Economia

O emprego dá as caras

Primeiro resultado positivo no emprego, após 22 meses de destruição de vagas, consolida processo de retomada e ajuda a aprofundar melhora da confiança

Crédito: Keiny Andrade /Folhapress

Esperança: a estabilidade da economia começa a gerar abertura de vagas no País, após dois anos seguidos de fechamento (Crédito: Keiny Andrade /Folhapress)

Num processo de retomada da economia, é comum ver os números oscilando entre a tendência negativa que, aos poucos, vai ficando no retrovisor e o viés positivo que vai se impondo paulatinamente. Nesse vaivém dos dados, o emprego costuma ser a última ponta a indicar a mudança de sinal. Isso explica por que o presidente Michel Temer decidiu quebrar o protocolo na quinta-feira 16 e fazer, ele próprio, o anúncio do resultado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), mostrando o primeiro saldo positivo em 22 meses, com 35,6 mil vagas novas. O anúncio costuma ser feito por meio de um documento burocrático, mas diante da surpresa positiva, Temer não hesitou aproveitar a deixa para anunciar pessoalmente os dados positivos do mercado de trabalho.

A tentativa de capitalizar números favoráveis na economia se contrapõe à pauta negativa que vem do Judiciário, com os novos indiciamentos da Lava Jato e o avanço do julgamento da chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Vocês sabem que a economia brasileira volta a crescer e os sinais desse fato são cada dia mais claros”, afirmou Temer na quinta-feira 16. “Nós temos muitos milhões de brasileiros que dependem de empregos, mas é preciso começar.” Ainda é cedo para cravar até que ponto um dado positivo no emprego pode ser interpretado como o retorno do mercado de trabalho, mas a surpresa positiva se soma a outros sinais animadores. No mesmo dia, a agência de classificação de risco melhorou a perspectiva da nota de risco da nota do Brasil, citando sinais de recuperação e um cenário fiscal mais claro.

Colhendo renda: agronegócio é um dos setores que mais deve gerar postos de trabalho em 2017, graças à perspectiva de safra recorde
Colhendo renda: agronegócio é um dos setores que mais deve gerar postos de trabalho em 2017, graças à perspectiva de safra recorde (Crédito:Jose Angelo Santill/AE)

Dados positivos de inflação nas últimas semanas também reposicionaram a leitura sobre os juros, abrindo espaço para uma queda mais acelerada e intensa da taxa básica, o que deve puxar um novo ritmo à atividade econômica. Com projeção de crescimento entre 0,5% a 1% para 2017, Gesner Oliveira, sócio-executivo da consultoria GO Associados, esperava a retomada do emprego somente a partir do segundo semestre. “Fiquei feliz com o nosso equívoco”, diz Oliveira. “É o começo para a retomada de investimento por parte dos empresários.” O resultado de fevereiro foi puxado pelo setor de serviços, que apresentou um saldo positivo de 50,6 mil vagas, seguido pela administração pública (8,3 mil) e a agropecuária (6,2 mil). A indústria, um dos setores que mais sofreu com a recessão, gerou 4 mil vagas.

Cleber Morais, presidente da Schneider Electric: “Tudo indica que esses sinais positivos vão se consolidar, de fato, no segundo semestre”
Cleber Morais, presidente da Schneider Electric: “Tudo indica que esses sinais positivos vão se consolidar, de fato, no segundo semestre” (Crédito:Pedro Dias / AG. ISTOE)

Segundo Cleber Morais, presidente da Schneider Electric no Brasil, a sensação de melhora se expressa no aumento das consultas e cotações por parte dos clientes. “Tudo indica que esses sinais positivos vão se consolidar, de fato, a partir do segundo semestre.”, afirma Morais. Para se adiantar a esse cenário, a companhia pretende retomar as contratações a partir do próximo trimestre. Na Security, empresa brasileira de segurança, esse movimento de ampliação do quadro de funcionários já foi iniciado. “Continuamos o plano de expansão para fortalecer as unidades fora de São Paulo”, afirma Erasmo Prioste, diretor-geral da companhia. O grupo tem hoje mais de 7.000 funcionários e espera faturar cerca de R$ 400 milhões neste ano. “Ainda não fechamos o balanço, mas já estamos contratando.”

Dados do Indicador Antecedente de Emprego (IEAmp), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/IBRE), indicam sinalizam a tendência de melhora. Em fevereiro, o índice apresentou aumento de 0,3 ponto, para 95,9 pontos, e chegou ao maior nível desde maio de 2010, reforçando uma tendência de alta vista em janeiro. Para Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista da instituição e responsável pelo estudo, eles mostram uma retomada lenta do mercado de trabalho, mas com os empresários mais confiantes com o futuro após sinais de estabilização das condições atuais. “A expectativa é de uma recuperação suave do mercado de trabalho, com uma aceleração no segundo semestre.”

Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria, atribui as boas notícias ao esforço de consolidação fiscal e ao avanço da pauta de reformas estruturais. “As notícias compõem o quadro esperado pelo mercado de que a situação do Brasil apresentará uma melhora gradual ao longo do ano” Entre os setores que devem se destacar em 2017, na opinião de Lucas Nogueira, diretor associado da empresa de recrutamento Robert Half, está o agronegócio, graças à safra recorde de grãos. Ele destaca ainda que as multinacionais do setor de serviços devem voltar a contratar, retomando projetos que foram paralisados nos últimos dois anos. “A volta dos investimentos virão por conta da estabilidade econômica”, diz.

Faturando: ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira e o presidente Temer anunciam a boa notícia
Faturando: ministro do Trabalho Ronaldo Nogueira e o presidente Temer anunciam a boa notícia (Crédito:Aílton de Freitas/Agência O Globo)

Apesar do bom resultado de fevereiro, ainda existe um longo caminho para ser percorrido para que o País possa superar o que perdeu nos últimos dois anos. A taxa de desemprego continua no maior patamar da história, tendo fechado o trimestre encerrado em janeiro em 12,6%, com um total de 12,9 milhões de brasileiros desempregados. Para Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), os dados do Caged são motivos de comemoração, mas é preciso ter em mente que existe a possibilidade de, nos próximos meses, virem leituras um pouco piores.

“Sabemos que o emprego é o último item influenciado no começo e no final de uma crise”, diz. Para Carlos Kawall, economista-chefe do banco Safra e secretário do Tesouro, em 2006, o Brasil caminha para a retomada do crescimento, mas para que ele volte com grande prestígio ao radar de investidores globais, é preciso esperar os próximos passos das reformas propostas pelo governo federal, especialmente a da Previdência e a Trabalhista. “Não podemos nos prender apenas a um resultado”, diz. “A expectativa é que o pior momento já tenha passado, mas ainda dependemos das respostas das reformas e de um resultado positivo contínuo.”

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