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Entrevista

O problema não é o aumento salarial. É a produtividade

Keiny Andrade /Folhapress

O problema não é o aumento salarial. É a produtividade

Márcio Kroehn
Edição 20.04.2017 - nº 1015

A primeira vez que o executivo português Antonio Bernardo esteve no Brasil foi há cerca de 30 anos. Ele veio fazer uma análise do setor bancário, para compará-lo com os bancos americanos e europeus, e ficou impressionado. “Tecnologicamente, eles estavam dez anos à frente de todos os outros”, diz ele. “E eu entendi o por quê. Na Europa, debitar um cheque em 1989 levava uma semana; aqui, apenas três horas, pois a inflação era brutal. Isso deu foco para o curto prazo e isso demora tempos para desaparecer.”

O presidente da consultoria Roland Berger no País utiliza esse exemplo para mostrar que um dos principais problemas nacionais é a falta de planejamento de longo prazo: deveria ser mais importante pensar no Brasil daqui a 30 anos do que no de amanhã. “Estruturar ou reestruturar uma economia de trilhões de dólares não se faz de um dia para o outro”, afirma Bernardo. “O Brasil não pode mais fazer concessões e benefícios porque isso distorce a economia.” Para acabar com esse pensamento imediatista, o executivo acredita no surgimento de uma nova classe dirigente para comandar o País e no aumento da produtividade, tanto do trabalho como do capital. Ele explica os motivos a seguir:

DINHEIRO – O que a lista de Fachin pode provocar na economia e na política brasileira?

ANTONIO BERNARDO – Este é um bom momento para fazer grandes mudanças. Essa lista vai reforçar a construção de um novo Brasil, porque há muita gente com grande potencial no País, para agregar valor. É o início de uma grande mudança na economia brasileira e a oportunidade para emergir uma nova classe dirigente. O Brasil tem pessoas jovens bem preparadas, com muito potencial, sejam executivos ou novos políticos. Há uma grande oportunidade para o Brasil começar a construir e desenvolver uma nova classe dirigente. Claro, não vai ser muito rápido, porque é difícil, mas é preciso uma classe dirigente com novos valores e uma orientação claramente para o desenvolvimento do País, mais pró-mercado. É o momento de executivos preparados e de brasileiros que estão expatriados, seja nos EUA ou na Europa, voltarem com ideias novas para concretizar o grande potencial que o Brasil tem.

DINHEIRO – O sr. coloca o prefeito de São Paulo, João Doria, como um exemplo dessa nova classe dirigente?

BERNARDO – O caso João Doria é muito positivo. É um dos grandes exemplos, pelo que está fazendo. O modelo que ele está implementando é muito interessante. Isso já ocorre em outras partes do mundo, de dirigentes que levam para o setor público critérios de gestão, digamos, normais, de racionalidade. Estamos vendo isso acontecer em São Paulo. Deveriam aparecer mais Joões Dorias em outras partes do País, seria muito importante. Mas é preciso dar tempo ao prefeito. Há muito a ser feito na cidade. Ele está planejando muito bem, mas é necessário dar esse tempo para implementar as ações e para não ficar só no marketing.

DINHEIRO – Doria fala em privatizar alguns símbolos da cidade de São Paulo, como o Anhembi e o autódromo de Interlagos. Esse caminho é o correto?

BERNARDO – Sim, reduzir o peso do Estado, que está muito presente na economia. O Estado tem de reduzir o seu tamanho. O Brasil necessita reduzir o peso do setor público e privatizar tudo aquilo que possa ser feito melhor pelo privado. O Estado tem de assegurar a infraestrutura, a regulação. Mas aquilo que é possível fazer pelo privado deve ser feito por ele, com regulação boa, eficaz e eficiente. O peso do Estado no Brasil é muito grande e é uma barreira ao desenvolvimento e ao crescimento do País. Falta eficiência. Houve mudanças recentes e interessantes em estatais, como na Eletrobras, com o Wilson Ferreira; na Petrobras, com o Pedro Parente; e no BNDES, com a Maria Silvia Marques. Eles mostraram que é possível gerir e gerenciar estatais com os mesmos critérios de racionalidade econômica de uma empresa privada. Embora a missão possa ser diferente, por serem empresas públicas, os critérios de eficiência tem de ser os mesmos. O Doria, em São Paulo, mostra que a gestão pública não tem de ser pior que a gestão privada. Agora, o País, em geral, tem de privatizar mais. É verdade que o investimento público é importante durante a fase de ciclo de desenvolvimento dos países. Mas o Brasil já passou por esse estágio. Todas as semanas nós nos reunimos com muitos investidores e eles estão interessados no País. Este é o momento para atrair mais liquidez.

DINHEIRO – O último leilão de aeroportos comprovou esse interesse?

BERNARDO – Foram grandes investidores, que conhecem o setor aéreo. Não são apenas financeiros. Agora, tem de se avançar mais rapidamente e também lançar novas condições de privatização. É fundamental. Por exemplo, o número de bancos que o Estado tem. Por que e para que tanto bancos públicos? Por que não há concorrência? Certamente não é por esse motivo. O BNDES é muito interessante, o BB é muito bem estruturado, assim como a Caixa, mas para que tantos bancos estaduais? São muitos. O Estado brasileiro tem de reduzir sua presença na economia.

Michel Temer em reunião com Rodrigo Maia, presidente da Câmara (à dir.), e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (de costas)
Michel Temer em reunião com Rodrigo Maia, presidente da Câmara (à dir.), e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (de costas) (Crédito:Marcos Corrêa/PR)

DINHEIRO – Qual é o principal problema do Brasil?

BERNARDO – A grande questão, hoje, é a falta de planejamento de longo prazo. Aqui, há muito foco no curto prazo. As coisas têm de acontecer ontem, e elas não são assim. Estruturar ou reestruturar uma economia de trilhões de dólares não se faz de um dia para o outro. As pessoas, em geral, pensam que um novo governo entra e em seis meses resolve o problema. Os problemas do Brasil são muito complexos. O que o governo está fazendo, faz bem. A PEC do teto dos gastos e a questão da Previdência são importantes. Mas é preciso fazer mais, principalmente aquelas mudanças estruturantes, que não vão ter impacto em dois meses. Elas vão preparar a economia para 2019, 2020. Há uma grande ansiedade no País, e eu compreendo porque o desemprego aumentou, o consumo doméstico reduziu, mas é preciso tempo. Se o governo me perguntasse se é preciso fazer medidas de curto prazo, eu tenho muitas dúvidas sobre essas medidas. Elas sempre vão causar distorções e benefícios. O Brasil não pode fazer mais benefícios e concessões porque isso distorce a economia. É necessário ter, nas várias áreas da economia, um planejamento estratégico de médio e longo prazo. Falta isso no Brasil.

DINHEIRO – A aprovação da reforma da Previdência é essencial?

BERNARDO – É absolutamente indispensável para equilibrar e fincar o Brasil numa rota de crescimento sustentável. Sem ela, não é possível equilibrar as contas do Estado. Isso aconteceu em outros países, como Portugal, que fez uma reforma muito grande da Previdência. A população brasileira já entendeu que isso é absolutamente importante. A própria equipe econômica do governo tem passado essas mensagens, de forma bastante clara, inclusive pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. É importante para o curto e o médio prazo. Essa reforma é importante para os investidores internacionais, também.

DINHEIRO – O sr. vê a necessidade de uma reforma política?

BERNARDO – Se tem algo no Brasil que influencia muito a economia é o sistema político. É preciso revisá-lo. Não é possível continuar a funcionar com tantos partidos. Dou sempre o exemplo da Alemanha, porque é um país neutro, de grande sucesso e que encontrou um sistema de cotas mínimas. Partidos com menos de 5% não podem ter assento no Congresso. Isso evita toda uma negociação, que dificulta qualquer governo obter apoio. Esse aspecto, por não ser econômico, influencia muito a economia. A eficiência dos recursos públicos se reduz muito com isso. Os alemães fizeram muito bem. Eles têm eleições livres e diretas, mas criaram um sistema onde os partidos têm uma escala mínima para estar presentes. Esse é um aspecto que o Brasil vai ter de melhorar e alterar o sistema político, porque isso tem influência na forma como se gerem os ativos públicos.

O autódromo de Interlagos, em São Paulo, faz parte do plano de privatização do prefeito João Doria Jr.
O autódromo de Interlagos, em São Paulo, faz parte do plano de privatização do prefeito João Doria Jr. (Crédito:Nelson Almeida (Afp Photo))

DINHEIRO – Os juros mais baixos vão ajudar a acelerar a retomada da economia?

BERNARDO – Ainda tem de baixar mais e um pouco mais rápido. No final do ano, a Taxa Selic tem de estar abaixo de 9%. A inflação tem tido um comportamento bem positivo, por isso é necessário que o custo da dívida seja menor no Brasil. Isso é muito importante para o desenvolvimento econômico e também para a atração de investimentos, seja nacional ou internacional. E esse investimento melhora a produtividade. Entre as grandes questões do Brasil está a melhoria da produtividade, do trabalho e do capital. O País tem uma produtividade muito baixa. Como os aumentos de salários estiveram muito acima do aumento da produtividade nos últimos 10 anos, isso prejudica a competitividade do Brasil. O relaxamento do custo do capital vai ajudar a ter mais investimento em equipamentos e máquinas e, consequentemente, da produtividade do trabalho.

DINHEIRO – A produtividade é mais importante do que os investimentos?

BERNARDO – A volta do investimento é muito importante e a infraestrutura vai ser muito relevante para isso. Mas eu vou comparar a situação do Brasil com a de outros dois países, a Alemanha, que é o benchmark, e o México. Fizemos uma análise de 2005 a 2015, olhando para o aumento de produtividade real, que no Brasil foi de 9%. Nesse mesmo período, o aumento real de salários foi de 29%. Ou seja, o aumento de salários foi mais de três vezes o aumento da produtividade. Isso significa que a competitividade do Brasil decresceu fortemente. No México, o aumento de produtividade foi o dobro dos salários, em termos reais, no mesmo período. E na Alemanha, nos últimos 30 anos, os aumentos de produtividade estão acima do dos salários. Digo isso para afirmar que infraestrutura é extremamente importante, mas o Brasil tem um problema de competitividade da economia. Aumento de salário é bom; quanto mais, melhor. Mas tem de melhorar a produtividade para deixar de perder competitividade.

DINHEIRO – Então o aumento de salários é um problema?

BERNARDO – Não, o grande problema não é o aumento salarial. O índice de desenvolvimento e riqueza de um país se dá pelo índice de classe média que um país tem. Sou um dos gestores que acha que os países vivem de classes médias fortes. O que foi feito no Brasil foi positivo. Tem de fazer mais, pois o Brasil ainda não tem uma classe média forte. O problema não são os aumentos salariais. Havia uma defasagem. Se os salários subirem e a produtividade subir mais, sem problema. É a questão da competitividade. Há 15, 20 anos, o País era muito competitivo na produção de automóveis. Mas, nos últimos anos, tem tido dificuldade em exportar porque a produtividade não é igual à de outros países. O México é um dos países mais competitivos na indústria automotiva, pois está na fronteira com os EUA e tem um custo mais baixo que o de um produto chinês. Eles geriram bem esse aumento de produtividade. Veja Portugal, que é um país pequeno. Nos últimos anos, aumentou muito a competitividade por ter sempre a produtividade crescendo acima dos salários. Por muitos anos, Portugal não teve, mas nesses últimos anos, ao lado de México e Coreia, foi um país onde o aumento de produtividade foi superior ao aumento de salários.

DINHEIRO – O Brasil deixou de exportar por ter perdido competitividade?

BERNARDO – A economia brasileira é muito fechada. As trocas comerciais ainda são uma parte muito pequena do PIB do Brasil, cerca de 20%. No México é 75% e na Alemanha, 86%. Portanto, o País tem de se abrir mais ao mundo e ser menos protetor. O aumento da concorrência vai provocar maior inovação. Um país precisa inovar para melhorar o valor agregado daquilo que produz e aumentar sua produtividade. Isso só se faz com inovação e com o aumento da concorrência. É difícil, porque os empresários acabam se queixando das importações. Mas sem concorrência não há aumento de produtividade e da eficiência. E nem há inovação. Não podemos ter empresários que não queiram inovar.


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