Negócios

10 perguntas para Vandick Silveira economista, CEO da Trevisan Escola de Negócios

“A bolsa implode. Não há fundamentos econômicos”

Crédito: Claudio Gatti

VanDyck Silveira pode ser apresentado como o mais otimista dos pessimistas brasileiros. Ou o contrário, dependendo de onde começa a conversa. Graduado em economia, mestre em economia e doutor em economia, ele hoje comanda a operação da Trevisan Escola de Negócios, e coleciona passagens à frente do Ibmec e atuação como consultor por Estados Unidos, Europa-Inglaterra e Ásia. Nesta entrevista, ele aponta para uma bomba-relógio nos fundamentos da economia brasileira que deve levar à implosão da Bolsa de Valores até 2023. “Assim que os Estados Unidos começarem a subir os juros”, afirmou. Ele acredita que bem-intencionados profissionais que hoje cercam o governo federal no campo macroeconômico vivem numa falsa premissa de que com um eventual segundo mandato de Bolsonaro seria possível consertar os fundamentos estruturantes do País. “Nada mais falso.”

Em termos macroeconômicos, como você avalia a atuação do governo?
Tivemos mais um mandato perdido. Pior. Com todas as promessas de campanha não cumpridas, incluindo os dois principais pilares: combate incessante à corrupção e abertura econômica por meio de reformas estruturantes. Nada chegou nem perto de acontecer. Estou muito decepcionado com o Paulo Guedes, um amigo.

Qual o reflexo de curto prazo?
O que alivia o pescoço do Ministério da Economia é esse boom de commodities e o fato de que nunca na história da humanidade houve tanta liquidez. Há uma quantidade exorbitante, eu diria imoral, de capital barato. A Bolsa estar pelos 125 mil é em função disso. Não existe nenhum fundamento da economia brasileira que indique estar acima de 110 mil pontos. O que existe é um tsunami de liquidez e os agentes financeiros não sabem o que fazer com esse dinheiro, porque as taxas de juro no mundo civilizado continuam zero. Virou cassino money. Colocam dinheiro no Brasil e em países que não têm fundamento que justifique.

Principalmente pela questão fiscal…
Temos uma relação de dívida/PIB que se não fosse pela inflação teria passado de 100%. Para se ter uma ideia, gastamos em 2020 tudo o que seria economizado em dez anos com a reforma previdenciária, os R$ 800 e pouco bilhões. Gastamos mal e agora a gente se colocou numa situação fiscal que virou uma amarra. É muito arriscado emprestar para o Brasil. Tanto que a dívida vem se comprimindo nos últimos anos. Agora, a maior parte dela vence em até 24 meses. A iminência de uma crise de iliquidez começa a se formar no horizonte. Ela não é mais nem impossível nem improvável. E a questão fiscal condiciona tudo no Brasil, inclusive a inflação, que está saindo de controle. O que impacta cada vez mais os mais pobres, que veem implodir seu poder de compra.

O crescimento do PIB previsto para este ano aliviaria isso?
Hoje temos um PIB/país equivalente a 2016 e um PIB/per capita em linha com 2014. Isso significa que as pessoas ficaram mais pobres do que o País ficou mais pobre. Com pouquíssimo espaço para endividamento.

Já está precificado pelo mercado que as reformas não irão acontecer. E na minha percepção, em nome da reeleição, o governo vai bombar gastos…
Nenhuma reforma vai acontecer. Tenho essa mesma percepção. O que eu vejo na cabeça do governo e dos interlocutores que estão no poder com quem converso, que são profissionais de economia e politicamente desvinculados, é de que existe ali uma falsa premissa de que com a reeleição será possível consertar no segundo mandato.

O que explica, então, o otimismo como o varejo acreditar que vai reagir como nunca a partir de setembro?
Olhe a minha cara (risos). Lembra de um tal Lula da Silva, de uma tal Dilma… Ali a gente inventou o banco de investimento do toma a 10 e empresta a 5. Esse dinheiro vem de inflação. Vem de imprimir dinheiro. A gente não deve voltar para o trilho de meta de inflação tão cedo. O que a gente deveria estar fazendo, e não estamos, é a retomada de um plano de retidão fiscal, de equilíbrio fiscal. Adotar um caminho objetivo e claro de produção de superávit fiscal. É 2023? É 2024? Ter um plano. Não tem nada sendo feito. Pelo contrário. A gente está falando em aumentar gastos. Via o novo Bolsa Família, o Programa Bem. A pior coisa que pode acontecer é inflação com crescimento baixo. Junte-se a isso o risco político. Não pode ficar pior do ponto de vista institucional.

Não existe condescendência do mercado com as lambanças do governo?
Acho que tem um pouco sim. Seria uma vergonha ter o terceiro impeachment desde a redemocratização. O problema é que o Bolsonaro, quando percebe essa distensão por parte do mercado, escala a ‘brincadeira’. E o mais letal disso, o mais nocivo, foi o envolvimento das Forças Armadas. Quando você tem o ministro da Defesa atacando o presidente da CPI com palavras muito duras isso agrava o cenário. E aí politicamente a sustentação está no Centrão, o mesmo Centrão que ficou ao lado do Collor, que ficou ao lado da Dilma… Todo mundo está vendo que o presidente está perdendo comando. O governo hoje depende de uma única canetada do Lira [Arthur, presidente da Câmara] de abrir o impeachment.

Mas o mercado acredita mesmo que exista chance de impeachment?
Todos com quem tenho acesso e conversado têm medo [de que isso ocorra], porque o custo é muito alto. Agora, o Centrão vai cobrar preço de monopólio, que sobe rapidamente num momento como esse. Mas ainda assim acho que o presidente não será impedido. Vai sangrar, ser um pato manco, como dizem nos Estado Unidos. Vai ser instrumento do Centrão para todo tipo de vontade. Não é interesse do Centrão ter o Mourão [Hamilton, vice-presidente], como presidente da República. Não dou 30% de chance de um evento desse acontecer. Mas seria o único cenário em que a gente poderia ter algum tipo de reforma goela abaixo, uma reforma Administrativa mais ‘dentada’, em que direito adquirido pode ser ‘desadquirido’. Será preciso distribuir malefícios. Sem isso não há reformas.

E o cenário externo?
Os Estados Unidos promoveram o maior enxerto de liquidez da história. A taxa de juro americana, para ficar em nível neutro, de equilíbrio, deveria estar em torno de 6% hoje. O Fed já sinalizou que vai começar a diminuir a compra de ativos. E isso pode acontecer amanhã. Mas não passa de meados de 2023. No momento em que fizerem isso, o BC Europeu, o da Inglaterra, o japonês e o suíço, que são os que importam, farão o mesmo. Vamos ter uma fuga de capitais de países como o Brasil.

E o resultado aqui?
Uma implosão da Bolsa de Valores. Porque os efeitos de leitura de fundamentos econômicos vão imperar. E os da economia brasileira não indicam uma Bolsa a 128 mil pontos. Mas há uma saída. Mostrar que somos sérios, que temos um esforço fiscal, de redução de gastos, o que no momento da hecatombe seria decisivo. Porque não vamos conseguir aumentar o juro para trazer de volta esse capital. Estaríamos falando em taxa de 20%, 25%, que paralisa a economia e empurra a gente de novo para a recessão. Fizemos nada para resolver problemas estruturais. E o grande perigo está logo aí.