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Gosto amargo

A Nestlé estaria propondo ao Cade se desfazer do bombom Serenata de Amor para concluir a fusão com a Garoto, um imbróglio que se arrasta há 14 anos. A possibilidade, no entanto, gera revolta no Espírito Santo

Gosto amargo

União sem serenata: a possibilidade da Nestlé, comandada por Juan Carlos Marroquín, vender a Serenata de Amor preocupa os funcionários da fábrica capixaba da Garoto (foto: Felipe Gabriel)

Na terça-feira 12, o deputado capixaba Evair Viera de Melo (PV), em discurso no plenário da Câmara, repudiou uma possível venda da marca Serenata de Amor pela Nestlé. O negócio, segundo pessoas próximas à administração da companhia, seria uma forma de concluir a fusão com a fabricante capixaba de chocolates Garoto, um imbróglio que se arrasta há 14 anos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O órgão antitruste vetou a união por considerar que, juntas, elas teriam, na época, 54% do mercado nacional de chocolates – uma concentração que poderia prejudicar os consumidores e concorrentes.

A multinacional suíça, que pagou US$ 250 milhões pela concorrente, agora oferece ao órgão a possibilidade de se desfazer da Serenata. O Cade, porém, ainda não tomou uma decisão. Melo classifica a possível transação como um “desserviço ao Estado”. A fábrica da Garoto, localizada em Vila Velha, é uma importante força econômica na região, empregando três mil pessoas. A Nestlé, comandada no Brasil pelo guatemalteco Juan Carlos Marroquín, confirma que fez uma oferta ao Cade.

Porém, não especifica de quais marcas abriria mão. Em nota, a empresa suíça afirmou que “considerando que a proposta encontra-se sob avaliação, está impossibilitada de fazer comentários adicionais.” A verdade é que a Nestlé deixou de ganhar muito dinheiro com a demora. Estimava-se que a compra geraria uma redução de 10% nos custos das empresas com a captura de sinergias. Só em 2013, último dado público da Garoto, a economia seria de cerca de R$ 100 milhões.

A possível venda das marcas, no entanto, alterou o humor dos funcionários de Vila Velha. Desde a segunda-feira 11, há uma preocupação generalizada dos empregados com o futuro da unidade. De acordo com Linda Morais, presidente do Sindialimentação-ES, que representa os trabalhadores do setor, somente a venda da marca Serenata de Amor colocaria em risco o emprego de até 30% dos operários. “O Serenata de Amor é a nossa grande estrela”, diz Linda, funcionária da empresa há 25 anos.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo, Marcos Guerra, a decisão teria um alto impacto na indústria de alimentação capixaba. “A fábrica da Garoto representa 30% desse mercado no Estado”, diz Guerra. “Quando foi anunciada a fusão, nos disseram que não estávamos perdendo a Garoto, mas ganhando a Nestlé. Não é o que essa decisão está mostrando.” Para completar, há o receio do negócio impactar, inclusive, o turismo capixaba. Por ano, a fábrica da Garoto recebe 400 mil visitantes. “A Garoto é um símbolo do nosso Estado e precisamos unir os capixabas para mantê-la.”

Para a Nestlé, apesar de resolver a questão da fusão, abrir mão da Serenata de Amor pode comprometer sua posição no mercado de chocolates, que movimentou R$ 12,3 bilhões no ano passado. Atualmente, segundo a consultoria Euromonitor, a companhia suíça é líder no segmento, com 40,7% de participação. Logo atrás, vem a Mondelez, com 32,6%, e, mais distantes, Ferrero e Hershey, com 3,9% e 3%, respectivamente. Metade das vendas da Nestlé está relacionada aos chocolates da Garoto, como o Batom, o Talento e o próprio Serenata.