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O tratamento da Bristol-Myers

O laboratório americano parecia  uma big pharma fadada a desaparecer, mas decidiu diminuir de tamanho. Agora, possui remédios de grande sucesso contra o câncer, o nicho mais desejado pelas  farmacêuticas

O tratamento da Bristol-Myers

Crupi, presidente: colocar todos os ovos em uma cesta só trouxe bons resultados para a empresa (foto: Carlos Eduardo Valim)

Na fase de testes clínicos, a etapa em que as drogas são utilizadas pela primeira vez em humanos, existem duas condições que obrigam as companhias farmacêuticas a fazerem a interrupção do processo devido a motivos éticos. A primeira delas é o remédio mostrar rapidamente um índice muito inferior de melhora dos indivíduos em comparação com o tratamento mais tradicional. Nesse caso, torna-se antiético continuar dando a essas pessoas um remédio ineficaz.

A segunda alternativa acontece quando os resultados do novo medicamento se provam tão superiores ao tratamento usualmente receitado que os pesquisadores precisam imediatamente ministrar a droga a quem faz parte do grupo de controle que não está o tomando. O segundo caso é o menos comum, já que apenas uma em 10 mil moléculas investigadas pela indústria é aprovado para comercialização, e poucas com tão contundência. Mas o Opdivo, um imuno-oncológico, que utiliza o próprio sistema imunológico da paciente para combater o câncer, criado pela Bristol-Myers Squibb, conseguiu um feito até então desconhecido no setor.

Ele causou a interrupção de quatro testes clínicos, para formas diferentes de câncer, de tão positivos que foram os seus resultados todas as vezes. Foi uma vitória e tanto para a empresa americana. Depois de ser aprovado em 40 países, para o tratamento de câncer de pulmão e melanoma, o Opdivo recebeu o sinal verde, na segunda-feira 4, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado no Brasil. Há ainda análises bem encaminhadas para ele ser estendido ao tratamento de câncer renal, na cabeça e pescoço. E, por não ser um quimioterápico, tem muito menos efeitos colaterais que os tratamentos comuns.

Tanto sucesso nos laboratórios já causou impacto nos negócios. O Opdivo rendeu à Bristol-Myers US$ 942 milhões, em 2015. O seu maior rival, o Keytruda, da Merck, vendeu US$ 566 milhões. A revolução que ele promove para o tratamento de câncer reflete o momento pelo qual o laboratório passa. “Se me dissessem, dez anos atrás, que iria trabalhar na Bristol-Myers, eu não acreditaria, porque parecia que ela seria comprada e iria desaparecer”, diz Gaetano Crupi, que, após mais de três décadas atuando no setor, assumiu a presidência da companhia no Brasil em 2012.

Desde que chegou às operações locais, a receita dobrou, e há a expectativa de crescer até 30% neste ano. Além do Opdivo, a empresa criou recentemente outro grande sucesso do mercado anticâncer, o Yervoy, o seu primeiro imuno-oncológico, além do Daklinza, voltado para a hepatite C e que é oferecido pelo Sistema Único de Saúde. É um cenário muito distante do que parecia o futuro da Bristol-Myers em 2007, quando o CEO na época, James Cornelius, resolveu mudar tudo na companhia.

Ao perceber que a empresa era a Big Pharma – termo usado para designar as gigantes do setor – de menor rentabilidade, ele decidiu se desfazer de negócios, e se focar em áreas-chave, como a virologia, a imunologia e a oncologia. Com isso, a companhia antecipou um movimento que diversas outras grandes companhias do setor decidiram realizar apenas depois da virada para a década de 2010, quando chegou a chamada patent cliff, ladeira das patentes. Em um período de apenas três anos, praticamente todos os remédios considerados os maiores blockbusters do setor perderam as suas patentes, o que acontece depois de uma década de comercialização exclusiva.

Com isso, eles puderam ser produzidos por empresa de genéricos, e os seus preços caíram drasticamente. No caso da Bristol-Myers, o impacto foi a perda de patentes que representavam até metade de suas vendas, incluindo o seu maior sucesso, o anticoagulante Plavix. Os boatos diziam que ela acabaria vendida para a francesa Sanofi-Aventis. Com o patent cliff chegando, a saída para a empresas como Pfizer, Novartis, Abbott, Eli Lilly e Merck foi deixar de fazer pesquisas para tudo quanto é especialidade, para se focar em algumas doenças mais complexas, de difícil cura e que permitem a produção de remédios de maior preço, apesar de utilizados por menos pessoas.

Nesse novo cenário, uma das áreas de maior interesse para o mercado passou a ser a oncologia. Afinal, com o envelhecimento da população mundial e o melhor tratamento para diversos problemas cardíacos e de colesterol, a incidência de câncer em países mais desenvolvidos aumentou. Ao mesmo tempo, os métodos de diagnóstico melhoraram. No Brasil, estima-se que serão descobertos 450 mil novos casos, apenas neste ano. Cabia à indústria criar medicamentos melhores e mais acessíveis. “As doenças ligadas à velhice vão sustentar o setor”, diz Lourival Stange, sócio da consultoria Solution.

Agora, a Bristol-Myers colhe os frutos da aposta no câncer. As ações da companhia dobraram de valor, em comparação com 2006, e hoje ela vale US$ 100 bilhões. Ao mesmo tempo, a empresa diminuía de tamanho e cortava a sua presença em países emergentes, incluindo o Brasil. A empresa – que separou a sua divisão de nutrição, a Mead Johnson (responsável pela marca Sustagen), em outra empresa – chegou a um faturamento global de US$ 21 bilhões.

Em 2015, a receita caiu para US$ 16,6 bilhões. No Brasil, ela repassou para a britânica Reckitt Benckiser, em 2013, por US$ 482 milhões, suas marcas mais conhecidas: o antigripal Naldecon e o antigases Luftal. No mesmo ano, vendeu a divisão de diabetes para a AstraZeneca por US$ 4 bilhões. “O portfólio era enorme, com margens baixas e competíamos com os genéricos”, diz Crupi. “A empresa decidiu jogar todos os ovos numa cesta só e deu certo.”