Negócios

Religião e lucros

Pesquisador americano mostra que a valorização da liberdade religiosa pode se tornar um trunfo competitivo para o Brasil

Religião e lucros

Passeata ecumênica: no Rio de Janeiro, integrantes de diversas religiões saem às ruas em defesa da liberdade de crença (foto: Fernando Frazão/ABr)

Diz a lenda que, em sua jornada em Moçambique, os diretores da Vale se recusaram a permitir que o pajé local benzesse as áreas de exploração de carvão da mineradora brasileira. A posição foi revista depois que um trágico acidente provocou a paralisação de uma das minas. Resultado: chamaram o pajé de volta e nunca mais aconteceu um único problema. Verdadeira ou não, a história ajuda a ilustrar uma questão que vem ganhando cada vez mais importância no mundo dos negócios: o efeito da liberdade religiosa na economia e nas decisões de investimentos mundo afora.

“Países nos quais vigora a tolerância religiosa são mais prósperos”, afirma Brian Grim, presidente da Religious Freedom & Business Foundation. Ele esteve recentemente em São Paulo, onde participou de um seminário sobre o tema, que reuniu empresários e líderes religiosos de diferentes confissões. A agenda incluiu, também, uma passagem por Brasília, onde Grim manteve um encontro com o vice-presidente Michel Temer. Segundo o pesquisador americano, Temer se mostrou surpreso ao saber que o Brasil aparece no topo entre os 25 países que integram seu estudo sobre o assunto, excluídas a China e os Estados Unidos.

O dado se refere ao ano de 2012, quando entraram no País US$ 65,2 bilhões, em investimentos diretos. “O Brasil é um exemplo para o mundo neste quesito e poderia usar o fato de valorizar a liberdade religiosa como mais um argumento para atrair investimentos externos”, diz Grim. O pesquisador do Institute on Culture, Religion & World Affairs sabe do que está falando. O número de fundos de investimentos que aplicam seus recursos a partir de valores religiosos estão se multiplicando. Um deles, de orientação católica, é administrado pelo banco Credit Suisse.

O debate sobre a liberdade religiosa e sua importância como um dos componentes das decisões empresariais já ganhou espaço no Fórum Econômico Mundial e também na Organização das Nações Unidas (ONU). Por meio de sua fundação, Grim integra o Pacto Global das Nações Unidas de Negócios para a Paz. Em seu mais novo trabalho, intitulado A Liberdade Religiosa é Boa para os Negócios como Sugerem as Teorias Econômicas?, ele traça um retrato do impacto do tema na vida das pessoas. Para isso, o pesquisador cruza dados de inúmeras fontes que deixam evidente os efeitos deletérios do radicalismo. Um deles é o uso de códigos religiosos para tirar competidores do mercado, como tem acontecido, no Paquistão.

“Esse dispositivo legal tem sido usado como instrumento de ajustes de contas empresariais”, afirma. Para Grim, embora o senso comum identifique a liberdade religiosa como um valor ocidental, esse componente também está presente no Oriente Médio e na Ásia. Exemplos disso são Dubai e Cingapura, respectivamente, que não contam com recursos naturais abundantes, como o petróleo. “O crescimento desses países depende de um forte intercâmbio de negócios, feitos por pessoas de todas as partes do mundo”, diz. O relatório elaborado por Grim mostra que muitas empresas privadas já colocaram em seus planos estratégicos as questões relativas à diversidade religiosa.

A Coca-Cola é uma delas. Para estreitar os laços com as diversas comunidades da Indonésia, a fabricante de refrigerantes faz parcerias com a prefeitura de Jacarta na área social, para financiar casamentos coletivos. Na Tailândia, a diretoria da DuPont atendeu, de imediato, um pedido inusitado feito pelos funcionários que alegaram que trabalhariam mais tranquilos se fosse construída uma Casa dos Espíritos no terreno da fábrica. “Ao valorizar a crença religiosa de seus funcionários, a empresa mostrou que respeita cada um deles”, afirma. “E isso é bom para os negócios, pois ajuda a melhorar o clima organizacional.”