Rupert, dono também da Cartier, Piaget e de quase duas dezenas de outras marcas mundiais de alto luxo. Para ter acesso ao ateliê, um jornalista precisa assinar compromisso de confidencialidade. No documento, a Van Cleef & Arpels diz prezar muito o segredo de seus negócios e condiciona a divulgação de informações à prévia autorização por escrito. 

 

A partir daí, é claro, a credibilidade de qualquer coisa que se diga sobre a visita ficará irremediavelmente prejudicada. Seria verdade que, bem ali naquele endereço, há dezenas de artesãos enfiados em mesinhas esquisitas que chegam à altura de seus pescoços, manipulando joias com instrumentos de dentista? Se uma rosa de rubis fosse feita por um único artesão é possível que levasse um ano para ficar pronta? Se você perguntasse o preço de um broche à moça que conduz a visita, ela enrubesceria como se tivesse sido questionada sobre alguma intimidade? 

 

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Suíte presidencial do Principe di Savoia, em Milão: com piscina particular

digna de filme de Sofia Coppola, sai por E 17 mil por dia. O hotel construído em 1927

surpreende em cada detalhe e recebe astros como George Clooney.

 

Dá para acreditar que na loja em frente à praça os preços só são marcados em peças que custam menos de € 100 mil? A programação noturna do segundo dia da viagem previa uma degustação de champanhes e jantar na suíte “Belle Étoile”. Mas a suíte estava ocupada por um hóspede de origem árabe que fez reserva de cinco dias e exigiu anonimato. A recepção foi transferida para uma impecável e solitária mesa no salão do Le Dalí, que homenageia Madame Pompadour com um grande óleo na parede central. A abertura dos trabalhos ficou a cargo de outra atração do hotel: Estelle Touzet, 29 anos, eleita sommelier do ano em Paris. 

 

Ela fez fama estrelando degustações batizadas de “Les Nocturnes du 228”. São verdadeiros pocket-shows de Estelle. Sem as chatas referências a “remuages”, “dégorgements” ou outras literatices do mundo dos vinhos, ela vai tornando ainda mais agradável seu prazer de beber. Num jovial esquete sobre espumantes recomendados como aperitivo, a sommelière ajudará você a perceber a elegância de um Roederer Rosé 2007 e o frescor de um Cerdon du Bugey-Domaine Rondeau. Nascida no Vale do Loir, Estelle também contará como custou a admitir que um doce Moscato d’Asti-Bricco Quaglia 2011 era capaz de provocar-lhe sincera alegria. 

 

 

3º dia – NO MAIS ALTO TRONO DO MUNDO

 

Talvez seja o acúmulo dos tecidos finos, dos perfumes caros, das cútis bem hidratadas, dos cabelos sedosos, do dinheiro nos bolsos ou dos diamantes que passaram por ali nos últimos 101 anos. Talvez seja apenas alguma essência ambiental industrializada. Mas, ao entrar no saguão do Plaza Athénée você sente o cheiro de riqueza. Por ali desfilam malas marrons estampadas com “LVs”, uma profusão de sapatos de sola vermelha, incontáveis botões prateados com dois grandes “Cs” entrelaçados. Louis Vuitton, Louboutin, Chanel e todas as grifes capazes de fazer seu cartão de crédito derreter nas bordas estão presentes pela vizinhança. 

 

O “Plazá”, como os franceses o chamam, é a expressão do luxo. Para certos hóspedes, escolhê-lo equivale a só comer doces do Pierre Hermé, comprar camisas sob medida apenas na casa Chavert, ternos em alfaiatarias do West End londrino, trufas no Périgord, caviar malossol, azeitonas de Byons, melões de Cavaillon ou cashmere da Mongólia. A suíte Royal do Plaza acaba de ser remodelada. Tem 500 metros quadrados, dois quartos separados para o casal e ainda outros três dormitórios: um para as crianças, outro para a governanta e um último, próximo à porta que dá acesso aos elevadores, para o guarda-costas.

 

Há um salão grande o suficiente para festas concorridas, sala de jantar e dois escritórios. A diária ali custa € 20 mil – “sem o café da manhã”, costuma brincar o pessoal do hotel. Cerca de 25% dos hóspedes dessa suíte são americanos, seguidos de perto por árabes e japoneses. Turistas russos e brasileiros estão num bloco logo atrás. Chineses ainda são raros. Da varanda da suíte Royal, vê-se os carros passando na avenue Montaigne, o lado mais chique do “triângulo de ouro” formado com a Champs Elysées e a George V. O nome da avenida do Plaza é uma homenagem ao filósofo Michel de Montaigne, que gostava de repetir uma famosa frase cética: “No trono mais alto do mundo ainda estaremos sentados sobre o nosso próprio traseiro.”

 

É possível cansar do estilo de vida dessa gente que sofre de excesso de dinheiro? Certamente sim. Até famosos chefs de cozinha, amantes dos prazeres, já se fartaram disso tudo. No fim dos anos 90, alguns deles começaram a achar que o mundo não estava mais para trufas e faisões e resolveram devolver suas estrelas ao Michelin. Abriram pequenos restaurantes dedicados à boa comida por preços razoáveis. E, sem querer, acabaram fundando um movimento: a “bistronomie”. Yves Camdeborde foi um dos líderes desses cozinheiros enfastiados. Vendeu seu aclamado La Régalade para inaugurar o apertado Le Comptoir, onde prova o que um grande chef, cobrando apenas € 20, pode fazer com embutidos, cassoulet, bochecha de boi e outras delícias dos cardápios de bistrô. 

 

A alta qualidade, porém, segue cobrando seu preço salgado. Só que de outras formas. Hoje se leva três meses para conseguir uma reserva à noite, no Le Comptoir. Para o almoço é preciso enfrentar uma fila na Place de l’Odeon e depois, numa mesa minúscula, tomar cuidado para não morder o cotovelo do francês ao seu lado. Yannick Alléno, do Le Meurice, já abriu um bistrozinho. Seu disputadíssimo Terroir Parisien tem até cachorro-quente gastronômico: salsicha de tête de veau (carne da cabeça de vitela), na baguete, com molho gribich e mostarda de Dijon. A € 9.

 

 

4º dia – UM PASSAPORTE PARA TUDO

 

“Estiquei!” Foi assim que uma hóspede do Plaza Athénée resumiu sua visita ao Instituto de Tratamento Dior, instalado no hotel e classificado entre os cinco melhores spas do mundo. Depois de passar 90 minutos sob sessões de hidratação e massagens, ela se dizia surpresa com a “tecnologia” dos produtos, que teriam deletado pequenas rugas próximo aos lábios, daquelas que só as mulheres conseguem notar. O Plaza se dedica a propiciar extravagâncias que fazem a alegria de seus hóspedes. Não há pedido que constranja a orgulhosa conciergerie do hotel. Um helicóptero para ir até Richerenches caçar trufas? Jatinho para um almoço de negócios em Nice? Ingressos para a noite seguinte em Nova York? 

 

Um jovem e dinâmico executivo brasileiro hospedado ali foi testemunha dessa eficiência quando, num fim de tarde, decidiu esticar a noite na balada mais quente de Paris, o Club Silencio, onde, além dos sócios, só entram alguns sortudos selecionados na porta por uma rude segurança. Ele recebeu da conciergerie um cartão e a recomendação de que o mostrasse na entrada. Por volta da meia-noite, bastou exibir o pedacinho de papel vermelho com dourado para sumir pelos quatro silenciosos pisos subterrâneos projetados pelo cineasta David Linch até aquela mistura de bar, galerias de arte, biblioteca, teatro, cinema e danceteria. Os quatro restaurantes do Plaza estão sob a responsabilidade de Alain Ducasse, o cozinheiro de 24 estrelas (a soma de classificações do guia Michelin de seus 21 restaurantes por oito países). 

 

O principal, triestrelado, é o que leva seu nome e não abre nos fins de semana. Há ainda o Relais Plaza, onde a cozinha prepara uma saborosa porchetta de coelho. Ou o Jardim Montaigne, com mesas na calçada e cardápio mais leve, no qual se pode provar croc monsier com trufas, club sandwich de king crab e um sushi de salmão escocês, acompanhado por Chablis gelado. Com a bênção do chef ainda se come magistralmente na Galeria de Gobelins por onde desfilam jovens que confirmam a máxima montaignesca de que a despreocupação é um mal verdadeiramente indolor. Eles seguem animados rumo ao feérico Le Bar atrás de mojitos negros feitos de vodka de amora e canapés by Ducasse. Terminam a noite com champanhe Cristal e saem de lá com contas dignas de serem emolduradas. 

 

 

5º dia – COMPORTAMENTOS EXUBERANTES

 

 Primeiro obstáculo da última manhã em Paris: abandonar a cama do Plaza sem vacilar, relevando todas as tentações para perder a hora. Colchão, lençóis, cobertores, tudo beira a perfeição. E se você não tivesse ficado satisfeito com seus seis travesseiros de diferentes espessuras, havia ainda um cardápio impresso sugerindo mais meia dúzia de opções, inclusive com a troca do enchimento de penas de ganso por uma mistura de crinas de cavalo. Segundo obstáculo da despedida: ser rápido no café da manhã, apesar do menu de pãezinhos preparados pelo pâtissier Chistophe Michalak, eleito campeão mundial da especialidade.

 

De Paris para Zurique e de lá, num Avro da Swiss, para Milão, rumo ao Principe di Savoia. O hotel, de 1927, já foi descrito por publicações americanas como uma espécie de “clube privado da aristocracia endinheirada”, o que não é inteiramente justo. A sofisticação italiana, sempre que comparada à francesa, parece acrescentar alguns graus de calor, cores e até amabilidade. A pompa de palácio milanês não é suficiente para inibir o ar festivo do Principe di Savoia e talvez esse clima descontraído possa explicar o comportamento exuberante adotado por algumas das estrelas que se hospedaram ali. O ator George Clooney, por exemplo. 

 

Ele ocupou a Suíte Presidencial (€ 17 mil a diária) e um belo dia resolveu transformar o longo corredor de mármores grenás da entrada numa pista de boliche. Com um arremesso estiloso, rolou pelo chão uma enorme esfera de mármore negro que servia de enfeite sobre uma mesa do século XVIII. O estrago que causou foi avaliado em € 22 mil, devidamente cobertos por seu patrocinador. A suíte danificada por Clooney tem a piscina coberta que foi um dos cenários mais espetaculares do filme “Em Algum Lugar”, de Sofia Coppola (é onde o ator Stephen Dorff se divertia com a filha durante sua temporada italiana).

 

O restaurante do Principe di Savoia é o impecável Acanto, um dos melhores de Milão, comandado pelo chef Fabrizio Cadei. Ele se dedica à clássica cozinha italiana, o que quer dizer uma comida preparada ao estilo das famílias. “La cucina di casa é a única que merece ser chamada de cozinha italiana”, já definiu uma das maiores especialistas no assunto, a escritora Marcella Hazan. O hotel segue surpreendendo em cada detalhe. Até nas amenities que oferece no banheiro dos quartos. Todos os cremes, xampus e sais são da prestigiada Acqua di Parma. E uma boa notícia: hóspedes muitíssimo ricos também têm o hábito de levar os potinhos para casa como suvenir. 

 

 

6º dia – AS MANIFESTAÇÕES DE IMPORTÂNCIA

 

 O Principe di Savoia tem pacotes de hospedagem que incluem o aluguel de uma Ferrari ou Lamborghini para um dia de passeio. Custam de € 3.300 a € 4.000, por duas noites, dependendo da suíte. Que tal dirigir uma Ferrari California pelas ruas de Milão? Vermelha, linda, ela espera você na Piazza Sempione. Numa manhã ensolarada e sem trânsito, dá para acelerar com vontade, até ouvir o aclamado ronco do motor que, em três segundos, atinge 100 km/h. Cada acelerada deve fazer gemer o fundo de um poço de combustíveis fósseis. Mas vale a pena. 

 

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O escritor Peter Mayle diz que foi “para manter manifestações adequadas de importância no meio dos pedestres” que os marajás começaram a usar elefantes com uma cabine pendurada em cima, os monarcas recorreram a carruagens puxadas por cavalos prateados e os magnatas adotaram a limusine negra (“a branca é vulgar, a cinza é para banqueiros e a castanho-avermelhada não serve para cavalheiros”, esclarece Mayle). Esses símbolos de refinamento têm, porém, uma desvantagem básica quando comparados a uma Ferrari. Jamais alguém verá marajás cravando esporas em elefantes, reis cocheiros ou ricaços pisando fundo numa limusine. Já com a Ferrari, o prazer juvenil de dominar a supermáquina é o nome do jogo. A elegância impositiva de Milão e dos milaneses fica mais evidente nos dias de primavera. 

 

Ela está por todo canto, até na casualidade: da Via Monte di Pietá, no coração comercial da alta moda, você pode ver surgir uma senhora pedalando suavemente sua bicicleta. Cabelos presos, blazer e saia cinza, sapatos altos, ela carrega uma bolsa cor de caramelo na cestinha dianteira da bike. Pega a Via Croce Rosa, até uma butique com o nome de Tearose. Deixa a bicicleta encostada na parede e antes de entrar na loja dá uma espiada na vitrine da livraria vizinha, na direção da pilha de exemplares do livro Balls – The Legendary Costumes. Então, some pela porta escura da Tearose. A cena toda pode ser observada de uma mesinha de canto, na varanda envidraçada do bar Caruso Fuori, na Via Croce Rosa. – “Per favore, un altro negroni…” Per la donna. 

 

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7º dia – NO PARAÍSO DA MODA

 

Pouco mais de 20% do PIB da Itália está na Lombardia, seu centro financeiro é Milão e o núcleo da moda, nessa cidade aclamada como quartel-general das tendências italianas, fica entre as vias della Spiga, Corso Venezia, Montenapoleone e Manzoni. Para o translado de seus hóspedes até esse paraíso do consumo, o Principe di Savoia mantém um serviço de limusines Mercedes-Benz, todas negras, em três diferentes pontos do quadrilátero. As compras eram uma das opções da última manhã da viagem. 

 

Rivalizavam com uma visita ao convento de Santa Maria delle Grazie para ver a Última Ceia de Da Vinci; o Cristo de Mantegna que lembra Che Guevara morto, na Pinacoteca di Brera; a descoberta do Museo del Novecento; ou as buscas gastronômicas na incrível loja Peck, perto do Duomo. A despedida foi um retorno à culinária do chef Fabrizio Cadei, desta vez no segundo restaurante do hotel, o Il Salotto, acompanhados da calorosa equipe de anfitriões do Savoia. Depois dos vinhos de sobremesa, uma limusine leva os hóspedes até o aeroporto de Malpensa para o embarque de volta a Zurique. 

 

*Por fim, Guarulhos. O sol ainda nem apareceu direito e a Marginal do Tietê já está enrolada no primeiro engarrafamento do dia – sem a menor promessa de refresco. Não seria recomendável, numa hora dessas, passar o tempo rememorando a viagem. Talvez valha mais a pena pensar em Montaigne, aquele do endereço do Plaza. Homem que viveu em tempos duros, quando não havia lugar para o idealismo esperançoso, Montaigne recomendava que se prestasse atenção às experiências e sensações não pelo que poderiam representar, ou pelas lições que pudessem conter, mas para “efetivamente senti-las”. É uma receita bem simples: deixar-se levar. 

 

 

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Os mimos dos super viajantes


Companhias aéreas, hotéis, cartões de crédito e diversos programas de fidelidade paparicam seus clientes prioritários com serviços personalizados. Conheça algumas histórias de passageiros que você, provavelmente, nunca encontrará na fila do check-in.

 

Por Hugo CILO

 

 

O executivo Roberto Cortes, presidente da MAN Caminhões para a América Latina, é conhecido como “herr Cortes” nos aviões da companhia alemã Lufthansa. A saudação germânica, que expressa respeito e admiração a pessoas da mais alta patente, é pronunciada apenas aos superviajantes da empresa, donos de cartões negros HON Circle Member, concedidos a quem possui mais de um milhão de milhas de voo. Cortes preenche, com sobras, todos os requisitos necessários. Eleito pela Lufthansa o brasileiro que mais viaja para a Alemanha, onde fica a sede da MAN, o executivo fez dos jatos da companhia a sua segunda casa – e, como retribuição, é tratado como príncipe por ela. 

 

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“Em algumas épocas do ano, viajo duas vezes por semana para reuniões na matriz, em Munique”, diz Cortes, que tem 1,3 milhão de milhas no cartão fidelidade da Lufthansa atualmente. “Como não posso ficar muito tempo longe do escritório no Brasil, e faço bate e volta na maioria das vezes, a companhia faz de tudo para que eu me sinta no conforto do meu quarto.” Para suportar uma rotina tão intensa, um complexo e sincronizado conjunto de serviços exclusivos foi configurado especialmente para o executivo. Tudo começa muito antes de o avião decolar da pista de Cumbica, em São Paulo. 

 

Ao chegar ao aeroporto, Cortes é levado diretamente para uma sala luxuosa da Lufthansa para relaxar antes do voo. Lá, sozinho, o executivo pode tomar banho, tirar um cochilo ou mesmo assistir aos filmes e documentários de sua preferência. Um funcionário da companhia se encarrega de fazer o check-in, despachar a bagagem e avisar à equipe de comissários que “herr Cortes” está a caminho. Assim que entra na aeronave, ainda vazia, Cortes veste um discreto e elegante pijama, feito pela empresa aérea sob medida para ele. Em seguida, todos da equipe de bordo – desde piloto, copilotos e comissárias – cumprimentam pessoalmente o executivo. 

 

Durante o voo, ninguém lhe oferece bebidas alcoólicas, como ele prefere. Uma cesta com frutas é servida antes de chegarem os pratos principais, preparados a seu gosto. “Muitos me perguntam como eu aguento tanta viagem. É que eles não sabem das regalias que tenho”, diz Cortes, sorrindo. “Como para mim o estresse é zero, descanso melhor nos voos para a Alemanha do que em casa. Que minha mulher me perdoe por dizer isso.” Não bastasse o voo digno de um monarca, Cortes, quando decide passar uma noite em solo alemão, tem um quarto exclusivo no The Charles Hotel, no centro histórico de Munique, onde um funcionário é designado para atender a todos os pedidos do executivo brasileiro. 

 

Os mimos oferecidos para Cortes são rotina na vida de um seleto grupo de superviajantes, empresários e executivos ou simplesmente milionários. Um grupo que está cada vez maior. Segundo um estudo da Boston Consulting Group (BCG), o crescimento do chamado “luxo experimental”, como viagens de aventura e lazer, spa e hotel, será superior a 12% ao ano até 2014, acima de outros segmentos de luxo, como relógios e roupas. “Apesar da nuvem sobre o mercado de luxo no mundo, a expansão de países como China, Brasil e Rússia vai beneficiar o mercado mundial de produtos e serviços exclusivos”, afirma Jean-Marc Bellaiche, sócio da BCG. 

 

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“Ainda existe muito espaço para crescer no Brasil.” Se depender de viajantes como o decorador paulista Marcelo Felmanas, um caçador de peças raras de design em todo o mundo, o mercado de serviços superexclusivos continuará, de fato, em franca expansão. Dono da 6F Decorações, ele é um passageiro fiel da companhia árabe Emirates. Sempre que viaja para países como Índia, Tailândia e China – trajetos que podem demorar mais de 20 horas –, a empresa manda buscá-lo em casa de limusine, como cortesia, e oferece champanhe francês no caminho para o aeroporto. “Sou muito paparicado dentro e fora dos aviões da Emirates, algo que me realiza tanto quanto o prazer do meu trabalho”, diz Felmanas, com quase um milhão de milhas acumuladas. 

 

Quando viaja à Europa ou a lugares mais distantes, como Hong Kong, os hotéis lhe oferecem os melhores quartos, pratos exclusivos e traslados com os carros mais luxuosos disponíveis. “O bom de tudo é que, em muitos casos, fazem isso de graça por mim, sem que eu pague um centavo sequer”, afirma. “Gostaria que todos tivessem a oportunidade de conhecer tal tratamento.” Milionários como Renato Ratier, herdeiro de uma tradicional família pecuarista de Mato Grosso do Sul, conhecem muito bem esse universo do luxo. Ratier, que se tornou um DJ de renome no cenário internacional, deixou suas empresas do agronegócio sob gestão de parentes para se dedicar ao mundo do entretenimento. 

 

Ele abriu em São Paulo, em 2003, o D-Edge Club, eleito pela revista DJ Magazine a 9ª melhor, num ranking de 100 casas de música eletrônica espalhadas pelo planeta. Dono de seu próprio jato, o empresário percorre o Brasil e o mundo organizando megaeventos e agitando baladas de tecno. “Sou apaixonado por tecnologia, design e música, tudo que remete ao luxo e ao entretenimento”, diz Ratier, que estuda ampliar seus negócios com a abertura de uma empresa de táxi aéreo com os aviões da família. “Quando vou para fora do Brasil, experimento o que há de mais luxuoso, seja em Mônaco, seja na Alemanha, Portugal ou Espanha.

 

Como estou sempre em busca de inspiração em lugares exclusivos, onde quer que eu fique me o oferecem o que há de melhor.” Mordomias exclusivas semelhantes às de Felmanas e Ratier são oferecidas ao arquiteto baiano David Bastos, dono de escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Quase todos os meses, ele percorre o mundo em busca de inspiração para seus projetos, além de marcar encontros com potenciais parceiros internacionais e visitar feiras de design. Com mais de 800 mil milhas acumuladas na TAM, ele costuma fazer upgrade de categorias de passagens em companhias aéreas parceiras, de classe executiva para primeira classe, por exemplo, e trocar pontos por serviços nos hotéis em que se hospeda. 

 

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“Em Milão, sou conhecido pelo nome em hotéis tradicionais, como Bulgari e Príncipe Di Savoya, os meus favoritos”, afirma Bastos. “Quando chego lá, está tudo pronto para mim, da maneira que gosto, desde o quarto até minha salada de frutas.” Ser tratado como rei, não apenas com cortesia e educação, é a ferramenta mais utilizada pelas empresas que vivem no mercado de luxo. “O plano de fidelização de clientes precisa ir muito além das questões básicas: preço, qualidade e confiança”, diz Jansen Ferguson, diretor de estudos da consultoria sueca Raw Group. “No Brasil, embora esse mercado ainda seja novo, as empresas estão se saindo muito bem.”

 

O executivo português Sérgio Monte Lee, presidente da consultoria Maksen no País, é um desses clientes que usufruem cortesias exclusivas das empresas. Tudo graças às mais de um milhão de milhas que já conquistou no programa Star Alliance, consórcio mundial de companhias áreas ao qual pertence a TAM, e à pontuação acumulada nas redes hoteleiras em que se hospeda. Em suas viagens mensais para a matriz da Maksen, na ilha de Malta, além das diversas idas a países da África e Europa, Lee tem à disposição mimos como seu xampu favorito nos hotéis, massagens gratuitas nos spas parceiros dos programas de fidelidade e até roteiros de viagens exclusivas para ele e sua família durante as férias.

 

“A última viagem que fiz pelo programa de milhagem, nas Ilhas Maurício, foi incrível”, diz o executivo. “Minha mulher, meus filhos e eu tivemos todo tipo de agrado, até as refeições que meus filhos mais gostam.” Os agrados aos superviajantes não partem apenas das companhias aéreas e hotéis. Nos últimos anos, as bandeiras de cartões de crédito criaram programas de recompensas voltados aos viajantes que consomem o luxo. A Mastercard, por exemplo, desenvolveu uma série de benefícios gratuitos aos seus clientes prioritários, que vão desde a simples troca de pontos por passagens aéreas até serviço 24 horas de concierge, que os ajuda em tarefas que como a compra de um bolo de aniversário e a locação de motocicleta no deserto do Saara ou de uma Ferrari em qualquer país. 

 

Foi esse o caso do executivo Caio Dimov, da consultoria Roland Berger. No início do ano, ele solicitou à central de atendimento do Mastercard Black uma Ferrari vermelha para seu passeio de uma semana em Portugal. “Sempre que viajo a trabalho exploro ao máximo os benefícios dos programas de fidelidade e as vantagens oferecidas pelos cartões de crédito”, afirma Dimov. “Com isso, consigo viajar de graça nas férias e ainda receber um atendimento superespecial, como a reserva de um bom restaurante na Escandinávia ou a compra de tíquetes para baladas em países exóticos, utilizando ou não os pontos do cartão.” As administradoras de cartão sabem que proporcionar experiências inéditas e personalizadas, que vão muito além de salas VIP em aeroportos, é algo fundamental para os negócios. 

 

“Quem usa os serviços de luxo que desenvolvemos para os clientes nunca mais deixa de usar”, diz Fábio Estrella, vice-presidente de relacionamento e serviços para o consumidor da Mastercard. Segundo o diretor-executivo de produtos da Visa, Percival Jatobá, quem utiliza os mimos oferecidos pelos cartões aumenta em 18% a concentração de gastos no cartão. “Dias atrás, nós organizamos um pedido de casamento nas gôndolas de Veneza, na Itália, com direito a serenata, flores e tudo mais”, afirma Jatobá. “Sem nenhum custo, passamos a fazer parte da história desse casal, que será fiel à Visa até que a morte nos separe.”

 


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