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2019: o ano em que o mundo abriu os olhos para a emergência climática

Com base em evidências científicas preocupantes, milhões de cidadãos protestaram este ano ao redor dom mundo para exigir que os governantes atuem contra a mudança climática, um movimento paralelo ao avanço dos atos de desobediência civil.

Greta Thunberg, uma adolescente sueca desconhecida há 12 meses, se tornou aos 16 anos o rosto de uma juventude impaciente. Com sua greve escolar, ela mobilizou os estudantes, que protestaram nas ruas por uma causa comum.

Seu grito se propagou ao mesmo tempo que o Extinction Rebellion, movimento de desobediência civil não violento nascido no Reino Unido, foi organizado em dezena de cidades. Aos gritos de “a esperança morre, a ação começa”, os manifestantes bloquearam estradas, pontes e até centros comerciais.

A mobilização ganhou força após a publicação, no fim de 2018, do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) sobre como o planeta ficará com uma temperatura +1,5ºC mais quente frente a +2 ºC.

“Os cientistas mostraram que cada meio grau conta”, afirma Amy Dahan, historiadora e especialista em mudança climática do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. A mensagem, que até então só havia alcançado as autoridades públicas e ONGs, entrou no espaço público graças aos cidadãos que compartilharam o relatório em grande escala.

“O fenômeno é novo”, constata a climatologista Corinne Le Quéré, presidente do Alto Conselho para o Clima na França e integrante do Comitê sobre Mudança Climática britânico.

“Há 30 anos trabalho na área de mudança climáticas e durante 29, como cientistas, fazíamos nosso trabalho tranquilamente”, conta, antes de afirmar que atualmente recebe convites diariamente para participar em debates.

O “Relatório +1,5 ºC”, como é conhecido agora, também foi crucial para Caroline Merner, uma ecologista de 24 anos. “Nos apresento uma linha de tempo muito clara: restam 12 anos para agir”, afirma a canadense, que integra o movimento Youth4Climate.

Para Merner, não é mais possível aceitar a brecha entre as promessas políticas e as ações concretas. “Os jovens não aceitam mais o ‘greenwashing'”, explica.

– O resultado da pressão –

Este ano, o IPCC apresentou novos motivos para o alarme, com relatórios dedicados à terra e aos oceanos. O grupo de especialistas da ONU sobre a biodiversidade, o IPBES, advertiu sobre a vertiginosa degradação das populações de espécies.

Ao mesmo tempo, os fenômenos climáticos extremos aumentaram, do ciclone Idai em Moçambique ao tufão Hagibis no Japão, passando por uma onda de calor recorde na Europa, secas na América Central e incêndios na Austrália, Califórnia e na Amazônia brasileira.

“Estamos vendo as mudanças climáticas com nossos próprios olhos”, constata Corinne Le Queré. “Esta realidade nos orbria a agir”.

2019 se anuncia como um dos anos mais quente já registrados, depois que os últimos quatro já estabeleceram este recorde.

A pressão das ruas e também das urnas, com o avanço dos ecologistas, por exemplo, no Parlamento Europeia, está acabando com a inércia dos governos. Paris e Londres declararam emergência ecológica e climática.

Durante uma reunião da ONU sobre o clima em setembro, marcada por grandes manifestações, 66 Estados se comprometeram com a neutralidade de carbono até 2050. Porém, o governo dos Estados Unidos confirmou a saída do Acordo de Paris.

A mobilização foi grande nos Estados Unidos, Austrália e Europa, mas um pouco mais modesta na Ásia, África e América Latina, embora estas regiões apareçam na linha de frente das mudanças climáticas.

Mas isto não significa que estas populações permanecem inativas, de acordo com Alfredo Jornet, professor da Universidade de Oslo, que cita como exemplo os povos indígenas da Amazônia, que há muito tempo se mobilizam contra o aquecimento.

“Quem tem dinheiro e privilégios pode se dar ao luxo de ter preocupações com o clima”, opina Melina Sakiyama, ativista brasileira de 34 anos, resumindo um sentimento que tem ressonância sobretudo entre as classes populares, obrigadas a concentrar-se no presente para seguir adiante.

A mobilização vai crescer em 2020, um ano fundamental para o clima e natureza? No plano institucional, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) celebrará seu congresso mundial em junho na França, antes de um encontro de cúpula sobre a biodiversidade, que acontecerá em outubro na China.

Alfredo Jornet prevê o aumento das manifestações. “A questão é saber como canalizar esta agitação para uma sociedade melhor, mais democrática e sustentável”.

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