Finanças

O dia que abalou a Bolsa

Mercado refaz as contas e causa a interrupção nos negócios, mas mantém a convicção de que as reformas vão continuar

Crédito: Nelson Almeida / AFP Photo

Painel eletrônico da B3: investidores tiveram de zerar posições, tingindo os terminais de vermelho, o que sinaliza venda de ações com prejuízo (Crédito: Nelson Almeida / AFP Photo)

O pregão da B3 fechou otimista na quarta-feira 17. Logo após o encerramento dos negócios, o presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, entregou um presente ao mercado. Em um evento do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Brasília, Goldfajn confirmou as expectativas de corte mais rápido dos juros neste mês. Com isso, ele reforçou as apostas na alta das ações e na queda do câmbio, que vinham ganhando ímpeto em abril e em maio. Porém, a alegria durou pouco.

Duas horas depois das declarações do BC, a notícia da gravação de conversas potencialmente comprometedoras entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, CEO do grupo J&F, provocou um pânico como há muito não se via.
A repercussão começou na própria noite da quarta-feira. A bolsa de Nova York ainda funcionava, e as cotas do ETF iShares MSCI Brazil, fundo composto pelas principais ações do Ibovespa, negociado em Wall Street, caíram 15%, anunciando que o dia seguinte seria sangrento na B3. Dito e feito.

João Rabello, presidente do Banco Triângulo: “Todos estavam montando posições no mercado pensando em uma queda acelerada dos juros”
João Rabello, presidente do Banco Triângulo: “Todos estavam montando posições no mercado pensando em uma queda acelerada dos juros” (Crédito:Divulgação)

Durante quase toda a quinta-feira, os terminais foram tingidos com o vermelho dos prejuízos. Nos primeiros minutos de pregão, a queda ultrapassou os 8%. No pior momento, o Índice Bovespa despencou a um mínimo de 60.350 pontos, queda de 11% ante a véspera, e praticamente zerou a alta acumulada no ano. A queda foi tão brusca que, após 21 minutos de operação, às 10h21, com a baixa ultrapassando os 10%, a bolsa acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe automaticamente os negócios quando a queda ou a alta superam 10%, de modo a impedir crises sistêmicas no mercado.

As negociações pararam por meia hora. Isso não ocorria desde a crise financeira de 2008. No retorno das operações, pouco antes das 11h, o humor não havia melhorado. Ações da Cemig caíram 40%. Petrobras recuou mais de 20%, e Vale caiu 17%. O câmbio também sofreu. Os contratos de dólar futuro rapidamente subiram 6%, alta máxima permitida para um só dia. No mercado à vista, a moeda americana chegou a alcançar R$ 4,43. Os juros não ficaram imunes à tensão, e o Tesouro teve de suspender as vendas de títulos.

As cotações se recuperaram parcialmente após o susto na abertura. O Ibovespa fechou a 61.597 pontos, queda de 9,77%, reduzindo a alta anual de 12,1% para 2,3%. O dólar à vista subiu 8,15%, para R$ 3,3890, anulando com folga a queda de 3,45% acumulada no ano. O estrago, porém, já estava feito. Só na quinta-feira, o valor de mercado das empresas listadas na B3 havia encolhido R$ 219 bilhões. No dia seguinte, parte desse pânico se dissipou. Ao meio-dia da sexta-feira 19, o Índice Bovespa indicava uma alta de 3%, 63.400 pontos, e o dólar à vista caía 3%, para R$ 3,2804.

Os American Depositary Receipts (ADR) da Petrobras, que haviam caído 5,1% na véspera, subiam 5,4% no fim da manhã. Os da Vale avançavam 6,8%, após terem caído 2% na quinta. A recuperação parcial das cotações na sexta-feira mostra que o mercado não comprou a ideia de uma interrupção nas reformas. Os especialistas avaliam que os solavancos que acionaram o circuit breaker indicam um ajuste, não uma reversão, das expectativas.

Alexandre Espírito Santo, economista da Órama  Investimentos: “Não se espera uma alta na inflação forte o bastante para interromper o ciclo de baixa dos juros”
Alexandre Espírito Santo, economista da Órama Investimentos: “Não se espera uma alta na inflação forte o bastante para interromper o ciclo de baixa dos juros” (Crédito:Divulgação)

“A maioria dos gestores de fundos havia comprado contratos futuros, montando apostas pesadas na queda dos juros e do câmbio, e teve de vendê-los por causa do susto”, diz Francisco Giffoni, sócio da administradora de recursos Forpus Capital. “O problema é que esses vendedores só encontraram compradores dispostos a pagar pouco, o que precipitou a queda.” Esse movimento foi generalizado. “Todos estavam montando posições no mercado pensando em uma queda acelerada dos juros, algo que as declarações do presidente do BC, de aceleração da queda das taxas de juros, apenas confirmaram”, diz João Rabello, presidente do Banco Triângulo, associado ao grupo mineiro Martins.

Para eles, a dinâmica positiva que vinha prevalecendo no mercado deve retornar, ainda que isso demore algumas semanas para ocorrer. “Os investidores não deixaram de esperar que o BC reduza os juros na reunião do Copom no fim de maio”, diz Alexandre Espírito Santo, economista da distribuidora de produtos financeiros Órama Investimentos. “Pode ser que a queda fique um pouco mais lenta, mas ela não deixará de vir.” Espírito Santo avalia que mesmo a alta momentânea do dólar terá pouco impacto na inflação.

Segundo ele, a economia ainda está operando em marcha lenta, com enorme capacidade ociosa e desemprego em alta. “Não há espaço para que uma eventual alta do câmbio seja repassada aos preços, então não se espera uma alta na inflação forte o bastante para interromper o ciclo de baixa dos juros.” Os gestores mais experientes avaliam que, mesmo incerta, a situação política não deve dar margem ao desespero.

Segundo Giffoni, da Forpus Capital, mesmo no caso de uma saída de Michel Temer, a expectativa é de manutenção da equipe econômica. “O mais provável seria a escolha de alguém que não está envolvido na Lava Jato para um mandato-tampão, sem mudanças drásticas na política econômica”, diz ele. O segundo cenário seria a permanência de Temer. “Indicaria que o presidente conseguiu apoio político, tanto para terminar o mandato quanto para aprovar as reformas.”