Finanças

Parcelas em xeque

Nas próximas semanas entram em vigor as novas normas para o empréstimo rotativo dos cartões de crédito. E essa é apenas parte da mudança

Parcelas em xeque

Depois de mais de um ano de discussão entre as lideranças do setor bancário e os técnicos do Banco Central (BC), entram em vigor, no início de abril, as novas regras para o empréstimo rotativo dos cartões de crédito. Resumidamente, as mudanças limitam a 30 dias o prazo em que o cliente que não paga sua fatura em dia pode se financiar nessa linha, uma das mais caras do sistema financeiro, com juros que chegam a 500% ao ano. A partir de abril, após 30 dias no rotativo, mesmo que não tome nenhuma iniciativa, o cliente terá sua dívida automaticamente transferida para linhas mais baratas, como os empréstimos parcelados, cujas taxas oscilam ao redor de 200% ao ano.

Ainda é uma taxa alta. “Nós não nos orgulhamos dessas taxas de juros e vemos como positiva a oferta de empréstimos mais baratos”, diz Fernando Chacon, novo presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito (Abecs). No entanto, a redução da taxas é apenas uma das mudanças que deverão chegar aos 150 milhões de possuidores de cartões nos próximos meses. Discretamente, como é praxe no mercado financeiro, os bancos e o Banco Central estão discutindo alterações em pontos fundamentais da indústria. O mais importante é o financiamento parcelado sem juros.

Essa linha de financiamento é muito usada pelo comércio, especialmente nos segmentos de entretenimento e de bens duráveis. Para muitos varejistas, não parcelar significa perder a venda. “Nossos estudos mostram que a correlação entre a redução do valor da parcela e o aumento das vendas é imensa”, diz Rogério Panca, diretor de cartões do Banco do Brasil. Parcelar uma venda sem juros pode parecer improvável em terras onde o governo paga 12% ao ano pelo dinheiro dos outros. No entanto, dos R$ 184 bilhões em empréstimos tomados via cartão de crédito, 65%, ou quase R$ 120 bilhões, são parcelados.

Fernando Chacon, novo presidente da Abecs: “Nós não nos orgulhamos dessas taxas de juros e vemos como positiva a oferta de empréstimos mais baratos”
Fernando Chacon, novo presidente da Abecs: “Nós não nos orgulhamos dessas taxas de juros e vemos como positiva a oferta de empréstimos mais baratos” (Crédito:Divulgação)

Essa modalidade de empréstimos surgiu há cerca de vinte anos. Quando o Plano Real baixou a inflação, o varejo começou a parcelar usando generosas doses de criatividade brasileira. Comerciantes e clientes encontraram uma solução para ampliar o crédito. Usar, sem nenhuma regulação, um instrumento de pagamentos como um contrato informal de crédito, e que funcionou perfeitamente: o cheque pré-datado. “A venda parcelada sem juros foi uma maneira de a indústria de cartões competir com o pré-datado”, diz Chacon. Deu certo. No fim de 2016, segundo dados do Banco Central (BC) compilados pela Abecs, os cartões ocupavam o terceiro lugar entre as linhas de crédito, perdendo apenas para os empréstimos imobiliários e os consignados (observe o gráfico ao final da reportagem).

Deu tão certo que hoje os bancos querem rediscutir o assunto. “O parcelado sem juros representa um subsídio cruzado”, diz Rodrigo Cury, diretor de cartões e meios de pagamento do Santander. A explicação é simples. Se o varejista vender um eletrodoméstico em três parcelas sem juros por meio de uma transação presencial, o banco terá de honrar os pagamentos, mesmo que o cliente não pague as faturas do cartão de crédito. Supondo-se que o comerciante não precisa descontar as faturas antecipadamente, o que é raro, o bônus do parcelamento fica com a loja, enquanto os bancos carregam o ônus do risco. “A conseqüência disso é uma relação desigual”, diz Cury.

Os bancos estão ansiosos para mudar isso. Porém, falar é muito mais simples do que fazer. “Mexer em uma linha tão importante para o comércio pode derrubar as vendas, e, pelos cálculos do setor, reduzir o crescimento do PIB em mais de um ponto percentual”, diz um executivo. “Ninguém em Brasília vai assinar isso.” As medidas que deverão começar a ser propostas, cuidadosamente, é reduzir aos poucos o prazo desses financiamentos, ou então começar a cobrar juros para os pagamentos mais longos. “Esse é um assunto ainda em aberto”, diz Chacon.

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