Mercado Digital

A operadora das coisas

Com investimentos de US$ 50 milhões, a francesa Sigfox e a brasileira WND estão construindo uma rede para conectar objetos

Crédito: Felipe Gabriel

Le Moan, da sigfox : “Decidimos expandir a operação para toda a América Latina, partindo do Brasil” (Crédito: Felipe Gabriel)

Quem visita Toulouse, no sul da França, se surpreende não só pela beleza da quarta maior cidade francesa. Ela também é o centro da indústria aeroespacial europeia. A Airbus, por exemplo, mantém sua sede lá. A fabricante de chips Intel escolheu também o município para hospedar seu quartel-general europeu. Mas, desde 2009, Toulouse está virando o “Vale da Internet das Coisas”. Estima-se que mais de 40 startups atuam na região pesquisando tecnologias que conectam “coisas” tão distintas quanto uma máquina de lavar, um relógio, um carro e uma banheira à web – e permite que elas conversem entre si.

De todas elas, nenhuma se destaca como a Sigfox, fundada, há sete anos, pelo empresário francês Ludovic Le Moan. “Olha aqui a tela do meu laptop”, disse Le Moan, quando recebeu a DINHEIRO, no começo de abril, em uma rápida visita ao Brasil. “Minha mala está cruzando o Oceano Atlântico e eu posso monitorá-la em tempo real.” A Sigfox é um caso raro no universo de startups francesas. Poucas empresas receberam tantos aportes como a startup de Toulouse. Desde 2009, foram € 277,5 milhões (aproximadamente R$ 930 milhões). Os investidores são gente grande do setor de telecomunicações e de tecnologia.

Botão tecnológico Sigfox usa tecnologia que reduz volume de dados transportados e o consumo da bateria do equipamento
Botão tecnológico: Sigfox usa tecnologia que reduz volume de dados transportados e o consumo da bateria do equipamento

A empresa de telefonia espanhola Telefónica, a japonesa NTT Docomo e a coreana SK Telecom fizeram aportes na startup de Le Moan. Intel e Samsung também investiram recursos na Sigfox, além de uma grande quantidade de fundos de venture capital. Por que tantos investidores apostaram na Sigfox? A startup resolveu atuar em nicho pouco explorado pelas empresas de telefonia. Em vez de ser uma operadora que conecta pessoas, como as tradicionais, ela está conectado objetos através de uma tecnologia que permite a comunicação de “coisas” por uma fração do que é cobrado pelas teles.

Uma das aplicações criadas pela Sigfox é um simples botão de plástico. Ele conta com um chip embutido que, quando acionado, pode disparar um alarme ou até mesmo fazer a compra de um remédio ou de uma pizza. Sua vantagem: em vez de trafegar megabytes, ele transmite bytes, o que significa uma milionésima fração quando comparado com aplicativos tradicionais. “É como se construíssemos uma rodovia de alta velocidade para se usar uma bicicleta”, afirma Le Moan. Isso é possível graças a uma tecnologia chamada LPWA (Low Power Wide Area), que reduz drasticamente não só o volume de dados transportados, como o consumo da energia de bateria.

Presente em 32 países, o Brasil será fundamental na estratégia de expansão da Sigfox . Por aqui, a empresa fechou parceria com a brasileira WND, que está investindo US$ 50 milhões para construir a infraestrutura de rede de internet das coisas (IoT, da sigla em inglês). Ela já está pronta em São Paulo e Rio de Janeiro. Até junho, a Sigfox chegará em 12 cidades, como Porto Alegre, Curitiba, Vitória, Salvador e Recife. O plano é que 90% da população brasileira estejam interligados a essa rede de internet das coisas até o final de 2018. “Decidimos expandir a operação para toda a América Latina partindo do Brasil”, diz Le Moan. A WND também foi a escolhida para implantar a rede na América Latina.

DIN1014-sigfox3Sigfox e WND estão de olho no potencial de expansão da internet das coisas no mercado brasileiro. Em 2016, foram investidos US$ 6 bilhões em conectividade, hardware, software e serviços relacionados à IoT no Brasil, segundo a consultoria IDC, especializada em tecnologia. Esse número vai mais do que dobrar, superando os US$ 13 bilhões, em 2020. “No mundo, em 2016, esta conta é de exuberantes US$ 737 bilhões e chegará em 2020 a US$ 1,3 trilhão”, diz Luciano Ramos, gerente de pesquisa de software da IDC. Estima-se que existam 194 milhões de objetos conversando entre si no País, segundo a consultoria Gartner. Essa cifra vai mais do que triplicar nos próximo oito anos.