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“Quando os tempos são difíceis, precisamos aprender a ser felizes”

10 perguntas para Shawn Achor, escritor americano

Crédito: Divulgação

O senso comum poderia dizer que, para uma pessoa ser feliz, precisa ser uma grande estrela de Hollywood, uma das pessoas mais ricas do mundo, um atleta recordista mundial ou um playboy que nunca precisou trabalhar. O escritor Shawn Achor, pesquisador da Universidade Harvard e autor de best sellers sobre o assunto, como The Happiness Advantage (2010) e Before Happiness (2013), não se encaixa em nenhuma dessas definições, mas é uma das pessoas mais requisitadas por grandes empresas e pelo governo americano para falar sobre felicidade e psicologia positiva. Saiba porquê:

É possível encontrar a felicidade no trabalho, em períodos de crise econômica prolongada, como a que vivemos no Brasil atualmente?
Felicidade nos tempos de bonança é um luxo que todos podem ter. Em tempos difíceis e incertos, torna-se uma necessidade, porque a maior vantagem competitiva na economia moderna é um cérebro positivo e engajado. Se você está tentando obter um emprego, por exemplo, é interessante que saiba que os recrutadores são mais propensos a contratar pessoas otimistas, positivas, que podem sustentar períodos de estresse financeiro melhor. As pessoas positivas têm melhores resultados de saúde. As doenças se tornam um grande dreno em nossos recursos financeiros. Se uma demissão acontece, o sentimento pessimista torna mais difícil a conquista de novos empregos e o aprendizado de novas habilidades. Quando os tempos são duros, precisamos aprender a ser felizes e fazer com que nosso cérebro trabalhe no seu mais alto potencial para nos ajudar a sermos criativos, resistentes, inteligentes e conectados.

No que a relação entre chefes e subordinados influi para a felicidade? Como lidar com chefes opressores, sem perder a felicidade?
Temos de resolver este problema a nível individual e empresarial. Do lado da empresa, precisamos usar o estudo da psicologia positiva – que defende que a felicidade traz mais resultados – para convencer os líderes seniores que contratar chefes negativos terá um enorme impacto prejudicial na equipe interna. Em termos individuais, não podemos escolher o nosso chefe, mas temos de escolher como responder a eles. Uma maneira é inocular-se contra a negatividade, praticando exercícios de gratidão todos os dias, tendo todos os seus dias de férias, fazendo algo altruísta, e exercitando-se sempre.

E, pelo lado contrário, como o chefe pode lidar com funcionários difíceis?
Os chefes precisam construir seu sistema imunológico emocional da mesma maneira. Em segundo lugar, a maior ferramenta de um gerente para criar uma mudança positiva é o louvor e reconhecimento. Em terceiro lugar, pesquisas recentes descobriram que é melhor deixar de lado uma pessoa tóxica do que adicionar um superstar a uma equipe. Por último, a maioria das pessoas quer ser feliz, mas nem sempre elas consideram que é possível, então mostre ao funcionário como você vai ajudá-los a chegar lá.

Apenas as empresas com capacidade de investimento em departamentos de RH estruturados podem estimular a felicidade de seus empregados?
As intervenções positivas mais poderosas que eu sugiro às empresas são todas gratuitas: louvor, gratidão, exercício, meditação e escrever um e-mail positivo.

Existe alguma relação entre o tempo das férias e a satisfação no trabalho?
Há um enorme relacionamento entre tirar férias e felicidade. A pesquisa que fiz recentemente sobre felicidade, publicada na publicação americana Harvard Business Review, indica que, não é o tempo médio das férias, mas são sim as bem-planejadas, que acabam gerando menos tensão, as que trazem uma probabilidade de 94% de contribuir para que você retorne ao trabalho com maiores níveis de energia, envolvimento e felicidade. Descobrimos que as pessoas que tiraram todos os seus dias de férias alcançaram pontuações de envolvimento significativamente maiores. Também percebi recentemente que as pessoas que usufruem todos os seus dias de férias não são apenas mais felizes, elas são 34% mais propensas a receber um bônus nos próximos três anos e possuem 6% mais probabilidades de obter uma promoção.

Como e por que viajar tornou-se tão importante para a felicidade das pessoas no mundo moderno?
Em um mundo em que cada real e cada hora contam, os viajantes têm procurado um retorno maior sobre seu investimento de tempo e dinheiro. Os dados de novo estudo que fiz para o site de reservas Booking.com ressaltam como há uma correlação muito significativa entre desfrutar da experiência de reserva e a felicidade durante a viagem. O estudo destaca como, independentemente do seu tipo de férias e onde quer que você esteja planejando ficar, viagens bem planejadas e em linha com as expectativas podem melhorar e impactar diretamente a nossa felicidade.

Por que planejamento e antecipação dos planos de folga ajudam as pessoas?
O cérebro se esforça para diferenciar a visualização da experiência real, então, por exemplo, quando estamos imaginando uma viagem, estamos, de certo modo, experimentando-a no presente. Quando estamos planejando uma viagem, por exemplo, estamos visualizando-a de forma intocada. Vemos belas fotos do lugar de estadia e a localização on-line, mas não há nenhum estresse para encontrar o contador de bilhete de ônibus, ou não sentimos nenhum cheiro de um caminhão de lixo que passou. A experiência positiva começa, então, muito antes da chegada das férias.

Por que sentimos a necessidade de ter picos de felicidade durante a vida?
A dopamina, o neuroquímico associado ao prazer, não só nos faz sentir mais felizes, mas gira sobre os centros de aprendizagem no cérebro. Nós nos esforçamos não apenas para diminuir a dor, mas ativamente buscamos o prazer. Além disso, quando o cérebro humano é positivo, nossas taxas de sucesso aumentam drasticamente. Como eu mostrei no livro The Happiness Advantage, a maior vantagem competitiva na economia moderna é um cérebro positivo e engajado em como pode ter sucesso em cada negócio e lidar com os aprendizados. Então, talvez nossos cérebros busquem felicidade através de viagens, sabendo que isso causa maior bem-estar e prosperidade, por exemplo.

Por que algumas pessoas se sentem felizes fora de sua zona de conforto e por que outras preferem planejar tudo nos mínimos detalhes?
Enquanto nosso desejo de felicidade é universal, os caminhos para a felicidade são incrivelmente variados. A personalidade define exatamente o que leva aos maiores níveis de felicidade. Se sair de sua zona de conforto permite que você se sinta mais livre, você seguramente vai apresentar maiores níveis de criatividade e felicidade nessa situação. Se sair de sua zona de conforto faz você se sentir nervoso, então você começa a sentir uma queda drástica em seu nível de felicidade. Portanto, a chave é planejar as coisas com base em sua personalidade e interesses, e as das pessoas com quem você está.

O que fazer se você é confrontado com uma situação estressante que traz o risco de desbalancear seus níveis de felicidade?
Dentro de cada estresse existe um significado. Se eu disser que sua caixa de entrada está cheia de spam, você não se sente estressado, mas, se eu disser que está cheio de pessoas precisando e dependendo de você, você se preocupa e acaba elevando seus níveis de tensão. Então, se você luta ou tenta fugir do estresse, você piora. Mas, se você fizer atividades de reforço em seu dia-a-dia ou mesmo durante as férias, você acaba tirando o foco do problema e reúne mais recursos para perseguir as coisas que fornecem significado para a sua vida.