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10 perguntas para André Clark Diretor geral da Siemens Energy

“Com o ESG, o Brasil pode ser o grande destino do capital externo”

Crédito: Rafael Hupsel

A companhia é centenária, mas sua nova empresa é uma startup. Assim pode-se resumir a estratégia construída pelo conglomerado Siemens ao lançar a Siemens Energy em outubro de 2020. A nova empresa nasce com a missão de mudar a mentalidade do grupo e do setor ao propor um trabalho mais ágil e colaborativo com os clientes, além de um propósito alinhado à economia verde: contribuir com a descarbonização do planeta. Por aqui, a relevância da iniciativa é provada pelo fato de que a cadeira de diretor geral é ocupada pelo até então CEO da Siemens do Brasil André Clark. Nesta entrevista à DINHEIRO, o executivo destaca o potencial brasileiro na produção de combustíveis verdes. Uma oportunidade de ouro para o País, uma vez que nunca na história as empresas globais do setor de hidrocarbonetos foram tão pressionadas pelos acionistas a acelerarem o processo de transição energética. “Isso significa uma coisa: transformação em larga escala”, afirmou Clark.

DINHEIRO – Na lista de Prioridades da empresa publicada no site, vocês citam Tecnologias do Futuro, Digitalização e outras três que incluem uma nada comum: Mentalidade. O que pretendem com essa última?
ANDRÉ CLARK – Neste mundo expandido das energias, a transformação é tão grande que o nosso foco é preparar a cabeça das nossas pessoas. A humanidade emergirá da crise sanitária provocada pela Covid-19 ciente de que a situação terrível que vivemos está relacionada à crise climática que o planeta atravessa. É preciso uma nova visão energética. E o nosso principal desafio, como uma empresa centenária do setor, é promover uma ampla mudança na cultura organizacional.

Qual será o rumo dessa mudança?
A transição energética rumo à descarbonização vai requerer muita inovação pela frente. Para que isso seja possível, as ideias precisam ser criadas com os clientes. Na jornada do carbono zero não dá para fazer sozinho. Essa é uma das mudanças de mentalidade que precisamos realizar dentro da nossa própria companhia e no setor.

Com essa transição, algumas energias até então utilizadas em nicho, como a solar e eólica, ganham escala. Qual o desafio neste processo?
Nem a energia eólica e nem a solar são despacháveis, você só as usa quando tem. É necessário desenvolver melhor a tecnologia que faz a ponte entre a demanda e a oferta. Precisamos de novas soluções de armazenamento e de estabilização da rede. Fazer a combinação da oferta com a demanda exige uma rede inteligente. Se antes a produção era concentrada em um lugar, depois transportada para um centro e distribuída, hoje o centro de consumo é o próprio produtor.

E os combustíveis verdes?
Junto às energias renováveis, os novos combustíveis estão na lista de prioridades para a empresa. O hidrogênio verde é o grande combustível da descarbonização da sociedade. É ele quem vai substituir em grande parte o carvão e que vai promover a descarbonização dos sistemas de transporte e industriais – os maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Dele irão surgir vários subprodutos e utilizações, como a amônia verde que será importantíssima para o crescimento da produção nacional de fertilizantes.

Além dos desafios que o senhor destacou para a energia solar e eólica, a transição energética não é simples. Quais são as principais dificuldades nesse caminho?
Destaco dois pontos. O primeiro é a necessidade de criar incentivos para essa transição. E aqui é importante destacar que a Cop 26 [a ser realizada em novembro, na Escócia] pode ser fundamental já que é esperado que ali se definam os novos padrões de comércio internacional do planeta. Engana-se quem acha que a Cop 26 será só sobre o clima. Será sobre a economia verde. O segundo ponto é a engenharia. É necessário aperfeiçoar a aplicação de tecnologia e a nossa capacidade de inovação nesse sentido.

A regulação no Brasil não é um empecilho?
A regulação é a principal alavanca de incentivo de um Estado nacional. O Brasil caminhou muito neste sentido. O planejamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), criado no meio da pandemia no ano passado, mostra uma propulsão das energias renováveis em larguíssima escala. O Brasil é, segundo a Agência Internacional de Energia, o produtor de menor custo de energias renováveis do planeta. Mas, além dos avanços da regulação, temos que entender que preservar as florestas atrai investimentos. Com o ESG, o Brasil pode ser o grande destino do capital externo.

Mas, para atrairmos esse investimento não precisaríamos ter um plano institucional de governo alinhado à economia verde?
O setor privado tem apresentado de uma maneira organizada uma posição clara sobre o quão estratégico é para o Brasil o jogo da redução dos impactos climáticos na nova economia. E o País tem as ferramentas, tanto privadas quanto públicas, para dominar esse processo. O que tenho visto é que nos últimos meses o jogo da mudança climática como forma de diplomacia ficou tão evidente que tem contaminado positivamente todos os agentes que jogam no território nacional. Gradualmente, mudanças importantes estão acontecendo nesta direção. Se o Brasil quiser atrair capital e talentos precisa ser líder na transformação verde.

Temos chance de ter um mercado de carbono estruturado no Brasil? Como a Siemens está trabalhando a agenda?
Fomos a primeira empresa do mundo a criar um mercado interno de carbono. Isso significa que projetos que emitem carbono pagam uma taxa que vai para um fundo cujos recursos são usados em projetos de redução de carbono. Foi uma maneira que encontramos de incentivar as pessoas a pensarem em tecnologias de descarbonização. No fim, vários clientes têm seguido o mesmo caminho e poderia servir para o País. O meu sonho é que o Brasil anuncie o seu mercado de carbono na Cop 26, e precisa ser compulsório.

A Siemens Energy está construindo fábricas de hidrogênio verde no Chile e Oriente Médio. Por que não no Brasil?
Estamos com vários projetos em andamento no Brasil. Mas são confidenciais. No Chile, vamos construir uma fábrica de combustível verde para a Porsche. É um piloto importante, mas muito específico, com geração de 2 MW. No Brasil, temos um problema de escala. Não estudamos nenhum projeto com menos de 10 MW, ou seja, a capacidade de produção é muito maior, mas ainda não temos a demanda por parte do consumo. Não existe o mercado de hidrogênio verde no Brasil.

E o ensinamento do Steve Jobs que criou a demanda que não existia ao lançar os produtos Apple?
Sim. É por isso que a ideia de um diesel verde a partir de um óleo vegetal é tão importante: ele cria demanda. O mesmo posso dizer da amônia verde e do fertilizante verde. Hoje no Brasil o desafio não é quem produz hidrogênio, é quem fica com ele.