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Petrobras apresenta balanço do 3º trimestre na quinta-feira

A Petrobras apresenta na próxima quinta-feira, 12, o resultado financeiro do 3º trimestre de 2015 – um ano após adiar a divulgação e registrar em seu balanço financeiro as perdas com a crise institucional deflagrada com a Operação Lava Jato. Desde setembro de 2014, a perda de valor da companhia já chega a 65% e após um ano turbulento a companhia ainda não dá sinais de recuperação dos indicadores financeiros. As estimativas do mercado indicam um prejuízo no trimestre entre US$ 500 milhões e US$ 1,8 bilhão. Entre os analistas, as previsões ascendem um alerta para o risco de a companhia não pagar dividendos aos acionistas pelo segundo ano consecutivo.

O resultado do trimestre será afetado, sobretudo, pela escalada do dólar que registrou uma valorização média de 28% entre julho e setembro, o que afetará seu já alto endividamento. O balanço também será prejudicado, segundo relatório do HSBC, pela despesa não recorrente de R$ 2 bilhões referentes à quitação de dívidas tributárias. “Esperamos um prejuízo líquido de US$ 1,8 bilhão reduzindo significativamente a perspectiva de pagamento de dividendo relativo a 2015”, pontua o relatório.

“Existe uma forte probabilidade, crescente, de a Petrobras não pagar dividendos. Outras companhias que têm resultados proporcionalmente melhores estão reduzindo ou cancelando pagamentos. Isso indica que existe espaço para queda ainda maior das ações”, avalia Flávio Conde, da Consultoria What’sCall. Ao longo do terceiro trimestre, os papéis da companhia caíram cerca de 40%, segundo levantamento da Economática. “O mercado já repassou ao preço das ações boa parte dos resultados, principalmente o impacto do dólar sobre a dívida. Mas ainda pode cair mais”, completa Conde.

A companhia também não pagou dividendos em 2014 após reportar um prejuízo de R$ 21 bilhões. Os balanços do terceiro trimestre e anual da companhia foram adiados por seis meses após a PriceWaterhouseCoopers (PWC) se recusar a validar o documento. A auditoria questionou a permanência na empresa de executivos envolvidos na Operação Lava Jato. Também não houve consenso sobre o valor da baixa contábil – registrada em R$ 6 bilhões por perdas com a corrupção além de R$ 84 bilhões decorrentes de má gestão, erros de projeto e reavaliação de ativos.

Em abril deste ano, ao finalmente apresentar o documento, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, informou que a companhia não distribuiria dividendos como “medida de preservação de caixa”. Após um ano turbulento – com enxurrada de denúncias de corrupção, troca de diretoria, indefinição sobre o balanço anual, queda de cotações internacionais e dificuldades para cortar gastos e vender ativos – “não há nada que indique que a situação vá melhorar”, avalia o economista da UFRJ, Edmar de Almeida.

“Ao longo do ano, a companhia experimentou uma sequência de revisões para pior na sua estratégia de investimento e continua em um cenário de fluxo de caixa muito apertado. Destinar o dinheiro que pode ser usado para reduzir a dívida para pagar dividendos não faz muito sentido, a não ser que a empresa queira evitar desgastes com os investidores”, avalia o economista.

A dívida é a principal fragilidade da companhia e o indicador que mais a diferencia das demais petroleiras internacionais, também afetadas pela queda das cotações internacionais de óleo no período. A Shell, principal parceira da Petrobras no pré-sal, também registrou prejuízo no terceiro trimestre, de US$ 6,1 bilhões. Já a Total, teve queda de 23% no seu lucro, de US$ 2,8 bilhões, em comparação com 2014. Já a Chevron registrou recuo de 64% em seu resultado trimestral.

Com a alta do dólar no terceiro trimestre, as dívidas da Petrobras devem passar de R$ 323,9 bilhões para mais de R$ 417 bilhões, segundo estimativa do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). O banco Itaú calcula que a estatal terá uma receita operacional (Ebtida) sete vezes melhor que no terceiro trimestre de 2014, de R$ 18,8 bilhões, devido a alta da produção e queda da importação de diesel e gasolina. Ainda assim, o banco prevê prejuízo de US$ 502 milhões para a estatal no trimestre.

O relatório do banco indica também que a relação entre a dívida líquida e a geração de caixa (alavancagem), da companhia chegará a 5,3 vezes, ante uma meta de 3,33 vezes. “A Petrobras não conseguiu gerar caixa suficiente para reduzir divida, o que indica que a empresa em 2016 tem desafios muito grandes. Ela precisa um equilíbrio no fluxo de caixa para iniciar a redução de dívida, e para isso precisa cortar mais gastos e custos do que já fez nesse ano”, avalia Edmar de Almeida.

A companhia já anunciou cortes de US$ 87 bilhões até 2019. Após recorrer a novos financiamentos ao longo do ano, em valor superior a US$ 15 bilhões, a Petrobras prevê encerrar o ano com uma posição de caixa de US$ 20 bilhões, ante uma previsão da gestão anterior de US$ 8 bilhões. A dificuldade consensual entre os analistas é destravar o plano de desinvestimentos da companhia, que prevê a arrecadação de US$ 15 bilhões até o próximo ano com a venda de ativos.

“Bendine e (o diretor financeiro) Ivan Monteiro vêm fazem bom trabalho, atacando os pontos principais da empresa com uma nova postura. Só que falta algo mais”, avalia o consultor Flávio Conde. “Todo o plano de desinvestimentos não andou até agora, em função dos problemas da Petrobras e questões alheias a ela. O andamento da Lava Jato, com a descoberta de pessoas envolvidas na BR Distribuidora, afastou potenciais sócios estratégicos. Mas o que realmente inviabilizou a venda da subsidiária foi a situação de contas descontroladas do governo e a perda de grau de investimento. Quem quer comprar ações da BR nesse cenário?”, questiona.