Economia

O impacto da lista nas empresas

Com as delações de seus executivos aprovadas, Odebrecht, Braskem e Andrade Gutierrez olham para o futuro e buscam saídas para sobreviver a essa crise de imagem

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Novo caminho: Odebrecht e Petrobras precisam decidir o que será feita da Braskem, um dos mais valiosos ativos das duas empresas (Crédito: Divulgação)

Hilberto Mascarenhas recebeu uma missão de Marcelo Odebrecht, em 2006, que mudaria o Grupo Odebrecht e mexeria com toda a engrenagem política e econômica do País: criar um departamento de operações estruturadas para realizar o pagamento de propinas. Nos oito anos em que comandou essa área, Mascarenhas afirma que foram pagos US$ 3,4 bilhões (quase R$ 11 bilhões) via caixa 2. O ex-executivo é uma das peças-chave dentro dessa série de delações da Operação Lava Jato que revelou os políticos beneficiados para entender como a empresa funcionava e manipulava esse submundo da corrupção (leia aqui).

Embora ele faça parte do passado, assim como Marcelo e os demais 75 executivos, a Odebrecht sofre as consequências dessas atitudes que mancharam sua reputação e quebraram o elo de confiança empresarial. No dia anterior à revelação da lista de Fachin, a companhia reenviou à imprensa sua mensagem de compromisso com uma nova governança corporativa e transparência. A carta pública chamada de Compromisso com o Brasil foi publicada em março de 2016. “Estava escrito nesse comunicado, e a Odebrecht reafirma agora: ‘Esperamos que os esclarecimentos da colaboração contribuam significativamente com a Justiça brasileira e com a construção de um Brasil melhor’”, diz esse novo documento. “É o nosso compromisso com o futuro. É o caminho que escolhemos para voltar a merecer a confiança da sociedade.”

Para onde vai: a Andrade Gutierrez viu seu caixa cair para menos da metade após ser envolvida na operação Lava Jato. Agora, tenta vender seus ativos
Para onde vai: a Andrade Gutierrez viu seu caixa cair para menos da metade após ser envolvida na operação Lava Jato. Agora, tenta vender seus ativos (Crédito:Divulgação)

Maior grupo de infraestrutura do Brasil, a Odebrecht enfrenta dificuldades que, até pouco tempo, pareciam inimagináveis. A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou as notas de crédito da Odebrecht Engenharia e Construção, em escala global, de Caa1 para Caa2. Esse é o mais baixo nível de classificação, considerado de alto risco de inadimplência e de baixo interesse para investimento. A perspectiva também foi alterada de positiva para negativa em razão da “erosão da carteira de projetos da companhia e queima de caixa maior que o esperado em um momento de reduzida atividade de construção que leva a uma fraca conversão de caixa”.

Uma das demonstrações dessa mudança é que a empresa (uma das principais vencedoras nos leilões de concessão do governo) não ganhou nenhum dos quatro aeroportos entregues à iniciativa privada neste ano. Como consequência dos novos tempos, seu quadro de funcionários foi reduzido pela metade em dois anos (quadro Enxuta). “Nesse processo que envolve a Odebrecht e empresas do primeiro escalão das empreiteiras, muitas sumirão”, diz Herbert Steinberg, sócio da Mesa Corporate Governance. “Não é pessimismo, mas é muito difícil elas se recuperarem. Uma saída é dividir em partes, mudar de nome ou vender o controle. Mesmo assim, é pouco provável.”

Um dos principais gargalos desse processo é o caixa. A Andrade Gutierrez, outra gigante do setor, projeta um quarto ano de redução de receitas, em 2017. Elas caíram de cerca de R$ 10 bilhões em 2014, quando a empresa passou a ser investigada pela Lava Jato, para R$ 4,3 bilhões no ano passado. A venda de ativos é uma alternativa. Nesse momento, a Andrade tenta convencer seus sócios na Usina de Santo Antônio a aceitar a proposta do grupo chinês SPIC pela hidrelétrica. A oferta de R$ 8 bilhões não agradou a todos, como a Cemig. A Odebrecht, que também é sócia, mantém as conversas com os chineses.

Um outro impasse societário poderá ser resolvido pela Odebrecht, após a divulgação das delações de seus executivos: qual será o destino da Braskem? A empresa, que viu seu resultado de 2016 ser afetado com o pagamento da multa pelo envolvimento em corrupção (quadro No vermelho), tem seu capital total dividido entre Odebrecht, com 38,3%, e Petrobras, que detém 36,1%, e já anunciou que a companhia faz parte do seu plano de desinvestimentos. Como as duas empresas estão em dificuldades financeiras, a expectativa é que a Braskem se transforme numa empresa de capital pulverizado na bolsa de valores, como a Lojas Renner.

A petroquímica é um valioso ativo, com valor de mercado de R$ 23,3 bilhões, que se transformou numa das mais importantes empresas globais do setor, com centros de tecnologia e inovação no Brasil, Estados Unidos e México. “Nos próximos dois anos não haverá pressão grande sob os preços da matérias-primas nos resultados da Braskem”, diz João Luiz Zuñeda, diretor da MaxiQuim. “Mesmo com os caminhos tortuosos e errados que a empresa se envolveu, ela vale muito mais para a Petrobras e para a Odebrecht hoje do que há 20 anos.” Procuradas pela DINHEIRO, as empresas não comentaram.

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Após o fechamento da edição impressa, a Braskem encaminhou seu posicionamento à DINHEIRO. A empresa afirma que segue “focada em sua estratégia continua de melhorias na produtividade e competitividade, diversificação de matéria-prima, expansão geográfica e o fortalecimento da estrutura de Governança”.

O que a empresa espera a partir do fim da validação das delações?
Para 2017, a Braskem planeja investir em projetos no Brasil de manutenção, produtividade, segurança, saúde e meio ambiente, e eficiência operacional, além do programa de investimento para o uso de etano como matéria-prima no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. Outro foco da Braskem consiste em manter a operação do Complexo Petroquímico do México em plena capacidade, de forma estável, segura e eficiente, ampliando nossas vendas no mercado mexicano e otimizando as exportações em sinergia com as operações da Braskem em outras regiões.

Quais são as ações que a companhia tem feito para aumentar a transparência?
As principais ações que estão sendo feitas pela Braskem no processo de melhoria do programa de Conformidade são: garantia da autonomia e independência da estrutura de conformidade, avaliação e adequação dos controles internos, análise de riscos de terceiros, aprimoramento do canal Linha de Ética, melhoria contínua da própria política de Conformidade para que a empresa esteja sempre nos melhores padrões de mercado, desenvolvimento de programas de treinamento, tanto para o Conselho de Administração como para os líderes mais sêniores e também para todos os integrantes da Braskem.

Quais foram as consequências para os negócios?
A Braskem chegou ao fim deste longo e detalhado processo de negociação com as autoridades. Superada essa fase, a companhia irá agora concentrar seu foco no futuro. A Braskem tem implementado práticas, políticas e processos mais robustos em toda a companhia, a fim de aperfeiçoar o seu sistema de Governança e Conformidade, reforçando seu compromisso com a atuação Ética, Íntegra e Transparente.

Há alguma definição sobre mudança de controle da companhia?
Este é um tema sobre o qual os controladores é que podem se pronunciar.