Negócios

10 perguntas para Gustavo Peixoto fundador da Pangeia

“Existe a necessidade de aprender com o capitalismo e propor modelos de produção e de consumo mais justos”

Crédito: Andre Berini

Antes de empreender, Gustavo Peixoto nutria o desejo de construir um mundo mais justo, integrado e verde. Ao pensar como faria isso, resolveu empreender. Assim, como ele mesmo costuma dizer, a Pangeia é um negócio que surgiu de um propósito e não o contrário. Fundada em 2016, no Rio de Janeiro, a empresa é um ecossistema de soluções sustentáveis que atua em iniciativas de preservação de fauna e flora, em ações de limpeza do meio ambiente e que tem o marketplace de produtos sustentáveis como carro-chefe. Agora, comemora uma bem-sucedida parceria com a Via (dona das marcas Casas Bahia, Ponto e Extra.com) em que a Pangeia atua como curadora da loja social no e-commerce da Casas Bahia. De sua experiência, ele atesta que o mundo está aos poucos mudando e que as companhias precisam reagir rapidamente para sobreviver.

As empresas e consultorias têm falado muito em um novo padrão de produção e consumo para um modelo mais consciente e responsável. O que está provocando esse movimento?
Todo ciclo civilizatório passa por fases que envolvem uma mudança do que a gente chama de modus operandi, ou seja, a maneira como o ser humano interpreta e reage em cada uma delas. O que enxergamos é que existe uma mudança em curso, uma ressignificação de valores e uma geração mais nova que chega muito mais conectada com a sustentabilidade do planeta. Já o mercado está sentindo a pressão trazida por agentes sociais que estão conectados por esse novo paradigma e as empresas estão reagindo.

Mas o vetor da mudança vem de onde?
Desde a revolução industrial nós presenciamos o estabelecimento de um padrão de consumo artificial, em que a produção se baseava no descartável e o conforto das pessoas estava relacionado ao ter mais. Agora percebemos que esse modelo é destrutivo. As pessoas entenderam que existe a necessidade de aprender com o capitalismo e propor modelos de produção e consumo mais justos. É essa reflexão que está provocando uma grande transformação do mercado.

Com a globalização e a tecnologia, as pessoas se acostumaram a consumir o que quiserem quando quiserem. Nesse novo modelo há o tempo da natureza. O consumidor está disposto a readequar seus hábitos?
Por um lado, a globalização traz produtos do mundo todo a um clique de distância e estimula o desejo das pessoas por algo distante. Por outro lado, a pandemia nos mostrou que a localidade é uma das chaves para uma região prosperar. Isso abriu espaço para o consumidor conhecer mais a história de produtos e de produtores, o que ajuda a relativizar a força da propaganda, da promoção e da globalização. Há uma mudança em curso.

E o capital, já entendeu a necessidade da transformação?
Há alguns anos, a BlackRock colocou o ESG (ambiental, social e governança) como risco de negócio e isso forçou as empresas a olharem com carinho para as diretrizes colocadas pelos grandes fundos. Mas a grande mudança começa a vir quando as pessoas por trás do capital entendem que elas precisam contribuir para a sociedade como forma de retribuição aos próprios ganhos. O capital será mais acessível na medida em que as pessoas que o administram também estão mudando.

Qual a maturidade do empreendedorismo social no Brasil?
A tecnologia e a pandemia possibilitaram que diversas pessoas transformassem o que sentiam como vocação em um negócio. Em paralelo, a geografia deixou de ser uma limitação ou empecilho para a transformação de ideias em negócios. Qualquer brasileiro hoje pode construir seu negócio se integrando a pessoas com o mesmo propósito no mundo. Quanto mais existe a troca e quanto mais se encurta o tempo de aprendizado, mais esses negócios vão se acelerar.

Nesse novo modelo de produção, como ficarão as relações de trabalho?
Estamos em uma fase de trampolim para outra realidade. Tudo o que vivemos até o final do século 20 foi um reflexo direto do que foi construído na revolução industrial. As escolas seguem um modelo de fábrica, as empresas também. Temos um horário rígido de início e de término, temos horários para comer, uniformes para usar, sinais sonoros que nos indicam o que devemos fazer. Mas a fábrica é focada em processos e resultados finais. Agora as pessoas querem mais humanidade, mais valores, mais conexões e respeito a quem são.

As empresas estão preparadas?
Elas estão vivendo um momento de transformação pela pressão das pessoas. É por essa pressão que passaram a se preocupar com inclusão, equidade e diversidade. Algumas serão mais reativas e tentarão levar ao limite os modelos mais conservadores, outras estão mais abertas a novos modelos. Mas é um processo complexo. A própria Pangeia nasceu em uma cultura digital e até hoje a maioria das pessoas nunca se viu pessoalmente. Nós somos o retrato do desafio de valorizar ao máximo a personalidade de cada um, com um time que se relaciona digitalmente e ainda assim criar uma cultura em comum.

É uma realidade paradoxal. Como valorizar a pessoa em relações de trabalho que se dão virtualmente?
Quando a gente fala de um negócio de propósito o essencial é trazer pessoas que se identifiquem com esse propósito. No caso da Pangeia, criar um mundo mais verde, mais integrado e mais justo. A crença na construção desse modelo é algo maior que nos une. A tecnologia tem que ser vista como a ferramenta que viabiliza o trabalho. Isso faz com que a gente fique muito atento a nunca se apaixonar por uma ferramenta, por uma tecnologia ou por uma tendência. A união vem pelo propósito e a individualidade, também.

Há uma possibilidade real de que esse movimento de empresas de impacto ganhe escala ou será sempre nicho?
Existe hoje uma preocupação do consumidor de olhar para o planeta e entender que impacto suas decisões de consumo provocam. Isso estimula a criação de vários negócios, produtos e serviços. Algumas pessoas olharão essa demanda e trabalharão para atendê-la, uma escolha racional motivada por um movimento de mercado. E há também um grupo de artesãos, pequenos produtores e de comunidades que sempre escolheram usar o que a natureza oferece para produzir respeitando o ciclo que ela impõe. Eles não a depredam, não a exaurem. Ambos os modelos são bem-vindos. Aqui na Pangeia damos voz e promovemos a cultura, o modelo de produção e o estilo de vida dessa segunda corrente.

No início deste ano a Via anunciou o e-commerce de produtos sustentáveis, nomeando a Pangeia como parceira para curadoria de produtores e produtos. Como fazer com que o mundo desses pequenos produtores e os grandes marketplaces conversem a mesma língua?
Falando especificamente da Via, tivemos o grande privilégio de falar com pessoas que estão integralmente conectadas à causa e verdadeiramente engajadas na construção dessa nova dinâmica. Nós sabemos que a Via precisa dar lucro, que tem normas e políticas necessárias para assegurar a sua solidez financeira, mas por outro lado entendemos que, por ela ser tão robusta, tem talentos que estão conectados com esse novo momento social. Acreditamos que ao conectar grandes com pequenas empresas permitiremos a transferência de recursos e conhecimento e assim conseguiremos criar um ecossistema saudável e crescente.