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O Vale do Silício acorda para o sexismo

Casos da Uber, 500 Startups e da Tesla demonstram a cultura do assédio em empresas de tecnologia. A boa notícia é que, ao menos lentamente, isso começa a mudar

O Vale do Silício acorda para o sexismo

As recentes polêmicas com executivos de empresas como a Uber, o fundo de investimento 500 Startups e a fabricante de carros elétricos Tesla, envolvidas em casos de assédio sexual, não deixam dúvida: há algo de podre no reino do Vale do Silício. A região da Califórnia, que concentra as maiores e mais inovadoras empresas de tecnologia do mundo, poderia ser uma das melhores do mundo para trabalhar. A menos, é claro, que você seja mulher e tenha que enfrentar discriminação de gênero e assédio no ambiente de trabalho. Uma pesquisa criada por sete mulheres, entre elas Trae Vassallo e Michele Mandansky, e apoiada pela Universidade de Stanford, com 220 executivas de empresas de tecnologia dos EUA mostrou que seis de cada dez já sofreram assédio sexual no trabalho (saiba mais no quadro ao final da reportagem).

Esses problemas sempre existiram. Dentro e fora do Vale do Silício. Contudo, ao menos até agora, eram jogados para debaixo do tapete. Mas algo está mudando a partir deste ano. Não só as mulheres estão falando mais abertamente sobre assédio sexual no Vale do Silício, como também os negócios passaram a ser afetados pelas denúncias. Com isso, os executivos começaram a perder seus empregos. O primeiro deles foi Travis Kalanick, fundador e CEO da Uber, que renunciou, em junho, depois de intensa pressão dos investidores. A startup foi acusada de não levar adiante denúncias de assédio sexual.

O assunto só ganhou relevância depois que um relato da ex-engenheira Susan Fowler indicava que ela havia sofrido assédio sexual enquanto trabalhava na Uber e o departamento de recursos humanos simplesmente ignorou todos os alertas. Mas a Uber não foi um caso único. Os investidores Justin Caldbeck, da Binary Capital, e Dave McClure, da 500 Startups, também enfrentaram a acusações de assédio sexual, em junho deste ano. Ambos enviaram mensagens de texto assediando funcionárias e mulheres interessadas em trabalhar em suas companhias. Diferentemente de antes, os casos não foram acobertados.

Custou caro: Cofundadores da Uber e da 500 Startups respectivamente, Travis Kalanick (à esq. e de terno) e Dave McClure (à esq. e de camiseta) precisaram deixar o comando das empresas que criaram após verem seus nomes envolvidos em casos de assédio sexual e discriminação de gênero (Crédito:Masao Goto Filho / Ag.IstoÉ)

Caldbeck e McClure admitiram que agiram de forma inescrupulosa e afastaram-se de suas empresas. “As mulheres já reclamavam antes”, diz Claudia Melo, professora e pesquisadora da Universidade de Brasília e conselheira da ONG Mulheres na Tecnologia. “A diferença é que agora elas estão sendo ouvidas.” Ironicamente, com a ajuda de uma das ferramentas criadas no Vale do Silício: as redes sociais. No começo de julho foi a vez da Tesla, descrita como “uma fábrica de predadores”, em uma reportagem do jornal britânico The Guardian. A empresa não seguiu o mesmo caminho da Uber e da 500 Startups. Ao contrário.

A Tesla demitiu a engenheira AJ Vandermeyden, autora da denúncia contra a empresa, após alegar que as acusações eram “sem fundamento”. A atitude foi amplamente criticada na internet e a empresa agora sustenta o título de machista e enfrenta processos trabalhistas de AJ e de outras funcionárias que a acusam de discriminação. Os problemas não se restringem apenas ao assédio no ambiente de trabalho. As mulheres também precisam lutar mais do que os homens para crescer nas empresas. Uma pesquisa da consultoria alemã Statista, com dados de fevereiro deste ano, evidenciou a diferença na quantidade de funcionários dos sexos masculino e feminino em algumas das gigantes do setor.

Facebook, Apple e Google têm apenas um terço dos postos de trabalho ocupados por mulheres. Na Microsoft, somente um a cada quatro. “É um ambiente dominado pelos homens. Menos mulheres empregadas resulta em mais alegações de comportamento machista”, diz Cameron Anderson, professor de psicologia voltada para o ambiente corporativo da Universidade de Berkeley, na Califórnia. “Culturalmente, estamos finalmente chegando a um lugar em que o assédio não será mais tolerado.”

O salário também é menor. Segundo a empresa de recrutamento Hired, utilizada pelas gigantes do Vale do Silício, os homens recebem ofertas salariais, em média, 4% maiores do que as mulheres. É claro que existem exemplos que venceram as estatísticas, como Meg Whitman, Ginni Rometty e Susan Wojcicki, que lideram HP, IBM e YouTube, respectivamente. Elas são as exceções que confirmam a regra de que o Vale do Silício é um ambiente machista. A boa notícia é que, ao menos lentamente, suas vozes começam a ser ouvidas.