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10 perguntas para Philippe de Nicolay Rothschild viticultor e dono da importadora PNR Group

“Eu só vendo vinhos que compraria para tomar na minha casa”

Crédito: Gabriel Reis

Nascido em 1955, em uma família de banqueiros e produtores de vinho que já figurava entre as mais poderosas da Europa um século antes, Philippe de Nicolay Rothschild conviveu com celebridades desde cedo. Seus pais recebiam em casa artistas como Salvador Dalí, Maria Callas, Liz Taylor e Audrey Hepburn. Há 11 anos, depois de construiur uma casa em Trancoso, na Bahia, decidiu viver em São Paulo. Em 2014, já casado com Cris Lotaif, diretora de boutique da Dior, criou a empresa PNR Group, que leva suas iniciais. Inicialmente, importava para o mercado brasileiro rótulos que sua família produz tanto na França (caso do champanhe Barons de Rothschild e do tinto Carruades de Lafite) quanto no Chile, na Viña Los Vascos. Cinco anos depois, o negócio havia se desdobrado em duas novas divisões: o e-commerce e clube de vinhos Edega, com rótulos que ele garimpa nas regiões produtoras que mais admira em seis países; e o canal B2B Monvin, que vende para supermercados, empórios e restaurantes. O mercado da bebida e os desafios para produtores e importadores foram os temas desta entrevista à DINHEIRO.

O consumo de vinhos no Brasil cresceu acima da média mundial desde o início da pandemia. Qual a tendência agora?
Deu uma paradinha. Comparando com 2020, agosto já foi pior. O consumo per capita aumentou. Mas, com o câmbio desfavorável, o valor pago por garrafa está menor.

Os hábitos de consumo mudaram?
Sem dúvida. E o principal fator foi o fechamento dos restaurantes. As pessoas passaram a beber mais vinho em casa, comprando on-line ou nos supermercados, que continuaram abertos. Isso mudou o conhecimento do consumidor, tanto em relação ao preço quanto à qualidade do vinho que ele pode comprar. Antes, quem ia ao restaurante se limitava às opções daquela carta e à recomendação do sommelier — que muitas vezes recebe incentivo para vender determinado rótulo. O paladar brasileiro se desenvolveu. E muito.

Como essa evolução do paladar impacta a importação de vinhos?
Eu nasci em uma família que faz bom vinho. Desde que comecei a importar de outros produtores, sigo a mesma filosofia. Primeiro: exclusividade. Não vou entrar em uma guerra de preços. Segundo: o vinho que eu importo precisa ser feito com o mesmo cuidado que nós fazemos, em qualquer faixa de preço. Ou seja: respeitar o terroir, a uva, a vinificação. Marketing é outra história. O líquido dentro da garrafa precisa ser feito da melhor forma possível com a matéria-prima que se tem. Terceiro: eu não vendo uma garrafa que eu não beberia. É um mito pensar que eu só bebo Lafite. Se um vinho custa R$ 60 e vale R$ 120, ele é muito melhor que um vendido a R$ 300 que só entrega a metade disso.

Mas é preciso muito conhecimento para saber escolher um vinho com preço abaixo do que vale, concorda?
Eu considero que o vinho dentro da taça sempre deve valer mais do que preço pago por ele. Não se trata de custo-benefício e sim de custo-qualidade. Eu, como importador, não posso fazer nada em relação aos impostos e nem ao câmbio. O que posso fazer é procurar bons vinhos — e alguns serão mais em conta. O brasileiro está descobrindo novas regiões. A tendência é que ele tenha menos preconceito. Essa abertura permite dar o primeiro gole. E quanto mais vinhos o cliente prova, mais vezes tende a gostar. Só assim ele encontra o rótulo que vale mais do que custa.

O preconceito em relação ao vinho não tem a ver com o acesso à informação?
Quando eu recebo amigos em casa, nunca coloco a garrafa na mesa. Sempre sirvo no decanter. Se a pessoa não gosta, eu respeito. É como um quadro. Se você só está acostumado com pintura do século 19, pode se assustar ao ver um Picasso pela primeira vez. Da segunda, começa a entender. Da terceira, já está gostando. No vinho, o que importa é o prazer que você sente. Quanto mais desenvolvido é o país no mundo do vinho, menos importam as marcas.

Os clubes de vinho têm influência na evolução do paladar dos brasileiros?
Os clubes têm sido excelentes para isso, apesar das limitações. Um exemplo: o assinante geralmente escolhe uma entre três faixas de preço e recebe em casa as garrafas correspondentes, que não são escolhidas por ele e sim pela curadoria do clube. Quanto mais assinantes no clube, mais vinhos é preciso entregar. E o bom produtor de quem o clube comprava antes já não consegue fornecer naquela quantidade. Aí ele vai atrás de quem pode fornecer mais pelo mesmo preço. A qualidade cai. Eu criei o primeiro clube de vinhos no qual o assinante escolhe os rótulos que quiser dentro do portfólio
da importadora.

Falando sobre faixas de preço: o que faz com que alguns vinhos custem fortunas?
O preço é formado por uma série de itens. Se muitos milionários se dispõem a pagar por um produto cuja produção é limitada, o preço explode. Com apenas 6 mil garrafas por ano e tanta gente no mundo com desejo de status, o Romanée-Conti pode custar mais de 30 mil euros. É um Romanée-Conti. As pessoas compram para demonstrar status. E como não existe tanto Romanée-Conti disponível, o preço do La Tâche (segunda marca do mesmo produtor) também dispara. Hoje uma garrafa de La Tâche custa 3 mil euros. Quando você cria uma marca para um vinho excelente e não tem volume, cobra o quanto quiser. É diamante puro.

Até que ponto a safra influencia o preço?
Uma safra boa nivela todo mundo. Nas ruins, os grandes se destacam. Eles serão muito, muito melhores que os outros. É como ter uma Ferrari de um lado e um Fiat do outro. Em 2010, cada garrafa de Lafite foi vendida en premier (antecipadamente) por 455 euros. Em 2011, saiu por 250 euros, quase a metade. A safra de 2020, para muitos tão fantástica quanto a histórica de 1982, não chegou ao preço de 2010. Aquela foi a galinha dos ovos de ouro. Em 2011, a galinha botou ovo normal.

Qual a sua avaliação dos vinhos brasileiros?
O know-how brasileiro para a produção de espumantes é maior do que para o vinho. Os top espumantes brasileiros se aproximam de Champagne. Miolo é um bom vinho brasileiro, mas o espumante ainda é melhor. Dito isso, acredito que o vinho brasileiro pode e irá melhorar muito. É preciso colocar dinheiro, fazer investimento nos vinhedos, na vinificação. O Château Lafite foi comprado em 1868. Só deu retorno financeiro em 1947. É um investimento de longo prazo, um trabalho que exige muito desafio e impõem desgaste. Se você tiver um pouco de sorte talvez consiga fazer um vinho bom. Quem acha que vai criar uma vinícola e ganhar dinheiro em cinco anos está enganado. O Brasil é um bebê. Ainda está muito atrás de Chile e Argentina.

O aquecimento global é um temor para os produtores de vinho?
Total. Se continuar nesse ritmo, daqui 30 anos Bordeaux não vai conseguir fazer vinhos da mesma qualidade. E não se trata só do aumento da temperatura, que este ano chegou a 43oC. Houve geadas, chuva em excesso e fora de hora. Tudo o que poderia dar errado, deu. É um desafio lidar com as condições climáticas. E impossível resfriar o planeta de uma hora para a outra.