Negócios

A reciclagem de Roger Ingold

No comando da Accenture há 12 anos, o executivo, que transformou a consultoria em uma das maiores empresas de serviços do Brasil, dá início ao processo da sua sucessão e se prepara para o maior desafio de sua carreira: se reinventar após os 50 anos

A reciclagem de Roger Ingold

Roger Ingold: “Não estou parando. Estou me preparando para dar voos ainda maiores” (foto: Luisa Santosa)

Há mais de três décadas, o executivo Roger Ingold, 57 anos, trabalha para a mesma empresa: a consultoria americana Accenture. Nos últimos 12, ele esteve no cargo mais alto da companhia no Brasil, o de presidente. A partir de janeiro, sua rotina mudará de forma abrupta. Ingold está deixando não só o posto de comandante da Accenture no País, como não fará mais parte do quadro de 11 mil funcionários da empresa. A decisão foi tomada há alguns meses, em comum acordo.

Sua sucessão está decidida – a empresa só vai revelar o nome do novo presidente no próximo ano – e o processo de transmissão das funções já começou. O futuro do executivo, no entanto, ainda está em aberto, e ele prefere assim. “Tomei cuidado para não aceitar as primeiras propostas que vieram”, afirma Ingold. “Mas não estou parando. Estou me preparando para dar voos ainda maiores.” A pista de pouso, ao menos, ele já escolheu. Trata-se da universidade americana de Stanford, na Califórnia, onde começará, na primeira semana do ano, um programa voltado para executivos que buscam se reinventar.

Ingold se mostra entusiasmado com a ideia de voltar à sala de aula e morar no exterior. “Minha carreira me levou a tomar decisões que me impediram de estudar um tempo fora, mas foi algo que sempre quis fazer”, afirma. Em Stanford, ele irá se unir a um grupo de executivos na mesma situação, todos acima dos 50 anos e buscando um novo rumo na vida. Profissionais do mundo inteiro e diversos setores que pretendem aproveitar, além das internacionalmente reconhecidas capacidades educacionais da instituição de ensino, a sua proximidade com o Vale do Silício, a meca da inovação e da tecnologia mundial.

Ingold já tem toda uma agenda de visitas que fará na região. Seus compromissos incluem, também, os principais eventos da turma das startups. Sua intenção, no entanto, não é investir em negócios de nicho. “A minha experiência na Accenture me ensinou a ver os negócios de forma completa”, diz o executivo. “Esse é um problema que vejo nas startups. A maioria apenas atende uma questão específica.” Dar esse salto rumo ao desconhecido, assume Ingold, assusta. Afinal, trata-se de um profissional que atingiu uma reputação invejável.

Em seu período à frente da Accenture, ele transformou uma consultoria de negócios em uma das maiores empresas de serviços e outsourcing do País, com uma receita estimada de US$ 1,5 bilhão. Mais do que isso, manteve-se como um dos homens mais ocupados do Brasil. “Pelo número de grandes empresas que atendemos, sinto como se tivesse trabalhado em uma infinidade de companhias, e não apenas em uma”, afirma Ingold. Mas ele terá um desafio adicional nessa sua caminhada: praticar a arte do desapego. Segundo o pesquisador e psicanalista Manfred Kets de Vries, professor de liderança na prestigiada escola de negócios francesa INSEAD, para muitos executivos, o reconhecimento que acompanha o posto mais alto em uma companhia acaba se tornando a dimensão mais importante de suas vidas.

Com a aposentadoria, essa base desaparece da noite para o dia. “Esse efeito é exacerbado, usualmente, pela percepção daquilo que foi perdido, ou sacrificado, no caminho até o topo, como uma vida pessoal satisfatória, o relacionamento com a família e tempo para desenvolver contatos e interesses fora da empresa”, afirma Kets de Vries. O próprio reconhecimento do envelhecimento, diz o psicanalista, visível aos olhos, acaba tornando o poder de comandar em um substituto para a jovialidade perdida, o que, em muitos casos, dificulta o desapego.

No próximo ano, quando estiver em seu apartamento em Palo Alto, cidade que escolheu para morar na Califórnia, junto com sua esposa, não haverá equipe para comandar, nem secretária ou escritório, e, provavelmente, o telefone não tocará mais como antes. “Imagino que haverá um momento em que vou me dar conta disso”, diz Ingold. “O que estou fazendo é manter minha cabeça ocupada.” Um dos atrativos do programa escolhido por ele em Stanford é a possibilidade de cursar qualquer disciplina da universidade, considerada uma das mais completas e diversas dos Estados Unidos.

Além das atividades específicas voltadas para o empreendedorismo, Ingold pretende participar de aulas como história da Segunda Guerra Mundial, ou da Roma Antiga, apenas para citar algumas das possibilidades. Ele também irá focar em aprimorar habilidades, especialmente na área de finanças e investimentos. A ideia é estar preparado para quando encontrar o seu verdadeiro propósito de vida. “A única coisa que eu sei é que não quero um emprego para comandar uma empresa redondinha, no qual eu só teria de sentar na cadeira e gerenciar”, diz Ingold.

“Estou em busca de desafios.” Isso pode estar tanto em uma startup do setor de biotecnologia, quanto em uma grande empresas de energia ou no governo. “Se me dessem as condições de fazer um trabalho que melhorasse a eficiência da administração pública, aceitaria”, diz. “Sou um grande admirador do trabalho de Jorge Gerdau nesse sentido.” Ter um profissional que, nos últimos 30 anos, passou todo o seu tempo pensando em como aumentar a eficiência das maiores empresas que atuam no País seria uma grande conquista para qualquer governo, independentemente de partido.