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10 perguntas para Claudio Lottenberg

“O descaso do governo federal traz sensação de falta de seriedade. A sociedade está farta disso”

Crédito: Pedro Dias

Claudio Lottenberg presidente do Conselho da sociedade beneficente Israelita Albert Einstein. (Crédito: Pedro Dias)

A cada dia que o Brasil acorda sem iniciar a vacinação contra a Covid-19, a administração Jair Bolsonaro evidencia a falta de organização e planejamento na elaboração do plano nacional de imunização. A avaliação é de Claudio Lottenberg, presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein e um dos maiores especialistas em gestão de saúde no Brasil. Para ele, não há nada do que se orgulhar da ação federal. “Sinceramente, não consigo enxergar nenhum tipo de exemplo”, disse à DINHEIRO.

Lottenberg criticou a falta de conhecimento do ministro da Saúde Eduardo Pazuello sobre o assunto. “Se não tiver alguém que seja reconhecido como uma autoridade na saúde, essa mensagem chega de forma incompleta.”

Para o especialista, que também preside o Instituto Coalizão Saúde, é legítima a iniciativa de clínicas particulares em buscar vacinas para trazer ao Brasil. “Ninguém quer inverter a ordem de prioridade. Ninguém quer privilegiar o rico. Mas a sociedade está inquieta, porque não vê nenhum tipo de movimentação.”

ISTO É DINHEIRO – Estudo feito pelo próprio governo federal mostra que o Brasil perde R$ 20 bilhões a cada semana que a população deixa de ser imunizada. Como o senhor avalia o impacto dessa demora no plano de imunização para a economia brasileira?
Claudio Lottenberg –Difícil saber quanto essa demora pode representar em termos de dinheiro. Mas acho que esse prejuízo também é de alto impacto social. E o triste é que a gente não vê isso sendo tratado com celeridade. O Brasil vai pagar um preço caro por essa demora. A gente está ouvindo várias desculpas e nenhuma delas é adequada. Estamos assistindo a vacinação em vários países, e o Brasil vê o estado de São Paulo comprar vacinas. Israel já vacinou em 40 dias quase 20% da população. E o primeiro-ministro (Benjamin Netanyahu) foi o primeiro a se vacinar (recebeu a segunda dose da vacina da Pfizer no dia 9). Não estamos vendo nada ordenado no Brasil.



Não é difícil de compreender que, mais de um mês após o início da vacinação do mundo, o Brasil ainda esteja em fase de elaboração do plano nacional e que tente transferir para as farmacêuticas a responsabilidade de procurar o governo federal?
Qualquer fábrica tem sua capacidade produtiva e ela vai procurar mercados que se mostrem mais acessíveis. Essas empresas devem ter encontrado em outros locais condições de relacionamento mais amistosas. Em uma situação catastrófica como essa, tomar iniciativa para que essas empresas venham é uma ação do governo. O Brasil deveria ter entrado em um cenário de disputa internacional, exigindo reciprocidade, já que parte dessas pesquisas aconteceu aqui. Mas a gente não está vendo isso.

Essa postura não significa um descaso da administração Jair Bolsonaro em relação à urgência que o tema pede?
Tem gente no governo federal que acha que o Brasil está dando exemplo em termos de organização e planejamento. Sinceramente, não consigo enxergar nenhum tipo de exemplo. Pelo contrário. A sociedade está farta disso. O descaso com a situação está trazendo sensação de falta de seriedade.

Não está faltando gestão no comando do Ministério da Saúde?
No começo, tínhamos um ministro da Saúde (Luiz Henrique Mandetta) que entendeu e avisou o que ia acontecer. Depois, foi um médico (Nelson Teich), que não completou um mês no cargo. Agora temos um leigo na área da saúde (Eduardo Pazuello). E, em um cenário de pandemia, se não tiver alguém que seja reconhecido como uma autoridade na saúde, essa mensagem chega de forma incompleta. Houve uma politização dos discursos e a gente precisa entender que União, estados e municípios precisam estar bem articulados. E isso não tivemos em momento algum. É um cenário caótico.

O presidente Jair Bolsonaro não é o maior responsável por essa situação?
A gente é responsável pelo que fala. A sociedade está tirando suas conclusões. Um presidente da República tem um papel, em termos de comunicação, que não se compara a nenhuma figura. Veja o que aconteceu semana passada nos Estados Unidos (invasão do Capitólio). A maneira como Donald Trump se posicionou, deu a entender que ele incitou a população. O papel do Bolsonaro como comunicador é importante e deve ter responsabilidade nas mensagens que passa. E temos sido testemunhas que ele enxergou de forma diferente do resto da sociedade. Ele foi alertado e entrou em choque com a comunidade científica.

Qual foi o principal problema nessa falta de ação do governo federal?
O maior problema desde o primeiro momento foi a falta de estrutura de leitos. Minimizar isso já seria um enorme ganho. Teve demora em aceitar a Coronavac. A gente vê leigos com papel importante no contexto da República opinando sobre uso de medicamentos. Quem faz isso é médico.

Como o senhor avalia a decisão de clínicas particulares em buscar na Índia a vacina para trazer ao Brasil?
É uma reação da sociedade o fato de empresas privadas irem buscar vacinas. Ninguém quer inverter a ordem de prioridade. Ninguém quer privilegiar o rico. Mas a sociedade está inquieta, porque não vê nenhum tipo de movimentação. E essa ação serviu, no fundo, para provocar uma reação no governo.

A iniciativa privada não poderia contribuir mais nessa força-tarefa para que a população possa, de fato, começar a ser vacinada?
A participação da iniciativa privada nesse processo só seria benéfica, porque há rapidez e é mais ordenada. Isso não significa vacinar quem tem dinheiro. Mas deixar de utilizar essa estrutura, imaginando que ela poderia subverter a prioridade, é um equívoco.

Como o senhor enxerga a atuação do governo de São Paulo na liderança do processo para produção da Coronavac no Instituto Butantan?
A Coronavac foi uma das únicas iniciativas concretas que tivemos (o governo do Estado definiu o próximo dia 25 para o início da vacinação). E isso foi importante. Se não fosse isso, talvez não tivéssemos nada agora. Acho triste o confronto político, mas o fato é que graças a esse movimento é que temos alguma coisa hoje.

Ainda dá tempo de avançar nessa questão no Brasil?
A gente perdeu alguns meses, mas ainda imagino que a pressão da sociedade vá superar a inércia daqueles que protagonizaram comportamento puramente político. Se não fizemos grande coisa até agora, não sei quanto tempo iremos demorar para conseguir avançar. Espero que isso mude.

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