2020 – ou o ano das mulheres

2020 – ou o ano das mulheres

Para sempre, vamos nos lembrar deste 2020 como o ano em que tudo virou de cabeça para baixo. Ou quase tudo: mesmo com a pandemia, e muitas vezes por conta dela, as mulheres chacoalharam o cenário global, trazendo definitivamente para a pauta a necessidade de igualar seus direitos com os dos homens em muitas, incontáveis frentes. Um resumo rápido deste ano inusitado mostra que:

  1. – Os melhores casos de enfrentamento à pandemia continuam sendo registrados nos países comandados por mulheres. Foram elas as primeiras a entender o que precisava ser feito, com sensibilidade e pulso firme, e a fazer. Salvaram um bocado de vidas assim. Destaque para os discursos emocionados e ao mesmo tempo racionais de Angela Merkel, a premiê alemã, com efeitos surpreendentes na população. Entender como a perspectiva feminina alavancou os resultados durante essa crise global certamente vai ajudar a melhorar a gestão pública feita por outras mulheres – e, principalmente, por homens. Vem muito estudo bom por aí, com certeza.
  2. – Este foi também o ano em o mundo se deu conta de algo que já se sabia: as mulheres são maioria absoluta na linha de frente da saúde. Enfermeiras, técnicas, fisioterapeutas, médicas têm sido o pilar que sustenta a atenção aos pacientes e, muitas vezes, a conexão com suas famílias. Trazidas para a luz, a próxima fronteira é discutir a diferença salarial entre homens e mulheres nessas funções, a proteção que se dá à mulher que escolhe a saúde como carreira e, ainda, a presença feminina em lugares onde as decisões do setor são feitas (os dados deixam claro que, também aqui, essa maioria ainda está concentrada na base da pirâmide).
  3. – Nos Estados Unidos, uma mulher negra foi fundamental para que as eleições dessem ao presidente Donald Trump o recado de que seus dias no poder terminaram. Não é outra a razão pela qual o governo que o presidente eleito Joe Biden está montando tem, além da vice Kamala Harris, muitas mulheres, e mulheres representantes de minorias, em posições importantes – o que leva a crer que não serão apenas uma espécie de cota para aparecer na foto. Ou como disse Kamala no discurso da vitória: ela pode ser a primeira, mas não será a única.
  4. – No Brasil, as eleições municipais vieram com a regra de financiamento de candidaturas de mulheres mais ajustada (ainda não tanto quanto deveria). Mas apenas uma mulher se elegeu prefeita nas capitais. Nas outras cidades do país, o número passou de 11,6% com prefeitas eleitas em 2016 para 12,2% este ano – um avançozinho de nada. A boa noticia é que as candidaturas femininas bateram recorde – mais e mais mulheres estão se convencendo de que política não é um bicho masculino de sete cabeças. E quando a deputada paulista Isa Penna, “abraçada” pelo colega Fernando Cury no plenário, denuncia o caso como importunação sexual, coloca na mesa o debate inescapável sobre tornar as casas legislativas e a administração pública um lugar mais seguro para as mulheres.
  5. – O Nobel de 2020 premiou mulheres em quatro das 11 categorias, duas delas juntas – algo inédito – em Química. Isso mostra o esforço dos últimos anos para buscar nomes que fujam da obviedade masculina e branca. E carrega duas verdades – a primeira, há muitas mulheres competentes por aí, basta querer encontrar. A segunda: é cada vez mais constrangedor para instituições como o Nobel fingir que não há mulheres competentes por aí simplesmente pela falta de empenho em encontrá-las.
  6. – A explosão de casos de violência contra mulheres em isolamento em suas casas, para escapar da pandemia, mostrou que temos outra pandemia em curso. E que precisa ser encarada. Da China, onde o vírus apareceu e os casos de abuso cresceram 30%, ao Brasil, já tristemente famoso pelo números de feminicídio e estupros. Também neste tema, fica cada vez mais constrangedor para empresas e governos fingir que é assunto a ser tratado entre quatro paredes. Os próximos anos podem mostrar iniciativas mais eficazes para combater essa vergonha.
  7. – Da mesma maneira, a pandemia deixou ver que os negócios tocados por mulheres são mais frágeis, e que são elas as primeiras a perder seus empregos num solavanco da economia (por diversas razões). Uma pesquisa da Rede Mulher Empreendedora mostrou, ao mesmo tempo, que elas têm sido mais resilientes que os empreendedores homens, e mergulharam mais rapidamente nas soluções digitais para vencer a crise. Até alguns anos atrás, esses dados não existiam ou eram pouco confiáveis – o que sempre prejudica as soluções especificas. Com tanta informação (e pressão crescente das mulheres e, vejam só!, dos investidores), fica difícil não endereçar políticas públicas e ações afirmativas que olham para metade da população do planeta.
  8. – Investidores, aliás, têm sido determinantes para elevar o número de mulheres em cargos de direção e conselhos das empresas. De olho na performance dos negócios e na pauta cada vez mais focada em temas ASG (ou ambiental, social e governança), estão se dando conta de que apoiar as mulheres na sua trajetória de carreira é a saída mais eficiente. Diversas iniciativas como a da Nasdaq, que quer exigir ao menos uma mulher no conselho e um diretor oriundo de minorias para listar a empresa, estão pipocando mundo afora. Já não era sem tempo. No Japão, país de cultura machista, essa pressão resultou em um aumento da presença feminina em conselhos de 2% para 10% em apenas 5 anos – e o numero continua a crescer.

Por essas e muitas outras, não dá para resistir ao clichê: este ano vai mesmo entrar para a história (das mulheres). Que venha um bom 2021 para todos nós!

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