Negócios

A prova final da Kroton

Após parecer contrário do Cade, fusão entre Kroton e Estácio fica ameaçada. Erros e disputas de egos também podem inviabilizar o maior negócio da história no mercado brasileiro de educação

Crédito: Andre Lessa / Istoe

DURO NA QUEDA: fusão com a Estácio tem se mostrado o maior desafio da gestão de Rodrigo Galindo no comando da Kroton. Ele não gostaria de se desfazer de unidades importantes, o que incomodou o Cade (Crédito: Andre Lessa / Istoe)

Quando o presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, concluiu as negociações para a fusão de sua empresa com a Estácio, em junho de 2016, o mercado da educação celebrou o acordo como uma das maiores vitórias do jovem executivo de 40 anos. Não era para menos: ele havia costurado uma engenhosa operação que criaria uma empresa com faturamento superior a R$ 8 bilhões, 1,6 milhão alunos e 23,5% de participação de mercado. Os únicos que poderiam atrapalhar a conclusão do negócio, diziam analistas, seriam os conselheiros do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Galindo sabia que haveria restrições, mas, informalmente, dizia que conhecia os remédios para acalmar o órgão regulador do mercado. A dose, entretanto, poderá ser amarga e há sérios riscos de a união não acontecer. Na sexta-feira 3, a Superintendência-Geral do Cade soltou uma nota a respeito da fusão entre Kroton e Estácio. Para o órgão antitruste, a junção levaria a uma concentração de mercado que “reduziria o nível de rivalidade sem apresentar eficiências que compensem os problemas concorrenciais encontrados.”

O órgão regulador, por consequência, recomendou a impugnação do negócio ou a adoção de remédios amargos. O caso será julgado, provavelmente, no fim do primeiro semestre de 2017. Até lá, no entanto, há muitos capítulos para serem acompanhados nessa novela da educação. Adicional-mente aos problemas com o Cade, erros de avaliação e disputas de egos entre os envolvidos podem inviabilizar a união. Este é um dos negócios mais contestados dos últimos anos, especialmente pela concorrência. O setor enxerga com reticências a expansão voraz da Kroton.

ESTAMOS À VENDA: para o negócio ser aprovado, a UNIDERP aparece como um dos principais ativos a serem vendidos
ESTAMOS À VENDA: para o negócio ser aprovado, a UNIDERP aparece como um dos principais ativos a serem vendidos (Crédito:Divulgação UNIDERP)

Não apenas desaprova, como critica o ímpeto que o CEO da companhia costuma adotar para conquistar seus objetivos. De acordo com pessoas próximas à alta cúpula das empresas, Galindo passou a agir de “forma soberba” desde que fechou o negócio. “Ele começou a pensar que poderia fazer tudo, que era infalível”, diz um executivo, que não quis se identificar. “Por isso nem enviou contrapartidas relevantes ao Cade para justificar a compra.” Essa é apontada como sua principal falha. Galindo poderia ter apresentado à autarquia ativos a serem negociados para reduzir a concentração, mas preferiu esperar o julgamento.

A Kroton não enxerga desta maneira. Por meio de nota, afirma que buscará “uma solução negociada junto ao Tribunal do Cade com o objetivo de afastar preocupações concorrenciais identificadas e obter a aprovação da operação.” A empresa lembra, ainda, que um parecer semelhante foi dado à época da fusão com a Anhanguera. É verdade. Porém, além daquele negócio não ter tanta pressão contrária da concorrência, o Cade ficou de olho na Kroton. Até hoje, alguns conselheiros não aceitam a forma como o negócio foi aprovado. Para eles, mais restrições deveriam ter sido feitas. Além disso, apesar do otimismo nos corredores da Kroton, em São Paulo, o mesmo não acontece nas salas da Estácio, no Rio de Janeiro.

Lá, a pressão para que a fusão não ocorra fica cada vez maior. Um dos motivos apontados para a desistência do negócio é a denúncia de que a Kroton cometia irregularidades no Fies, programa do governo que subsidia estudantes. A empresa é acusada de ter feito distinção nas cobranças de alunos beneficiados pelo Fies, que pagavam mais do que os outros. A Kroton nega qualquer irregularidade. Segundo a companhia, a diferença nas mensalidades se deve a descontos dados em função de benefícios pontuais, como bolsas por parcerias com empregadores ou devido a pagamentos antecipados da mensalidade.

PRESSÃO CONTRA: executivos da Estácio fazem pressão para que o negócio com a Kroton não ocorra. Se o Cade vetar, será o primeiro fracasso de Galindo
PRESSÃO CONTRA: executivos da Estácio fazem pressão para que o negócio com a Kroton não ocorra. Se o Cade vetar, será o primeiro fracasso de Galindo (Crédito:Divulgação)

As acusações foram um prato cheio para concorrentes atacarem a Kroton. “Se eu fosse acionista da Estácio, ficaria muito preocupado com esta situação”, afirma um executivo da Estácio. “E creio que conselheiros e até o próprio Cade vão olhar a empresa e a fusão com outros olhos por conta disso.” Segundo apurou a DINHEIRO, pessoas próximas a Galindo, no entanto, reiteram a confiança no fechamento do negócio. “Existe a certeza de que, se for feita nova votação com os acionistas a respeito da fusão, a vitória será unânime”, diz uma fonte. Mas, apesar da confiança, o apoio de todos não está garantido.

Com 11% de participação, o empresário Chaim Zaher é o maior acionista individual da Estácio. Durante as negociações ocorridas no ano passado, Zaher foi um ferrenho opositor ao negócio. Ele, inclusive, procurou parceiros para comprar a Estácio e chegou a assumir a presidência durante 20 dias, mas passou o bastão para Pedro Thompson. Três meses depois, com a fusão fechada e satisfeito com os termos, ele também renunciou ao seu assento no conselho. Para ele, hoje seria melhor se a fusão se concretizasse. Procurado, Zaher não concedeu entrevista sobre a questão do Cade. “Estou esperando a resolução mais rápida possível e o meu foco está na educação básica”, limitou-se a responder, em mensagem pelo WhatsApp.

Segundo a DINHEIRO apurou, ele prevê anunciar uma aquisição na próxima semana. Caso a fusão com a Kroton não saia, ele pode até aumentar a sua fatia na Estácio. Ele confidenciou a uma pessoa próxima que está tranquilo, pois os negócios continuam sendo geridos de forma independente e a gestão na Estácio está equacionada, com bons resultados. A Ser Educacional é outro personagem importante nessa história. A companhia, fundada pelo paraibano Janguiê Diniz, tentou atravessar o negócio. Em parceria com a antiga diretoria executiva da Estácio, então comandada pelo ex-presidente Rogério Melzi, chegou a fazer uma proposta de fusão, que não agradou.

NOVO CHEFE: Pedro Thompson assumiu a presidência da Estácio após a saída de Rogério Melzi, em junho, e de Chaim Zaher, um mês depois
NOVO CHEFE: Pedro Thompson assumiu a presidência da Estácio após a saída de Rogério Melzi, em junho, e de Chaim Zaher, um mês depois (Crédito:Divulgação ESTACIO)

Agora, a Ser pressiona como pode para não ficar tão atrás da principal rival. “Esta é uma questão que será decidida pelo Cade, nós estamos aguardando a definição do processo que está em andamento”, disse, por e-mail, Jânyo Diniz, CEO da companhia. Nos bastidores, sabe-se que a Ser está longe de esperar passivamente o resultado. A empresa recrutou a consultoria GO Associados, de Gesner Oliveira, ex-presidente do Cade, para fazer uma análise da fusão, que foi enviada ao órgão regulador. O intuito era pressionar o Cade a dar um parecer contrário. Galindo ainda pode virar o jogo em Brasília, mas terá de abrir mão de unidades relevantes.

Alheios às intrigas da novela, analistas fazem um balanço dos próximos passos da Kroton e da Estácio. Bruno Giardino, do Banco Santander, criou quatro cenários de venda de ativos da empresa (veja quadro ao final da reportagem) que poderiam garantir a aprovação. Em apenas um deles, o impacto na receita líquida da nova companhia não passaria os 15%. Caso esse valor seja ultrapassado, qualquer uma das partes poderia desistir do negócio sem precisar pagar uma multa de R$ 150 milhões, como estabelecido no contrato. “Apesar do parecer duro do Cade, enxergo uma grande chance de o negócio acontecer”, diz Giardino.

Outra visão compartilhada por especialistas é a de que um eventual fracasso poderia impactar mais a Estácio do que a Kroton. “Por conta de toda a mudança estrutural na diretoria, teoricamente a Estácio vai sofrer mais e a Kroton vai seguir a sua vida”, diz Adeodato Volpi Netto, presidente da empresa de análises financeiras Eleven Financial. Contudo, a Kroton não sairia ilesa. “Seria a primeira grande falha de Galindo, o que afetaria sua imagem junto ao mercado”, diz uma fonte próxima às negociações. Procurado, Galindo não concedeu entrevista.

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