Economia

Para onde vai a JBS

Donos confessam atividades criminosas e arrastam a companhia para uma era de incertezas

Crédito: Danilo Verpa/Folhapress

Joesley Batista, presidente da J&F e presidente do conselho de administração da JBS: “Ainda que nós possamos ter explicações para o que fizemos, não temos justificativas” (Crédito: Danilo Verpa/Folhapress)

A JBS se tornou, na última década, a maior companhia privada do Brasil e a principal processadora de carne do mundo. Uma ascensão que chamou atenção pela voracidade de aquisições no País e no exterior. Desde a sua abertura de capital em 2007, a empresa ampliou o seu faturamento em mais de 40 vezes, saltando de R$ 4 bilhões para R$ 170 bilhões, no ano passado, e investiu mais de US$ 20 bilhões em companhias americanas, como a Swift e a Pilgrim’s Pride, europeias, como a norte-irlandesa Moy Park, e marcas nacionais, incluindo a Seara.

Nesse período, consolidou o mercado brasileiro, num momento em que muitos frigoríficos faliam e fechavam as suas portas. O sucesso da JBS originou a criação da holding J&F, que controla ainda outros grandes negócios, como Eldorado Celulose, Banco Original, Alpargatas e Vigor. Mas, ao mesmo tempo que conquistava espaço, levantava suspeitas com relação à proximidade que teria com as instâncias governamentais, atraindo críticas de que seria favorecida pela política de campeões nacionais, que norteou a gestão pública na década passada.

Isso se traduziu na posição da JBS como a maior financiadora de campanhas políticas do Brasil. Somente em 2014, nas eleições gerais, repassou R$ 366,8 milhões a candidatos. Se as relações com o poder eram suspeitas, começaram a ganhar traços mais fortes com o envolvimento da empresa em cinco operações da Polícia Federal. E estourou de vez, na quarta-feira 17, com a revelação de gravações feitas por Joesley Batista, presidente da holding J&F e presidente do conselho de administração da JBS.

As denúncias implicaram o presidente da República, Michel Temer, os senadores Aécio Neves e José Serra, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, o ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, e outros. Todos negam as suspeitas de atos ilícitos. A extensão do impacto, porém, não está restrita ao Palácio do Planalto e ao Congresso Nacional. O J&F foi arrastado para o centro da operação Lava-Jato e os desdobramentos do caso lançaram dúvidas quanto ao futuro das companhias da família Batista. Como ficará a gestão do grupo?

Em flagrante: intermediário indicado por Temer, que na sexta-feira desembarcou em São Paulo, vindo de Nova York, o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB) foi gravado pela PF (à dir.) recebendo propina paga pela JBS
Em flagrante: intermediário indicado por Temer, que na sexta-feira desembarcou em São Paulo, vindo de Nova York, o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB) foi gravado pela PF (à dir.) recebendo propina paga pela JBS

É cedo para dizer. Os acordos fechados por Joesley e seu irmão mais velho Wesley Batista, presidente da JBS, com o Ministério Público Federal são favoráveis para eles. Os dois não serão presos e não precisarão usar tornozeleiras eletrônicas. Também podem continuar à frente de seus negócios, mediante o pagamento de multa de R$ 250 milhões, além de devolver valores advindos de transações ilegais. Tais condições para a delação refletem tanto a conhecida habilidade de negociação da dupla de empresários quanto o aspecto bombástico do que eles têm a revelar.

Há cerca de três meses, Joesley já sinalizava que poderia seguir esse caminho, apesar de negar qualquer envolvimento com operações ilícitas e conhecer o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes de 2013. “Francamente, ninguém quer acabar com a corrupção mais do que eu. Pode ter outro que queira igual, mais não”, disse Joesley, em fevereiro, em entrevista à Folha de S. Paulo. “Corrupção é um câncer para a economia.”

A delação no Brasil também pode abrir caminho para o fechamento de um acordo de leniência com o Departamento de Justiça dos EUA, para o qual já teria sido contratado o escritório Trench, Rossi e Watanabe. Os irmãos estavam em Nova York, onde possuem apartamento, no momento da revelação das denúncias. Eles alegaram a necessidade de deixar o País por conta de ameaças de morte que estariam sofrendo. Ao escancarar as relações espúrias que mantinha com diversos políticos, Joesley pretende salvar o próprio pescoço e garantir a sobrevivência das suas empresas.

“O fato de ele ter colocado o nome do presidente da República na fogueira só reforça que a situação da JBS não é nada confortável”, diz Pedro Galdi, chefe de pesquisas da Upside Investors. Ele ressalta que é muito cedo para estabelecer o quanto o escândalo pode afetar o futuro da companhia. “A caixa preta da corrupção na empresa ainda não está totalmente aberta. Estamos apenas na ponta do iceberg.” Apesar do cenário imprevisível, alguns impactos são dados como certos.

DIN1019-JBS3Entre as fontes consultadas pela DINHEIRO, há um consenso de que a abertura de capital nos Estados Unidos está comprometida, ao menos no curto e médio prazo. “Não vai acontecer em 2017”, diz Alcides Torres, analista da Scot Consultoria. “O mercado americano é sensível a qualquer boato e vai exigir um longo processo de recuperação de imagem.” A dificuldade de captar recursos no mercado deve aumentar e pode se tornar uma questão crítica. “A JBS vai ser obrigada a vender ativos e encontrar um novo formato, talvez uma operação mais enxuta”, afirma Galdi.

As estratégias adotadas por outros grupos envolvidos em investigações, como a Odebrecht e a Braskem, podem ser uma referência para os próximos passos da companhia. “A empresa precisa se reinventar e os irmãos Batista provavelmente terão de se afastar da operação”, diz Galdi. Mesmo com a garantia de que não serão presos agora, eles podem ser alvos de novos processos. As incertezas passam por operações realizadas no mesmo dia da divulgação da existência das gravações.

Segundo a agência Broadcast, a JBS teria comprado entre US$ 750 milhões e US$ 1 bilhão, no mercado futuro, na quarta-feira. Além de se proteger contra uma depreciação do real, a empresa teria lucrado com o escândalo que fez explodir em Brasília. O uso de informações privilegiadas em especulações financeiras tem nome: crime. Outro fator que chamou a atenção dos investigadores diz respeito a trecho da conversa gravada com Temer, em março. Uma fala do presidente sugere um vazamento da informação que o Banco Central iria cortar a taxa Selic em um ponto percentual.

Foi o que aconteceu depois, em reunião de 12 de abril, do Comitê de Política Monetária (Copom), que estabeleceu queda de juros para 11,25%. A gravação também indica outros atos ilícitos. Joesley conta ao presidente que está pagando R$ 50 mil mensais a um procurador infiltrado na força-tarefa da Lava-Jato, para passar informações confidenciais, além de “segurar” dois juízes. Joesley contou à Procuradoria-Geral da República que pagou R$ 5 milhões ao ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB), depois que ele foi preso. E também teria se comprometido a desembolsar mais R$ 20 milhões pela tramitação de lei sobre a desoneração tributária do setor de frango, que beneficiaria a JBS.

A PF flagrou a entrega de R$ 500 mil em propinas para o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), que teria sido indicado por Temer como interlocutor para se conversar de “tudo”. Esse valor seria apenas a primeira parcela de um montante de R$ 480 milhões, a serem pagos semanalmente, durante 20 anos. A propina resolveria um impasse no Cade sobre o preço do gás fornecido pela Petrobras para a termelétrica EPE, comprada pelo grupo J&F, em 2015. Loures ainda indicou, em outra conversa gravada pelo empresário, que poderia nomear pessoas para resolver problemas de suas empresas em órgãos como o Cade, a CVM, a Receita Federal, o Banco Central e a Procuradoria da Fazenda Nacional.

Joesley afirmou que mantinha uma conta de US$ 150 milhões em propinas para Lula e Dilma. Ele estima ter pago R$ 400 milhões para políticos desonestos, que defendiam seus interesses em órgãos públicos. Tamanha proximidade com políticos e habilidade para atividades mafiosas colocam manchas na trajetória vitoriosa da JBS. Fundada como um pequeno frigorífico nos anos 1950 por José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro, a empresa cresceu ao vender carne para os operários contratados para construir Brasília.

E agora, Wesley?: o desafio da JBS, do CEO Wesley Batista, será descolar o dia a dia operacional das encrencas de seus controladores
E agora, Wesley?: o desafio da JBS, do CEO Wesley Batista, será descolar o dia a dia operacional das encrencas de seus controladores

Nos anos 2000, liderada pelo primogênito, José Batista Júnior, conhecido como Júnior Friboi, e, depois por Joesley e Wesley, a empresa comprou frigoríficos em dificuldades no Brasil e no exterior, aprimorando as suas operações com ganhos de eficiência e a modernização das plantas. Hoje, a companhia possui 56 unidades nos EUA, e mais da metade de sua receita é internacional. Essa expansão só foi possível com um forte financiamento do BNDES. Além de empréstimos de R$ 2 bilhões, o banco, por meio do seu braço de investimentos, o BNDESPar, aportou mais de R$ 8 bilhões em compra de participação na JBS. A fatia chegou a ser de 31% e agora está em 21,32%.

Esses investimentos foram o alvo principal da operação Bullish, deflagrada no dia 12, por suspeitas de que as ações teriam sido compradas por valores acima do mercado e sem as garantias devidas, causando prejuízo de R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos. “Hoje, o BNDES tem uma diretoria muito mais profissional e rígida”, diz Adeodato Volpi Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial. “Se as irregularidades forem comprovadas e o banco decidir cobrar essa conta, o dano vai ser enorme.”

Essa foi a quinta operação em que a empresa se viu enroscada (leia mais no quadro ao final da reportagem). A mais estrepitosa foi a Carne Fraca, em março, que acusava a empresa de pagar propinas para fiscais do Ministério da Agricultura emitirem certificados de qualidade a alguns de seus frigoríficos. O caso levou investidores americanos a entrarem com uma ação conjunta, nos EUA, contra a JBS e Wesley. Eles pedem compensações financeiras por prejuízos ao comprarem ações da empresa. Esse processo indica um caminho de novos problemas.

“O futuro da JBS, e de outras organizações implicadas na Lava-Jato, passa por um salto de governança”, diz Gesner Oliveira, ex-presidente do Cade e sócio da GO Asso-ciados. “Será um longo processo. Há uma mudança cultural profunda a acontecer.” O grande desafio será separar a operação da companhia dos escândalos protagonizados por seus gestores. Do ponto de vista dos negócios, a JBS é considerada eficiente. Tem bons compradores de gado e unidades de produção bem azeitadas. “Não é à toa que se tornou a principal empresa de proteínas do mundo. Não só por financiamento do BNDES, mas por competência”, diz Alcides Torres, da Scot Consultoria. “Tirando tumores malignos, o organismo ainda tem chance de sobreviver.”

É isso que a família Batista espera. Em carta aberta, divulgada na quinta-feira 18, Joesley fez um mea culpa e afirmou que a empresa vai assumir um compromisso público de ser intolerante e intransigente com a corrupção. “Nosso espírito empreendedor e a imensa vontade de realizar, quando deparados com um sistema brasileiro que muitas vezes cria dificuldades para vender facilidades, nos levaram a optar por pagamentos indevidos a agentes públicos”, escreveu. “Ainda que nós possamos ter explicações para o que fizemos, não temos justificativas.”

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