Negócios

Mude de vida e ganhe dinheiro

As oportunidades aparecem também em tempos de crise. Mas largar tudo para empreender é difícil. DINHEIRO ouviu histórias de brasileiros que precisaram mudar de vida, e se deram bem. Saiba como jogar tudo para o alto, sem se perder, e fazer da adversidade uma chance de virada

Mude de vida e ganhe dinheiro

Dennis Zasnicoff, produtor musical - largou a carreira de executivo na Intel para abrir uma escola de produção musical: “Muita gente achou que era loucura (largar o emprego para se tornar produtor musical). Era mesmo. E deu certo” (foto: Gustavo Epifanio)

Momentos de crise econômica, como o atual, geram apreensão tanto para o empresariado, quanto para os assalariados. Nessas horas, é comum a paralisia. Afinal, a crise faz de si mesma o principal assunto, impedindo a realização de projetos que poderiam servir como uma saída. Há, no entanto, gente que enxergue na adversidade uma oportunidade. Não só por conta de espaços que surgem pela saída de cena daqueles que sucumbem à retração econômica. Mas a crise, interna ou externa, de ordem econômica ou pessoal, é um combustível que alimenta o sonho de jogar tudo para o alto e começar de novo.

Afinal, quem nunca pensou em mudar de vida? “Todo mundo precisa de um ‘plano B’”, afirma o empresário Ricardo Bellino, ex-sócio do magnata Donald Trump e da agência de modelos Elite. “Eu mesmo já fiz isso várias vezes.” A questão é que largar tudo para empreender pode parecer uma boa ideia, mas se for mal executada acaba transformando sonhos em pesadelos. DINHEIRO foi atrás de histórias de pessoas que deram uma virada nas suas vidas, e se deram bem. São casos de gente bem-sucedida que, por motivos de satisfação pessoal, mudanças de cenário ou, até mesmo, em função de tragédias familiares, teve a coragem de embarcar em uma jornada rumo ao desconhecido.

Entre essas pessoas, estão empresários de sucesso, como Abilio Diniz, que se viu obrigado a deixar a rede Pão de Açúcar, após fracassar na tentativa de impedir a transferência de seu controle para o grupo francês Casino, mas se reinventou no comando de uma antiga cliente, a BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo. Ou de Alberto Saraiva, dono da rede de fast food Habib’s, que havia acabado de se formar em medicina quando, em virtude do falecimento do pai, foi obrigado a assumir a padaria da família, dando início à construção da maior cadeia nacional de restaurantes.

Além de nomes estrelados no mundo dos negócios, é também o caso de inúmeros outros executivos e profissionais de diversas áreas, que não vacilaram em passar para o outro lado do balcão e, hoje, se sentem mais realizados pessoalmente e financeiramente. O brasileiro, de forma geral, tem espírito empreendedor. Os números comprovam. De cada dez pessoas entre 18 e 60 anos, três estão, de alguma forma, relacionadas a um negócio próprio, como “plano A”, ou “plano B”, segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), em parceria com o Sebrae.

O estudo, realizado em cerca de 100 países, mostra que o Brasil abriga a maior fatia de empreendedores no mundo em relação à sua população, 34,5%, no ano passado, acima da China (26,7%) e dos Estados Unidos (20%). Mais de 70% das pessoas que decidem começar seu próprio negócio o fazem tendo como motivação as oportunidades, e não a necessidade, afirma o IBQP. Ser empresário aparece como o terceiro maior desejo do brasileiro, atrás da compra da casa própria e de viajar, mas à frente de fazer carreira em uma empresa.

Um dos maiores obstáculos para o empreendedorismo, diz a pesquisa, é encontrar apoio para dar os primeiros passos. Mais de 85% dos pequenos empresários acaba não procurando o auxílio de órgãos oficiais, como o Sebrae e o Senac. “Muitas empresas fecham em poucos anos de vida por falta de conhecimento de mercado, concorrentes e consumidores”, diz Marcelo Moreira, coordenador de pesquisas do Sebrae-SP, que prevê a abertura de um milhão de micro e pequenas empresas no País, este ano. A falta de algum tipo de guia para o empreendedorismo é apontada pelo paulista Dennis Zasnicoff como a sua maior dificuldade no processo de deixar o meio corporativo para se arriscar no setor empresarial.

Em 2009, Zasnicoff abandonou uma bem-sucedida carreira de executivo em uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, a americana Intel, para se tornar produtor musical. “Muita gente achou que era loucura”, afirma o empresário. “Era mesmo. E deu certo.” Após estudar por dois anos, em paralelo com o emprego na Intel, ele montou a Academia do Professor Musical, uma escola de produção musical, em 2008. O negócio vingou e, atualmente, ele mantém o mesmo nível de remuneração dos tempos em que usava um crachá corporativo, com a vantagem de fazer o que gosta.

“Não ter um salário fixo é difícil, precisa se planejar”, diz Zasnicoff. “Em alguns meses, ganhei muito mais do que jamais ganharia na Intel, mas há períodos em que não entra nada.” Essas mazelas da vida de empresário dificultaram o processo. No início, conta o empreendedor, tentou tocar o negócio sozinho, devido a alguns percalços com fornecedores. “É impossível, você precisa de pessoas ao seu lado”, diz. Mais experiente, atualmente com 38 anos de idade, o engenheiro eletrônico formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo agora quer ajudar outras pessoas a encontrar sua verdadeira vocação.

Seu próximo projeto é uma oferecer uma série de cursos voltados para jovens que não se enquadram no ensino tradicional. O objetivo é desenvolver atividades e aulas que permitam a eles dar vazão a talentos não valorizados nas escolas, em especial os ligados às artes. “Eu nunca fui um mau aluno, mas era difícil me motivar”, diz Zasnicoff. “É uma escola para loucos, como eu.” A ideia surgiu a partir de uma conversa com Ricardo Bellino, durante um curso promovido pela Escola da Vida, iniciativa do ex-sócio de Trump em parceria com o empresário Janguiê Diniz, fundador da Ser Educacional, uma das maiores redes de universidades do País.

Durante uma semana, 15 profissionais se reuniram na ilha de Key Biscayne, em Miami, nos Estados Unidos, para uma série de palestras e atividades voltadas ao empreendedorismo. Em outubro, uma nova classe do curso, denominado Plano B, será formada na cidade de Ilhabela, no litoral Norte de São Paulo. O projeto de Bellino e Diniz foi parar, também, na Índia. Luiz Benaccio, um diretor da multinacional francesa Alston, baseado em Nova Deli, está levando a Escola da Vida para o país. Há mais de uma década trabalhando como executivo no exterior, Benaccio sentiu a necessidade de embarcar em um projeto pessoal.

“Eu sempre quis empreender no setor educacional”, afirma. A Índia, diz ele, oferece inúmeras oportunidades para empreendedores. A falta de acesso à educação e à informação é um grande obstáculo, no entanto. Seu plano é de tocar o projeto em paralelo com seu trabalho na Alstom. “Alcancei muitos objetivos como executivo, e quero continuar crescendo”, diz Benaccio. “Mas sempre ficou o desejo de ajudar os outros, de embarcar em um projeto maior, que possa fazer a diferença no mundo.”

OUTRO LADO Há quem faça o caminho oposto, abandonando carreiras forjadas pelo talento e se arriscando no mundo corporativo. O empresário Luiz Mattar, presidente da empresa de tecnologia Tivit, uma das principais fornecedoras de serviços de TI do Brasil, figurou no topo do ranking dos tenistas brasileiros, na década de 1990. “Durante meus últimos anos como tenista, comecei a pensar no que faria quando me aposentasse das quadras”, disse Mattar, à DINHEIRO. “Tentei buscar oportunidades empreendedoras a partir de toda bagagem que adquiri ao longo de 10 anos como jogador, período em que tive a oportunidade de conhecer mais de 50 países.”

Naquela época, a internet estava em plena expansão. No final de 1998, três anos após abandonar as quadras, Mattar e um grupo de amigos enveredaram no ramo dos serviços tecnológicos. Hoje, a Tivit, que é resultado da fusão de várias companhias, controlada pelo fundo britânico de private equity Apax Partners, atua em sete países da América Latina e deve faturar, neste ano, R$ 2,4 bilhões. “Antes de tudo, é preciso saber a hora de se reinventar e ter coragem, convicção e muita dedicação para mudar de rumo”, afirma o ex-tenista, que embora com participação acionária reduzida, continua no comando da empresa.

“Logo que comecei meu negócio próprio, eu tinha como lema pensar grande, começar pequeno e crescer rápido. Até hoje mantenho isso como premissa em qualquer nova iniciativa que temos na Tivit.” A coragem de mudar foi o que levou a modelo Karmel Bortoleti a abandonar a glamorosa vida das passarelas e sessões de fotos para abrir uma rede de salões de beleza, nos Estados Unidos. Sua principal motivação era estar mais perto da família – Karmel tem três filhos. “Eu tive de vencer, principalmente, meus próprios medos”, diz a ex-modelo.

“Questionei muito se realmente iria conseguir. Afinal, não sabia nada sobre como administrar uma empresa.” Sua rede, especializada em design de sobrancelhas, já possui sete unidades na Flórida. A meta é chegar a 30, nos próximos dois anos, e a 500 lojas, até 2022. Para Fabrício Morini, que hoje comanda a escola de aviação Morini Air, largar o sonho de infância foi mais difícil. Ex-goleiro com passagens por times de futebol como Grêmio, de Porto Alegre, e Zaragoza, da Espanha, Morini, sem conseguir um empresário, se viu obrigado a deixar o futebol. “Eu não larguei o futebol, ele que me largou”, afirma o ex-atleta.

Com a ajuda da família, ele se lançou na carreira de piloto. “Troquei uma paixão por outra”, diz. Sua escola segue os padrões da empresa aérea alemã Lufthansa, considerada um modelo para o setor. Além do Brasil, ele tem planos de atuar nos Estados Unidos, para aproveitar a demanda pela formação de pilotos vinda da China. O gigante asiático obriga seus profissionais da aviação a estudarem fora. Dos campos, ele guarda a lembrança de ter enfrentado o craque argentino Lionel Messi, nas categorias de base do Zaragoza, sem tomar gols. “Vencer-me é algo que o Messi, ainda, não conseguiu”, brinca Morini.

Saber separar sonhos e ilusões é um dos conselhos do empresário Abilio Diniz para os candidatos a empreendedores. “Ser objetivo é saber onde está e aonde se quer chegar focando em resultados”, afirma o empresário, em seu site, voltado para a gestão de carreiras e lideranças. Há três anos, o ex-dono do Pão de Açúcar, maior rede de varejo do Brasil, se viu obrigado a deixar a empresa da família, após perder a disputa pelo controle para o grupo francês Casino.

A chance de dar uma virada veio após o convite para se tornar sócio da BRF, feito por dois dos principais acionistas da empresa de alimentos, o fundo de investimentos Tarpon e a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil. Diniz promoveu uma revolução na BRF, modernizando o grupo. Ele convocou seu antigo parceiro, o consultor paulista Cláudio Galeazzi, conhecido como “mãos de tesoura”, para promover um choque de gestão na companhia. Dos 12 vice-presidentes, 10 saíram ou foram demitidos.

Em dois anos, a margem de lucro da BRF passou de 9% para 16% e o lucro líquido mais do que dobrou, atingindo R$ 2,1 bilhões. Nem sempre o empreendedorismo surge da oportunidade e nem todos têm, como Diniz, uma sólida fortuna para bancar novas empreitadas. Situações adversas, como a perda do emprego ou uma tragédia familiar, são pano de fundo para uma guinada de sucesso no mundo dos negócios. Alberto Saraiva, dono da rede de fast-food Habib’s, tinha como objetivo de vida seguir a carreira de médico.

O assassinato de seu pai acabou mudando seu destino. Ele se viu obrigado a assumir o negócio da família, uma pequena padaria na zona Leste da capital paulista. “Eu tive a sorte, e não o azar, de cair na pior padaria que poderia existir no mundo”, afirma Saraiva. “Como não tinha para quem vender, eu fazia o pãozinho quentinho e colocava o preço 30% mais barato do que a tabela.” Nascia ali um modelo de negócios que resultou na maior cadeia de alimentação do Brasil. O Habib’s possui hoje mais de 22 mil funcionários, 430 lojas e já serviu, desde a sua fundação em 1988, cerca de nove bilhões de esfirras, vendidas a menos de dois reais cada.

Saraiva conta que, logo depois da tragédia, precisou pedir um dinheiro emprestado para tocar o negócio. Ele recorreu a um tio, que sabia estar em boas condições financeiras. “Ele falou que me ajudaria, desde que não usasse o dinheiro na padaria”, diz o empresário. Contra todas as perspectivas, ele insistiu na ideia do pai. O empresário conseguiu se formar em medicina, mas levou oito anos para concluir o curso. A padaria, diz ele, foi vendida por mais do que o dobro do valor pago na compra. Antes de abrir o Habib’s, em 1988, Saraiva ainda teve outros restaurantes.

A ideia de investir em comida árabe surgiu, também, por acaso. Um dia, bateu em sua porta um senhor de 70 anos que procurava emprego como cozinheiro. Paulo Abud era especializado nesse tipo de culinária e ensinou a Saraiva a receita da famosa esfirra. O modelo de negócios escolhido foi o mesmo da padaria, preços baixos para atrair a clientela e lucrar com compras acessórias, como refrigerantes. “Quando meu pai morreu, eu me perguntava: ‘por que isso aconteceu comigo’?”, diz. “Foi a fé que me fez seguir adiante e tudo o que consegui depois veio do trabalho.

Tomamos as decisões com base nas variáveis que temos no momento. Errar, todo mundo erra. O importante é acertar mais do que errar.” A busca por uma maior compreensão das tragédias familiares e pessoais por que passou levou a consultora financeira Viviane Ferreira a uma nova carreira, de escritora. Viviane perdeu o irmão, de 10 anos, em um acidente de carro. A morte devastou a família, em especial seu pai, que morreria dois anos depois.

Ela ainda teve de superar dois cânceres de mama, o segundo há cerca de um ano. Durante o tratamento, começou a colocar no papel seus sentimentos, como uma forma de superar a dor e encontrar algum sentido para esses percalços. Os textos viraram um livro, que será lançado em outubro. “Eu só consegui passar por tudo isso por que tinha minha vida organizada”, diz Viviane. “Não dependia de ninguém financeiramente.” Essa experiência mudou sua trajetória profissional.

Especializada em gestão de fortunas, ela afirma que tem conseguido aconselhar seus clientes com mais eficiência. Viviane também fará da sua própria vida um “plano B”. Após o livro, ela pretende se lançar como palestrante e um site com informações que ajudem as pessoas a lidarem melhor com tragédias. “A chave para isso é autoconhecimento e planejamento”, diz. “Empreender tem a capacidade de transformar a vida, mesmo que seu esforço não gere um negócio. Traz mais conhecimento, muda sua visão de mundo e faz de você um profissional melhor.”

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Manual da reinvenção

Todo mundo precisa de um “plano B”. Saiba como elaborá-lo:

Saiba a hora de mudar: 

o ex-tenista Luiz Mattar aproveitou o boom da internet para deixar as quadras e empreender

Planeje-se financeiramente: 
a independência financeira permitiu à consultora Viviane Ferreira investir na carreira de escritora

Estude: 
antes de trocar a carreira de executivo pela de produtor musical, Dennis Zasnicoff estudou durante dois anos

Verifique a viabilidade do negócio: 
segundo o empreendedor Ricardo Bellino, boas ideias nem sempre são bons negócios

Procure ajuda: 
busque o auxílio de órgãos oficiais, como o Sebrae e o Senac,

Saiba delegar: 
empresários iniciantes costumam centralizar as ações e não confiar em funcionários. “Foi um erro que eu cometi”, diz Zasnicoff. “Tentei fazer tudo sozinho.”

Separe sonhos e ilusões:
“Ser objetivo é saber onde está e aonde se quer chegar focando em resultados”, afirma o empresário Abilio Diniz

Tenha fé: 
“Errar, todo mundo erra. O importante é acertar mais do que errar”, diz Alberto Saraiva, fundador do Habib’s