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10 perguntas para Marcos Razón diretor geral da HP Inc na América Latina

“Se todos fizessem o que falam em ESG, o planeta estaria a salvo”

Crédito: Mauricio Ramirez

Mexicano, Marcos Razón construiu a carreira na HP Inc. Dos 32 anos dedicados à companhia, há seis atua como diretor-geral para América Latina. “Comecei na empresa quando tinha 2 anos”, disse à DINHEIRO, com boa dose de humor, diretamente de seu home office em Houston, cidade americana em que vive desde que assumiu o atual posto. Em sua gestão, o foco está no fortalecimento das boas práticas ESG (ambiental, social e de governança) seguindo a estratégia da corporação de atuar em três pilares. O primeiro, ações climáticas; o segundo é relacionado aos direitos humanos; e, finalmente, equidade digital. “Acreditamos que todos devem ter acesso ao mundo digital”, afirmou. Só assim, disse o executivo, “é possível falar em diversidade e inclusão”. Na parte socioambiental as metas são ousadas como a de atingir neutralidade de carbono e lixo zero nas operações da HP até 2025 e ter equidade de gênero na liderança até 2030. Para evidenciar que o prometido é sério, a empresa está tornando os compromissos ainda mais públicos e trabalhando com auditorias independentes na mensuração dos resultados.

Como foi o processo de implementação das práticas ESG na companhia?
Essa é uma preocupação que vem desde o início das operações, em 1939. Mas, agora está mais complexo porque, mais do que nunca, o planeta está em uma situação muito ruim. E a responsabilidade é nossa. Por isso, assumimos compromissos e metas que podem ser medidas. Todo o trabalho está sendo comandado por um Chief Sustainability Officer que cuida do processo inteiro, da pesquisa aos resultados.

Um dos pilares da HP Inc na estratégia ESG é atuar em mudanças climáticas. Qual o plano?
Queremos atuar na HP e também em toda a cadeia de fornecedores. Internamente, já conseguimos fabricar produtos com 40% de conteúdo reciclado em peso de plástico proveniente de impressoras e outros eletrônicos reciclados. A meta inicial para 2020 era de 30%. Mudamos também os materiais das embalagens para alternativas recicláveis. Agora, estamos estendendo o desafio para que todos os parceiros — de fornecedores a clientes — repensem seu processo de produção. Nessa primeira fase da América Latina (Brasil, Colômbia e México) a ideia era convidar 85 parceiros, mas tivemos mais interessados e começamos o trabalho com 126. Na fase dois, estenderemos aos outros países da região. Mas o desafio é complexo.

Quais as metas envolvidas?
Queremos atingir a neutralidade de carbono e lixo zero nas operações da HP até 2025 e reduzir em 50% as emissões de gases do efeito estufa na nossa cadeia até 2030. Além disso, vamos chegar a 75% de circularidade nos produtos e embalagens da companhia (global) até 2030. No Brasil, a meta é 60% até 2025. Para isso, vamos duplicar os 400 postos de coletas e intensificar os trabalhos com as cooperativas de São Paulo que nos vendem plásticos coletados. Uma iniciativa mundial nesse sentido é um projeto que temos no Haiti: após um terremoto eles passaram a consumir água engarrafada que acabavam descartadas no Oceano. Hoje compramos o material diminuindo a poluição e gerando renda. Querer ser circular é fácil, mas é preciso ter estrutura.

Como vocês fazem essa mensuração para garantir que os resultados sejam de fato alcançáveis?
Com auditorias internas e, sobretudo, com externas porque no fim do dia temos que ter evidências de que as metas estão sendo cumpridas. A nossa decisão de reforçar os compromissos publicamente é, também, para permitir que o mercado, meios de comunicação e consumidores acompanhem os resultados e cobrem o que nos propusemos a fazer. Acompanhar a medição é essencial, afinal, se todos fizessem o que falam em ESG, o planeta estaria a salvo.

Na frente de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, o que a HP vem colocando em prática?
Uma das frentes é o replanejamento da logística, como a substituição do avião por navios. Isso requer mais prazo para a entrega, mas é possível ser feito. Também temos chances de usar os prédios para gerar energia renovável. Além de projetos de reflorestamento nas amazônias brasileira e colombiana e outro de restauração de parte da Mata Atlântica. Para os parceiros, disponibilizamos uma calculadora para medir a pegada de carbono deixada com as impressões HP para que façam a compensação correspondente.

O que acontecerá se os parceiros não se engajarem?
Vamos parar de trabalhar com eles. Isso já aconteceu há uns cinco anos quando estabelecemos metas sociais. As empresas que não se adequaram ao compromisso de inclusão e diversidade foram cortadas.

Atualmente a empresa tem como meta de diversidade atingir equidade de gênero 50/50 na liderança e ultrapassar 30% de mulheres nos cargos técnicos e de engenharia até 2030. O mercado forma gente suficiente para que vocês alcancem estas metas?
Acredito que falta profissional, por isso estamos indo às escolas para incentivar alunas a entrarem em cursos de exatas. Mas é preciso mais esforços até para mostrar que há grandes oportunidades no mercado de trabalho. Outro ponto que estamos atuando é ajustar processos internos para promover mais mulheres. Ainda é normal que algumas áreas tenham menos mulheres do que as outras. Na HP isso acontece no departamento comercial, por exemplo. Por isso, criamos um programa específico na América Latina chamado Elevator Women para recrutar, desenvolver e promover mais mulheres nesse departamento.

Um dos programas do compromisso HP é o da equidade digital e chama atenção a meta de alcançar 150 milhões de pessoas. Como farão isso?
O programa HP Path (Partnership and Technology for Humanity, Parceria e Tecnologia para a Humanidade) é global e tem o objetivo abrir caminho para a equidade digital em comunidades desprivilegiadas ao redor do mundo até 2030. Sem equidade digital, o mundo ficará mais desigual. E os problemas vão desde falta de equipamentos até falta de conexão.

Como a HP atua para a solução?
Temos um projeto com as Nações Unidas para mulheres que se chama HP Life. É um treinamento gratuito para mulheres que querem ser empreendedoras, empresárias e profissionais em áreas como marketing, mídias sociais, finanças entre outras. Até hoje já oferecemos mais de 1,3 milhão de cursos on-line em sete idiomas. No Brasil, o CEO Claudio Raupp Fonseca dá alguns treinamentos pessoalmente.

Quando o assunto é ESG, por mais que as empresas façam sua parte, é preciso a contribuição de outros stakeholders. No Brasil, por exemplo, como vocês estão trabalhando para construir a estrutura que garanta equidade digital?
Nós sempre buscamos identificar caminhos e parceiros que nos permitam avançar nos nossos objetivos. Temos um problema similar na Costa Rica, onde existe um programa que se chama Fonatel, que tem como objetivo levar conectividade às regiões mais pobres. Então, eles trabalham com a conexão, nós entramos com os equipamentos e nossos funcionários com trabalhos voluntários para ajudar a população a usar os computadores. Essa é uma história de sucesso conquistada em conjunto, como o ESG pede.