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10 perguntas para Sergio Souza presidente da Resorts Brasil

Crédito: Claudio Gatti

“Uma pandemia descontrolada custa mais do que uma recessão” (Crédito: Claudio Gatti)


O presidente da Resorts Brasil, Sergio Souza, é enfático ao afirmar que sem “a ajuda do governo, o setor hoteleiro quebra”. Ele afirma que a Medida Provisória 936, que possibilita às empresas reduzir custos com folha de pagamento, ao mesmo tempo em que mantém boa parte da renda do trabalhador, pode ser a tábua de salvação. “O fôlego dessa indústria é curto”, diz. Souza, com o apoio de outras entidades de um setor que representa 8,1% do Produto Interno Bruto (PIB), trabalhará para que o governo, por meio de bancos públicos, ofereça crédito com custo baixo para que o setor consiga passar pela tempestade. “Se aguardarmos os bancos privados fazerem algo, vamos esperar sentados.”

DINHEIRO – Como a Resorts Brasil tem atuado neste momento de pandemia?
Sergio Souza – Com essa crise, houve a união de todas as associações hoteleiras do País. A Resorts Brasil liderou esse movimento para defender toda a indústria.

Qual o tamanho desse setor?
O setor de viagens e turismo como um todo representa 8,1% do PIB e gera 6,8 milhões de empregos diretos e indiretos. A hotelaria por si só tem mais de 31 mil estabelecimentos e gera 1,3 milhão de empregos diretos e indiretos. Quero ressaltar que a maioria dos resorts está localizada em cidades pequenas, ou seja, costumam ser a principal atividade econômica desses lugares e indutor de outros negócios locais.

E está totalmente parado?
Praticamente, nada funcionando. O setor de Resorts está 100% parado. O de parques também, enquanto o setor de hotelaria convencional tem alguma coisa em funcionamento porque atende a profissionais da saúde, além de pessoas ligadas à cadeia de abastecimento, que precisam circular pelo País. Mas a ocupação varia de 5% a 10%.

Quanto tempo o setor suporta a situação?
O fôlego dessa indústria é curto. Quando sofremos a interrupção, em março, a gente tinha a receita da primeira quinzena, que já está toda indo embora. Em abril, nossa receita vai ser zero. Se a quarentena continuar, em maio a receita vai ser zero de novo. Não temos fôlego para nos mantermos mais do que dois meses. Sem ajuda do governo federal, o setor hoteleiro quebra.

A MP 936 é um auxílio que resolve?
Sim. Hoje, eu diria que nós estamos começando a respirar graças à MP 936, que criou regras para suspender contratos de trabalho sem deixar o empregado desamparado. Ou seja, resolvemos o problema da folha. Estávamos preocupados com isso, pois em nossa avaliação 250 mil vagas de empregos poderiam ser encerradas. Agora, vamos trabalhar em outras frentes para conseguirmos crédito, resolver a questão que envolve tributos e equacionar o pagamento de insumos.

Vocês têm se reunido com o governo para apresentar demandas?
Fizemos várias reuniões com o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Ele percebeu a gravidade da situação desde que a pandemia chegou à Europa e aos Estados Unidos e viu que o primeiro setor que os governos socorriam era o de turismo. Então, ele levou nossas demandas para o Ministério da Economia. O ministro Paulo Guedes nos disse que não era possível soltar medidas específicas para o setor, que tinha de ser transversal. Ficamos preocupados, porque se fosse transversal poderíamos ser esquecidos. Mas aí veio essa MP 936 que contemplou parte de nossas solicitações e atendeu a outros setores.

O senhor disse que a questão da folha de pagamento está resolvida, mas que são necessárias outras medidas. Quais?
De crédito. De imediato, a Caixa Econômica Federal tem oferecido uma linha de crédito com juros de 3,75% ao ano. Mas o Ministério do Turismo negocia uma linha especial com o Banco do Brasil e o BNDES para emprestar com taxa anual inferior a 2%. Isso não está definido ainda, mas será muito importante. São juros bem abaixo do absurdo que os bancos privados cobram e que até este momento não fizeram nada para oferecer ajuda às empresas em geral. Se aguardarmos os bancos privados fazerem algo, vamos esperar sentados.

Qual sua perspectiva com relação ao fim da quarentena e a retomada da normalidade?
Tudo indica que teremos abril e maio fechado. De repente libera a abertura do setor em junho, passa julho e em agosto começa a alavancar. Então, estamos falando de três a quatro meses sem fluxo de caixa. O primeiro fator de retomada será de pessoas cansadas da quarentena que vão querer viajar. O segundo será de empresas que cancelaram todos os eventos nos meses de março, abril e maio. São eventos que têm de acontecer e vão acontecer no segundo semestre. Isso vai ajudar na retomada.

O o governo federal está sendo suficientemente ágil na aprovação de medidas para ajudar as empresas e as pessoas?
Eu penso da seguinte forma. Passamos por situação inédita e não temos referência para comparar. É difícil fazer críticas. Eu acho que o governo está empenhado em agir, mas são medidas imensas e a gente não está num país cujos problemas começaram com a pandemia. Nossos problemas são antigos, temos uma estrutura complexa, burocrática. Para o dinheiro chegar à ponta dá um trabalho imenso.

Há quem defende a quarentena e quem diga que só vai prejudicar a economia. Qual sua visão sobre isso?
Eu acho que o [ministro] Mandetta está 100% certo, assim como o governador de São Paulo, João Doria, e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Olha que estou falando de três partidos diferentes. Eu entendo que contra fatos não há argumentos. E discutir não é o melhor caminho. Tenho parentes na Itália, sei que o que está acontecendo lá é muito triste e não quero que se repita aqui. Eu entendo a preocupação do governo federal com a economia. O problema é a maneira como você se comunica. Uma pandemia descontrolada custa muito mais caro economicamente do que uma recessão. Eu prefiro demitidos a falecidos.