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Hopi Hari em queda livre

Com mais de 1.200 dívidas em atraso e quatro credores pedindo a sua falência, o parque de diversões luta para sobreviver enquanto seus concorrentes crescem

Hopi Hari em queda livre

Problemas em loop: um pedido de falência foi extinguido com a cessão de uma  montanha-russa desmontada (foto: Bruno Miranda/Folhapress Digital)

A situação da Hopi Hari, um dos maiores parques de diversões do País, nos últimos anos é mais de descidas do que subidas. Para cada problema solucionado, surgem outros tantos pela frente. Em janeiro deste ano, o complexo de entretenimento localizado em Vinhedo, no interior de São Paulo, sofreu um pedido de falência feito pelo empresário Cesar Federmann, um dos credores e dono do terreno onde fica o empreendimento. O caso levou à apreensão de uma montanha-russa comprada pelo parque em 2011 e ainda não instalada.

Federmann, então, que tinha R$ 5,9 milhões para receber, extinguiu o processo quando o Hopi Hari – administrado por Luciano Correa, ex-GP Investiments – aceitou ceder o equipamento. Depois da confusão, o momento poderia ser de mais alegria e de menos sustos. Mas, a companhia enfrentou outros quatro pedidos de falência, de empresas de alimentação, de segurança e de manutenção. E outros credores ameaçam entrar com pedidos similares. “Desconhecemos os referidos processos. Não recebemos nenhuma citação”, informou a empresa por comunicado.

Apesar de negar, nos bastidores é sabido que o Hopi Hari está negociando esses novos processos com cada um dos credores. A escalada de problemas pode ser percebida na disparada de protestos e pendências registradas contra a empresa no cadastro do Serasa Experian. Há um ano, eram 482. Desde então, esse número mais que dobrou. Em julho, atingiu 1.232 registros de não pagamento. As dívidas não se resumem aos credores privados. O Hopi Hari possui pendente também empréstimos de R$ 196 milhões com o BNDES, com vencimento em 2029.

Um dos planos de sobrevivência da empresa inclui a renegociação dessa dívida e encerrar a disputa judicial que tem com o banco estatal de fomento. A empresa alega que, num esforço para sanar parte da dívida, já amortizou mais de R$ 15 milhões do valor. E, em junho, depositou R$ 1 milhão ao BNDES, se comprometendo a pagar R$ 310 mil mensais em seis parcelas até o fim do ano. Mas o acordo pode ser interrompido. Uma denúncia anônima foi enviada à nova presidente do banco, Maria Silvia Bastos Marques.

Pelas regras do BNDES, não pode haver pagamentos atrasados das obrigações tributária, trabalhista e previdenciária, para uma empresa receber crédito. E há relatos de atrasos de pagamentos a funcionários desde o fim de 2015 e de depósitos de INSS, há mais de um ano. Para piorar a situação, o parque deixou de honrar a última parcela vencida do Refis, o Programa de Recuperação Fiscal. “É muito estranho que o Hopi Hari priorize pagar o BNDES, sem cumprir nem os pagamentos de salários”, diz um dos credores, que preferiu não se identificar.

A situação do parque nunca foi boa. Inaugurado em 1999, com investimento de US$ 200 milhões da gestora de fundos GP e os fundos de pensão Previ, Funcef, Petros e Sistel, ele nunca saiu do vermelho. Acabou, então, repassado, 10 anos depois, para a consultoria Íntegra, formada por ex-gestores da GP. A situação se deteriorou muito depois de um acidente que vitimou uma jovem de 14 anos, em 2012, por falha do brinquedo La Tour Eiffel, um elevador que despenca em velocidade. 

Desde então, a administração de Correa não encontrou formas de reverter os prejuízos constantes. Na última demonstração financeira que apresentou, relativa ao fim de 2015, o Hopi Hari divulgou perda de R$ 60,3 milhões. Depois do resultado negativo no fim do ano, o corpo executivo foi trocado, com Correa assumindo as rédeas da gestão e alguns acordos foram firmados para revitalizar as instalações. Novos contratos de patrocínio de pintura e iluminação foram fechados com a Sherwin Williams e a FLC, respectivamente.

Segundo o parque, o volume de patrocínios fechados neste ano já supera os de 2014 e 2015 somados. Atualmente, o conselho de administração da empresa, é formado por Correa, por seu pai, o publicitário Flavio Antonio Correa, e Miguel Alberto Ignatios, ex-CEO da japonesa NEC. Apesar dos atrasos de divulgação de informações e das pendências com os credores, o conselho aprovou uma remuneração fixa para os administradores da companhia de R$ 3 milhões, para este ano fiscal. Significa um acréscimo de 30% em relação aos R$ 2,31 milhões, de 2015.

A empresa alega que, no ano passado, não houve distribuição de dividendos aos acionistas. Tudo isso indica que os problemas do Hopi Hari têm mais relação com a gestão do que com as condições de mercado. As dificuldades até poderiam estar inseridas num contexto de crise de parques de diversões no Brasil. Mas a situação tem melhorado nos últimos tempos. O Beto Carrero World, maior estabelecimento da categoria do Brasil, localizado em Santa Catarina, deve passar dos 2,2 milhões de visitantes ao ano, uma alta de 10% sobre o resultado do ano passado, atraindo turistas brasileiros e do Mercosul.

Já o Beach Park, de Fortaleza tem a expectativa de receber 155 mil pessoas na alta estação de férias, em julho, o que representa um aumento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado. “Por conta da desvalorização do câmbio, a família que faria uma viagem para o exterior resolveu ficar por aqui”, diz Marcelo Beraldo diretor da Adibra, a associação de parques de diversão. A expectativa do setor é de um aumento de 5% no número de visitantes aos parques brasileiros, neste ano. O Hopi Hari está ficando fora da diversão.