Investidores

Rumo aos Estados Unidos

O principal destino dos fundos brasileiros no exterior já atrai novos gestores, que miram os recursos da repatriação

Crédito: Crazydiva

Na manhã de primeiro de novembro de 2016, gestores de fundos de investimentos acordaram com uma missão: traçar suas estratégias para atrair parte dos recursos de brasileiros no Exterior que haviam sido regularizados no programa de repatriação da Receita Federal, encerrado em 21 de outubro. O dinheiro – R$ 169,9 bilhões – foi regularizado, mas não voltou. Agora, está na mira de gestoras brasileiras que têm fundos lá fora, e que estão abrindo subsidiárias para cuidar desses clientes.

Um levantamento da empresa Economatica atesta que existem 667 fundos brasileiros com recursos fora do País, sob a responsabilidade de 184 gestoras que administram R$ 61,9 bilhões. Os Estados Unidos são o destino mais procurado, com 76,8% dos recursos. Apenas a Verde Asset Management, de Luis Stuhlberger, com 14 fundos e R$ 8,7 bilhões em ativos sob administração, concentra 14% do total aplicado. A segunda gestora com mais recursos no exterior é a SPX, com 10,3% do total. A nova fonte de dinheiro também está abrindo oportunidades para casas menores, como a Fithian, de Daniel Arruda.

estímulos ao crescimento: Para Luis Stuhlberger, do fundo Verde, as primeiras medidas de Donald Trump sugerem que a economia americana deve crescer
ESTÍMULOS AO CRESCIMENTO: Para Luis Stuhlberger, do fundo Verde, as primeiras medidas de Donald Trump sugerem que a economia americana deve crescer (Crédito:Silvia Costanti/Valor/Folhapress)

O economista paulista trabalhou nove anos na gestora Tarpon, e está em processo de registro de seu fundo na Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais americano. Arruda se anima com a possibilidade de gerir pelo menos US$ 25 milhões, mínimo exigido pela SEC para registrar um fundo e poder captar recursos de investidores americanos. Assim como a Fithian, outras três gestoras brasileiras, como a GEO, a Dynamo e a STK Capital, teriam dado entrada no mesmo processo. Procuradas, as três não comentaram.

Segundo Arruda, a alta do real frente ao dólar – que encerrou 2016 com valorização de 16,5% e já acumula outros 4,3% no ano, até a quinta-feira 9 –, traz uma janela de oportunidade também para os investidores cujos recursos estão no Brasil. Somam-se a isso, a queda da taxa de juros, que retira parte dos ganhos da renda fixa no País e estimula a diversificação de investimentos. “No Brasil, a Bovespa possui apenas 53 ações que têm liquidez diária acima de US$ 5 milhões. Nos Estados Unidos, esse número ultrapassa 4.500 papéis”, diz ele.

american way: Daniel Arruda, da Fithian, está registrando seu fundo nos Estados Unidos, na expectativa de aumentar os recursos sob sua gestão
AMERICAN WAY: Daniel Arruda, da Fithian, está registrando seu fundo nos Estados Unidos, na expectativa de aumentar os recursos sob sua gestão (Crédito:Divulgação)

As alternativas americanas para os mais endinheirados incluem fundos para investidores qualificados, hedge funds ou fundos exclusivos, que não costumam ter liquidez diária, e normalmente só permitem o resgate após dois anos. As taxas de administração oscilam entre 1,5% ao ano a 2% ao ano, e a taxa de performance média é de 20%, podendo ser cobrada pelo retorno líquido acima do benchmark (como o Índice Dow Jones, por exemplo). É preciso investir, no mínimo, US$ 1 milhão. No ano passado, em média, esses fundos renderam 6%, segundo levantamento da consultoria Barclay Hedge.

Parece pouco, mas é bem superior ao 0,04% médio de 2015. Já os fundos abertos cobram taxas que variam entre 0,5% e 1,5% ao ano e o rendimento médio anual foi de 10,81%, no ano passado, segundo a consultoria financeira Lipper. Os fundos com melhor desempenho tiveram ganhos de 17,87%. Os aportes são variados. Parte desses ganhos vieram, por incrível que pareça, com a eleição de Donald Trump, em novembro. Sim, porque algumas promessas de campanha, como menor regulamentação bancária, redução de impostos e investimentos em infraestrutura, além do protecionismo, projetam um cenário promissor para algumas corporações americanas. E as expectativas são as rodas que costumam movimentar os mercados.

DIN1005-investidor4“As propostas e as primeiras decisões de Donald Trump indicam que a nova administração vai tentar estimular a economia. Isso sugere que a economia americana deve crescer”, afirma Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde. Stuhlberger não comentou qual o impacto que isso terá nos preços das ações. Segundo ele, o movimento dos mercados é mais suscetível à influência de outros países sobre a economia americana. “E isso é imprevisível.” No entanto, ele citou uma piora nos fundamentos econômicos chineses, o que terá, provavelmente, um impacto ruim, mas difícil de mensurar, sobre a economia mundial.

Já Arruda diz acreditar que em momentos de estresse de mercado, quando as ações caem abruptamente, trazem boas oportunidades de compra de ações para quem quer montar sua própria carteira. “Se a candidata Jean-Marie Le Pen, da Frente Nacionalista, se mantiver à frente nas pesquisas eleitorais na França, isso pode trazer volatilidade ao mercado, como o Brexit e a eleição de Trump fizeram em 2016.”

Para quem não tem recursos no exterior, mas que investir lá fora, alguns bancos, como o Santander Brasil, oferecem opções. Uma delas é o Global Equities, que compra cotas de fundos nos Estados Unidos e na Europa, e rendeu 54,04% em 36 meses, acima do MSCI Global, que obteve ganhos de 44,52%, do CDI, com alta de 43,39%, e do Ibovespa, que se valorizou 35,75% no mesmo período. Com investimento a partir de R$ 50 mil, o fundo cobra 1% de taxa de administração e não há taxa de performance.