Negócios

A corrida mais difícil de Emerson Fittipaldi

Em dificuldades financeiras, o bicampeão da Fórmula 1 precisa se reinventar para não ver seu patrimônio ser sugado pelas dívidas. O sucesso no mundo dos negócios, no entanto, está bem atrás da sua destreza nas pistas

A corrida mais difícil de Emerson Fittipaldi

Em nota, o ex-piloto afirmou que suas dívidas são inferiores a seu patrimônio e que As dificuldades são resultado da crise econômica e política do País (foto: PAULO GIANDALE.AE

Emerson Fittipaldi é uma lenda viva do automobilismo brasileiro e mundial. Bicampeão da Fórmula 1, principal categoria do esporte, o “Rato”, como é conhecido no País por seus amigos mais próximos, é um dos três maiores ídolos dos torcedores, ao lado de Nelson Piquet e Ayrton Senna. Nos Estados Unidos, ele desfruta de prestígio ainda maior.

“Emmo”, como é conhecido pelos mais fervorosos fãs do esporte a motor, conquistou os americanos com seu estilo técnico e agressivo, protagonizando disputas históricas, como a última volta das 500 Milhas de Indianápolis, a mais importante da categoria, em 1989. Na derradeira curva do circuito, o brasileiro acelerou para ultrapassar Al Unser Jr., outra lenda do esporte.

Foi uma manobra ousada, que acabou provocando um acidente, garantindo sua primeira vitória na prova. Na semana passada, um lado menos vitorioso de Emerson foi revelado. Uma reportagem da Rede Record mostrou dois dos seus históricos carros, incluindo o Penske com o qual venceu pela segunda vez as 500 milhas, em 1993, sendo apreendidos em sua casa no Morumbi, em São Paulo, por conta de dívidas de suas empresas. Segundo a reportagem, os débitos somam R$ 27 milhões.

Por e-mail, Emerson confirmou à DINHEIRO o valor da dívida. Ele, no entanto, ressaltou que tem garantias reais de 95% do dinheiro emprestado. Seu patrimônio total seria de “um múltiplo” desse montante. “Em princípio todos os bens estão disponíveis. Sujeito à venda dentro de um mercado difícil”, afirma o piloto. Os dois carros apreendidos, pelas suas estimativas, valem entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, cada um.

Eles pertencem, segundo Emerson, ao patrimônio do Museu Fittipaldi, que ele mantinha em sua casa. Para honrar as dívidas com os credores, estão sendo tomadas algumas medidas. Entre elas, a reestruturação dos negócios, com o fechamento de empreendimentos não rentáveis, e um esforço de redução de custos, que passa pela redução dos espaços de escritório, por exemplo. O foco, agora, estará totalmente voltado à venda da imagem de Emerson, seu ponto forte.

A triste cena de seus carros, patrimônios do automobilismo nacional, serem retirados de sua casa, que funcionava como museu, é apenas mais um capítulo de uma conturbada carreira empresarial. Emerson Fittipaldi não mostra, infelizmente, a mesma destreza das pistas no mundo dos negócios. Seus maiores investimentos atuais, por exemplo, estão em dois mercados em dificuldades: o de produção de laranjas e o sucroalcooleiro.

No primeiro, ele é dono da Fazenda Fittipaldi Cirtrus, uma das maiores do país, com mais de 500 mil pés de laranjas cultivados. No final do ano passado, a propriedade foi colocada à venda. Nos últimos três anos, a cotação do suco de laranja no mercado internacional acumula uma queda superior a 30%. Somado ao fato desse mercado ser altamente concentrado em duas empresas, Citrosuco e Cutrale, o cenário não deixou muitas alternavas a produtores independentes como Fittipaldi.

No setor sucroalcooleiro, seus problemas foram ainda maiores. Em 2007, ele anunciou um projeto para a construção de uma usina de processamento de cana-de-açúcar no município sul-mato-grossense de Maracaju. A escolha dos sócios não poderia ter sido pior: o Grupo Bertin, que hoje enfrenta problemas financeiros ainda maiores do que os de Emerson, com dívidas bilionárias, brigas com todos os sócios e processos na Receita Federal; o Banco BVA, que faliu em 2012; e o grupo de José Carlos Bumlai, preso na 21ª fase da operação Lava Jato.

Os planos eram de começar a operação em 2010. Em 2012, Emerson voltou a falar no assunto. Dessa vez, revelou que estava reestruturando o negócio e que já possuía três mil hectares de cana plantada. A nova previsão era dar início à produção no ano seguinte, o que não aconteceu. Na mesma época, o piloto anunciou planos de construir um condomínio de luxo na região de Campinas, interior de São Paulo, que contaria com um autódromo particular. Esse projeto também não saiu do papel.

É como garoto propaganda, na realidade, que Emerson Fittipaldi se sai melhor, em se tratando de negócios. Ele já foi o rosto por traz de marcas como a Agusta, de helicópteros, Kawasaki, de motos, e a de relógios Omega. Em 1994, Emerson se uniu ao empresário João Carlos Appolinário para trazer ao Brasil o Seven Day Diet, uma dieta criada pelo nutricionista americano Gary Smith, que foi um fenômeno de vendas. O piloto fez questão de ficar responsável apenas pela imagem do produto. Foi uma decisão acertada.

O negócio foi o embrião para a criação da Polishop, atualmente uma das grandes empresas de varejo eletrônico, comandada por Appolinário, com faturamento bilionário e mais de 220 lojas – a participação de Emerson se resumiu ao Seven Day Diet. Esse é um dos motivos que fez o piloto se ressentir da forma como seus percalços foram retratados na televisão. Não é de hoje, aliás, que ele reclama do fato de ser menos respeitado no Brasil do que nos Estados Unidos. É inegável, no entanto, que Emerson precisa rever seu estilo de fazer negócios.