Negócios

20 anos de negócios

O Brasil corporativo mudou radicalmente. As empresas de vinte anos atrás eram familiares, fechadas e ligadas umbilicalmente ao Estado. Em vinte anos, a privatização, a abertura da economia ao capital estrangeiro e a maciça vinda da tecnologia tornaram irreconhecível a paisagem anterior. DINHEIRO acompanhou essas mudanças de perto

20 anos de negócios

A releitura da principal reportagem de negócios da primeira edição de DINHEIRO, que chegou às bancas no início de setembro de 1997, mostra claramente as transformações sofridas pelo Brasil corporativo ao longo das duas últimas décadas. Com chamada de capa, a reportagem traçou um perfil do empresário Ricardo Mansur. Conhecido por suas tacadas e por operar no limite (seria condenado judicialmente anos depois), Mansur falava de seus planos.

Ele pretendia adquirir o controle da loja de departamentos Mesbla e unificar suas operações com as da concorrente Mappin, que tinha comprado no ano anterior. Os números falam por si. Mansur planejava uma rede de 60 lojas. Para montá-la, investiria cerca de R$ 60 milhões, em valores de 2017. E faria algo inédito, uma rede de franquias para vender equipamentos de fax e telefones celulares para os poucos clientes dispostos a pagar até US$ 3 mil por um aparelho com linha.

Isso mostra como o País mudou ao longo dos mil sábados em que DINHEIRO chegou, religiosamente, às bancas. O Brasil retratado nas primeiras edições era um país de empresas menos plurais, menos transparentes e menos expostas à concorrência internacional. Os setores eram mais fragmentados e havia mais companhias familiares. Apesar de a privatização ter começado com força anos antes, a presença direta do Estado na economia ainda era portentosa. Isso pode ser demonstrado com uma simples comparação entre a carteira teórica do Índice Bovespa da primeira edição e a versão mais recente, que entrou em vigor na segunda-feira 2.

Em setembro de 1997, uma única empresa, a holding estatal Telebrás, representava 48% do índice. Em 2017, sua remanescente sequer aparecia no Ibovespa. As estatais eram 72% do índice e hoje são 18,4%. No setor privado, a indústria predominava. Nomes como Duratex, CSN ou Usiminas já marcavam presença nos pregões, e continuam a fazê-lo. No entanto, muitas desapareceram. Líderes em setores como siderurgia (Acesita, Belgo Mineira, Cosipa), autopeças (Cofap), bens de capital (Brasmotor) e eletrodomésticos (Ericsson, Sharp) fecharam as portas, ou foram absorvidas por concorrentes nacionais ou estrangeiros.

Não foi por acaso. A estabilização da economia iniciada com o Plano Real em 1994 manteve o real artificialmente valorizado em relação ao dólar. Isso teve um efeito devastador para as empresas, que tiveram de enfrentar concorrentes mais eficientes sem estar preparadas para isso. Para tornar o cenário ainda mais desafiador, a chegada maciça de investidores estrangeiros aos mercados tornou o Brasil mais suscetível às mudanças de humor internacionais.

DINHEIRO tinha poucas semanas quando o mundo foi vergado pela crise da Ásia, objeto de três capas ainda em 1997. Em outubro, a turbulência que varreu Coreia do Sul e Japão atingiu o Brasil em cheio. Entre as vítimas estava o Banco de Investimentos Garantia que, no ano seguinte, seria vendido para o Credit Suisse. Criação do então banqueiro Jorge Paulo Lemann, o Garantia havia revolucionado o cenário dos bancos de investimentos, apostando em meritocracia e agressividade, mas não resistira ao tsunami. Lemann, porém, se reinventaria como empresário em pouco tempo, com a criação da AmBev.

Além da consolidação interna, a economia recebeu uma injeção de capital estrangeiro. A década de 1990 se encerraria com a venda do Banespa para o espanhol Santander. Um lance de US$ 3,65 bilhões, representando um ágio de 281% sobre o preço mínimo, fez com que o mais importante dos bancos estaduais passasse às mãos de um estrangeiro. Liderado então pelo executivo colombiano Gabriel Jaramillo, o Santander se tornaria, no devido tempo, o maior banco privado não-brasileiro a operar no varejo.

Passada a primeira fase das grandes consolidações, os empresários seriam mais do que recompensados pela alta dos preços das commodities agrícolas e minerais no mercado externo. Combinada à pujança do agronegócio e do setor mineral, representada por nomes como a ex-estatal Vale e o grupo JBS, as exportações de comida e minérios trariam uma injeção de capital para a economia brasileira. O Brasil se tornou a Meca do consumo mundial e um jovem empreendedor, o empresário Eike Batista, se tornaria o 8º homem mais rico do mundo, com ambições de superar Bill Gates.

A grande aposta de Eike era o petróleo do pré-sal. Depois de décadas em busca da autossuficiência no petróleo, o Brasil se dava ao luxo de sonhar com a condição de exportador da commodity. O pré-sal não deu certo, Eike, porém, frustrou milhões de investidores e seu nome, antes sinônimo de sucesso, agora é associado a fraudes (leia nota ao “Eike batista, ascensão e queda” ao final da reportagem). Todos esses acontecimentos reduziram a visibilidade de uma mudança muito importante que vinha ocorrendo aos poucos nas empresas. A modernização das duas últimas décadas não se limitou à adoção de novas tecnologia e processos mais modernos de produção.

As empresas também passaram a prestar atenção a temas como transparência e governança. Prova disso é a reportagem de capa desta edição. Ao lado de assuntos como aplicativos e computação em nuvem, temas como capitalismo consciente, economia colaborativa e diversidade são comuns nas salas de reunião das maiores empresas brasileiras e nas capas da DINHEIRO. Prova que, no que depender dos empresários, o Brasil corporativo a ser retratado pelas próximas mil edições será tão movimentado, desafiador e pleno de oportunidades como o que passou.

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O nascimento da Ambev

Durante décadas, a marca da cerveja consumida pelos brasileiros foi objeto de discussões tão acaloradas quanto o futebol. As duas maiores cervejarias, a paulista Antarctica e a carioca Brahma, tinham seus aficionados e seus adversários. Porém, a flutuação do dólar, em janeiro de 1999, pegou a Antarctica desprevenida. Endividada, a companhia seria arrematada pela arquirrival em julho daquele ano, como mostraria a capa da edição 97. A entrevista coletiva que anunciou a criação da AmBev mostrava bem a diferença de estilos. Pela Antarctica, o sisudo executivo Vitório de Marchi e seu indefectível terno, mostrando uma empresa tradicional, cheia de níveis hierárquicos e marcada pelo conservadorismo nas decisões.

Pela Brahma, o desengravatado Marcel Telles, braço direito do ex-banqueiro Jorge Paulo Lemann e, como este, avesso a qualquer formalidade que reduzisse a agilidade dos negócios. A tacada mostraria a filosofia de Lemann, que sempre privilegiou a agresividade, a meritocracia e a tomada de riscos. O negócio colocaria em evidência o novo campo de batalha de Lemann. Ao investir no varejo – ele compraria mais tarde a Burger King e a Heinz – o ex-banqueiro se tornaria, no devido tempo, o mais rico dos brasileiros e o 19º homem mais rico do mundo, com um patrimônio de US$ 28,2 bilhões em 2016.

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Eike batista, ascensão e queda

O empresário Eike Batista tinha dois desafios: deixar de ser conhecido como o marido da modelo Luma de Oliveira, e se tornar o homem mais rico do mundo. Entre 2006 e 2010, Eike realizou cinco aberturas de capital na bolsa. Em 2008, ao comprar 21 campos de exploração de petróleo por R$ 1,5 bilhão, Eike fez sua maior aposta: o lançamento de ações da OGX, que levantou R$ 6,7 bilhões. Cada ação foi vendida por R$ 1.131, apesar de a empresa ainda ser pré-operacional – o primeiro barril só seria extraído em 2012.

A cotação recorde do petróleo, que chegou a US$ 147,50 por barril, e o plano de negócios ambicioso turbinaram os papéis. Em 2012 Eike era o oitavo homem mais rico do mundo, com fortuna de US$ 34,5 bilhões. Porém, os fracassos em extrair petróleo, suspeitas de fraude e má gestão fizeram o império ruir. O valor de suas ações caiu a centavos, a empresa entrou em recuperação judicial e Eike vendeu o controle a sócios estrangeiros. Mas alcançou uma de suas metas: separou-se de Luma em 2004.

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Fusão de rivais

Em uma reportagem publicada em 2003, Roberto Setubal, presidente do Itaú, e Pedro Moreira Salles, principal executivo do Unibanco, descartaram formalmente a hipótese de que seus bancos juntassem forças. “Os dois bancos são muito diferentes”, disse Setubal. “Difícil”, ecoou Moreira Salles. Porém, nada como um ano depois do outro, com uma crise de liquidez internacional afetando os bancos. Em novembro de 2008, depois de 15 meses de negociação, os concorrentes anunciaram a maior fusão da economia brasileira.

Incorporar bancos tão grandes e com culturas diferentes não foi uma tarefa fácil, mas, dois anos depois do anúncio, a transação havia criado um gigante. Em setembro de 2016, segundo o Banco Central, o Itaú Unibanco tinha R$ 1,32 trilhão em ativos, perdendo por pouco para o Banco do Brasil, e mais de 3.500 agências. Após assumir a liderança entre os bancos privados, o banco iniciou um processo de internacionalização pela América Latina, e já disputa o varejo no Chile, na Colômbia e no Peru.

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Confira o Especial da Edição nº 1000:

• Os homens da economia
• Como o dinheiro mudou de mãos
• O Brasil do futuro
• O futuro do mundo