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QG pra quê?

Grandes empresas miram espaços de coworking como estratégia para encontrar inovação e fechar negócios

Crédito: Kandrade

Parceria: Jorge Pacheco, dono da Plug, e Pedro Falkenbach, do Cabify. Casamento durou um ano. Grande demais, a empresa espanhola agora busca replicar colaboração em sede própria (Crédito: Kandrade)

Música alta, neon e chopeira. Uma balada? Não. Trata-se de um novo espaço no centro de São Paulo de coworking, aqueles ambientes compartilhados por startups e empreendedores que buscam baixar custos de infraestrutura e se conectar com outras empresas. O coworking, já há alguns anos, vem mudando a forma como jovens companhias e profissionais liberais lidam com aquele primeiro momento da “empresa de garagem”. Agora, isso também está modificando a maneira como grandes organizações buscam talentos e inovação.

Atrás de novas ideias, companhias consolidadas estão apostando em ocupar esses espaços para conhecer startups e firmar parcerias que complementem seus modelos de negócios. Há três semanas, a americana WeWork, uma startup de coworking avaliada pela Forbes em US$ 20 bilhões, inaugurou seu primeiro espaço no País. É lá onde tem esse clima de casa noturna. Mas o lounge no estilo “inferninho” apenas esconde um bastidor dinâmico onde novos empresários dividem corredores com grandes como o Groupon, o fundo de investimentos argentino Kaszek (lê-se Caxeque) e o escritório de advocacia Tozzini Freire.

O grande objetivo dessa estratégia é que, a partir do compartilhamento do espaço físico e do uso das redes sociais internas, os empreendedores apresentem serviços, tecnologias e projetos que podem ser vistos por todos os membros do coworking, gerando demanda e produtividade. “Um membro nosso, em apenas duas semanas, conseguiu fechar oito negócios”, diz Lucas Mendes, gerente-geral do WeWork no País. “Sempre tive a certeza de que a WeWork daria certo no Brasil porque o brasileiro é muito sociável e muito interativo”, complementa.

Social: Lucas Mendes, da WeWork, garantiu a investidores que empresa daria certo no País. “O brasileiro é muito sociável e muito interativo” (Crédito:Gabriel Reis)

Santiago Fossatti, diretor principal da Kaszek, um fundo de venture capital estruturado pelos criadores do Mercado Livre, diz que a empresa sentiu a necessidade de mudar para um local onde ficasse lado a lado com os potenciais parceiros. “Nosso objetivo é conhecer todos os empreendedores desse ecossistema. Nesses poucos dias, muitos já vieram se apresentar. Queremos que eles aluguem esses espaços apenas para nos conhecer”, diz. Há um ano, quando a espanhola Cabify, da área de transportes compartilhados, chegava ao Brasil, ela montou sua base na Plug, no bairro paulistano de Pinheiros.

Devido ao crescimento da equipe, agora a empresa vai levar a operação para uma sede própria. Mas, Pedro Falkenbach, líder de marketing da Cabify São Paulo, diz que o ambiente moldou a cultura da filial paulista. “Fizemos parcerias com empresas que fazem desde limpeza de carros sob demanda a direcionamento de anúncios de acordo com a localização”, conta sobre as experiências com empresas presentes no mesmo coworking. No novo espaço, apesar de ficarem distantes desse ambiente, ele quer ver o mesmo espírito de colaboração em sua equipe e para isso investe na estrutura física do local. “Arquitetos estão criando um espaço que reflita essa cultura, que tem muito a ver com o DNA da empresa”, diz.

Jorge Pacheco, CEO da Plug, explica que as grandes empresas buscam cada vez mais esses espaços porque internamente não possuem o nível de inovação que poderá ser encontrado em um coworking. “Nós, que gerimos os espaços, fazemos um trabalho ativo de gestão de comunidade. Conhecemos muito bem cada empresa que está aqui dentro, porque a qualquer momento há uma oportunidade para conectá-las”, diz.
Algumas empresas já consolidadas chegaram a construir seu próprio espaço compartilhado e se valem do anseio das startups em desenvolver uma rede de relacionamento para seduzi-las.

Balada: espaços de coworking investem em ambientes descontraídos que escondem corredores onde pequenas startups cortejam grandes companhias (Crédito:Gabriel Reis)

Entre os atrativos para essas novas empresas, está, principalmente, a possibilidade de virar parceira da dona do espaço. Em uma incursão ousada neste setor, o controlador do site de defesa do consumidor Reclame Aqui investiu R$ 1 milhão em seu coworking, instalado no mesmo edifício que abriga a holding, no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo. O modelo é semelhante ao dos pioneiros – ao menos no Brasil – Google Campus e Cubo, do Itaú. O objetivo é garantir um grande número de empreendedores interessados em conquistar uma fatia dos R$ 400 milhões do fundo de investimentos que está sendo estruturado pela Óbvio Brasil, o grupo por trás do Reclame Aqui.

Na Avenida Paulista, a NZN, uma empresa que alia produção de conteúdo e tecnologia e que comanda sites como Baixaki e Tecmundo, também montou seu próprio coworking. “Criamos esse espaço para receber empreendedores que tenham sinergia com o nosso negócio”, diz o CEO, Sobhan Daliry. Para poderem ocupar os espaços disponibilizados pela NZN, as startups precisam passar por um processo de seleção. “Queremos que toda vez que pensarmos em um projeto já tenhamos alguém do nosso lado com alguma nova tecnologia para nos ajudar.”

PREÇO SALGADO A sede por relacionamento é tão grande que as empresas não ligam de pagar caro para estar nestes lugares. Em uma conta rápida, pode-se concluir de que o custo para ocupar um coworking é elevado. De acordo com o índice FipeZap, o metro quadrado de um escritório comercial em São Paulo custa aproximadamente R$ 36. Em um desses espaços descolados, o metro quadrado pode ultrapassar R$ 500. A especialista Bruna Lofego, criadora do método “Como Montar um Coworking de Sucesso”, justifica a opção por um espaço compartilhado..

Marcos Tilelli, da Working4You: “O mercado tem forçado os preços para baixo e isso tem piorado o serviço.” (Crédito:Divulgação)

“Há dois grandes propósitos por trás desse conceito. O principal é o relacionamento, mas os custos e o trabalho que envolvem a infraestrutura e a manutenção de um escritório também são importantes”, diz. O fim da preocupação com os gastos com internet, telefonia, atendimento e outros gastos como limpeza e manutenção fazem a diferença, garante Bruna. “Quando se abre um negócio, as empresas possuem um orçamento limitado. Digamos que uma startup tenha R$ 3 mil por mês para alocar em um espaço corporativo, contando todos os gastos. O coworking é uma solução para isso”.

De fato, esse entendimento parece fazer sentido para as companhias, uma vez que o setor vem crescendo rapidamente. Segundo o censo feito pela Coworking Brasil, existiam 378 espaços abertos no País, em 2016. Quando comparado com 2015, o crescimento foi de 52%. Há quem diga até que há uma corrida desenfreada, que vem levando a uma precarização. “O mercado tem forçado os preços para baixo e isso tem piorado o serviço. A internet, por exemplo, precisa ser perfeita, mas em muitos espaços ela não dá conta da demanda”, diz Marcos Tilelli, fundador da Working4You.

E como em qualquer mercado em ascensão, para se destacar e conquistar as melhores companhias, as empresas que oferecem os espaços compartilhados buscam diferenciar dos concorrentes. Mateo Marin, junto de dois sócios, criou neste ano a Workhäuss e aposta na ocupação de espaços pouco utilizados de restaurantes e bares para oferecê-los a empreendedores. Um dos espaços oferecidos são os andares vazios do prédio onde está instalado o restaurante Chez Oscar, nos Jardins, em São Paulo. Outra locação disponibilizada pela Workhäus é no Bar Original, onde o empreendedor só pode ficar até às 17h, quando abre o botequim, localizado em Moema. “Nosso cliente não vai para o Happy Hour, ele fica para o Happy Hour”, brinca Marin.