As lições do Mackenzie

A estratégia e os bastidores do plano desenvolvido pela universidade paulista para se tornar referência internacional em pesquisa e desenvolvimento acadêmico, nos próximos anos, e mudar o conceito do ensino privado no Brasil

07/11/2014 20:00

  • // Por: Márcio Kroehn

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Gestão inspiradora: o reitor Benedito Aguiar Neto (sentado), o presidente Maurício de Meneses e o chanceler Davi Charles Gomes elaboraram um plano ousado para o Mackenzie se destacar no setor educacional
Gestão inspiradora: o reitor Benedito Aguiar Neto (sentado), o presidente Maurício de Meneses e o chanceler Davi Charles Gomes elaboraram um plano ousado para o Mackenzie se destacar no setor educacional ( foto: MASAO GOTO FILHO)

É quase impossível passar pela rua Maria Antônia, no bairro de Higienópolis, na região central de São Paulo, e deixar de olhar para o muro de tijolos aparentes e para os prédios de três andares que se destacam na cinzenta geografia paulistana. Nessa área arborizada de 117.000 metros quadrados está a Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das instituições de ensino particular mais tradicionais do País. Criada há 144 anos por um casal de americanos protestantes, o centro educacional passa por um profundo choque de gestão. A instituição investe pesado em pesquisa e desenvolvimento, inspirada no modelo das universidades americanas, que atraem recursos de ex-alunos e empresas para financiar a excelência do ensino.

Esse é o momento mais importante da centenária instituição, que hoje desenvolve um dos mais ousados projetos do setor educacional brasileiro. Embora seja reconhecido pela sua qualidade no País, o Mackenzie quer se destacar internacionalmente pela sua produção acadêmica. Sua ambição não é pequena. Até o ano de 2022, a Universidade quer ser a responsável pelo primeiro Prêmio Nobel do Brasil. À primeira vista, examinado realisticamente, o objetivo pode parecer exagerado, principalmente pelo histórico do País quando se fala de pesquisa e inovação.

O Brasil aparece na penúltima colocação no ranking da Organização Mundial de Propriedade Intelectual, à frente apenas da Polônia, e a produção de artigos científicos ainda é muito baixa, em comparação aos países mais avançados. Além disso, por aqui, ficou caracterizado que as universidades públicas são espaços da pesquisa acadêmica enquanto as particulares cuidam da formação da mão de obra para o mercado de trabalho. O Mackenzie está empenhado em mudar esse cenário. Com o projeto “Visão 150 anos”, foram definidas as metas que devem ser cumpridas nos próximos anos.

A qualidade no ensino para formar um profissional de primeira linha continua inegociável. Mas, agora, seus pesquisadores têm espaço e recursos para desenvolver seus projetos. Os professores devem produzir artigos científicos para compartilhar suas descobertas. A ideia, porém, não é publicar em larga escala para engordar as estatísticas acadêmicas, mas produzir trabalhos que se convertam em tecnologia com aplicações práticas. Qualquer semelhança com o modelo de ícones como Harvard, Yale, Stanford ou MIT, nos EUA, não é mera coincidência.

Para fazer esse novo Mackenzie dar certo, a direção da instituição utilizou justamente como inspiração o modelo dessas escolas americanas, que são apoiadas pesadamente por ex-alunos e empresas para financiar os projetos de desenvolvimento acadêmico. Lá fora, o pagamento das mensalidades é uma fonte importante de receita, mas não é suficiente para fechar a conta mensal. Por isso, todas promovem campanhas anuais para arrecadar fundos e engordar o orçamento. É um trabalho contínuo e incansável, mas que traz resultados.

No início de setembro, Harvard, por exemplo, recebeu a maior doação de sua história e a terceira mais importante desse tipo no mundo. O ex-aluno chinês Gerald Chan, que se formou nos anos 1970 na Faculdade de Saúde Pública, destinou US$ 350 milhões para pesquisas contra pandemias, como o ebola, e para o tratamento de vítimas de guerra. A bolada doada por Chan, investidor do setor imobiliário de Hong Kong, dono de uma fortuna de US$ 2,95 bilhões, é incomum, mas dá uma dimensão da importância do retorno que ex-alunos podem trazer para a instituição.

Por isso, em busca de doadores, o Mackenzie identificou 250 potenciais mecenas, um grupo formado por empresários e executivos que passaram por suas salas de aula. Nomes como Paulo Sérgio Kakinoff, da Gol; Cledorvino Belini, da Fiat; Alain Belda, ex-presidente mundial da Alcoa e diretor-executivo do fundo de private equity americano Warburg Pincus; Roberto Cortes, da Man; Regina Nunes, da Standard & Poor’s; Claudio Szajman, do Grupo VR, entre outros, estão sendo convidados a colaborar, tanto financeira como intelectualmente, com a escola.

“O Mackenzie está olhando de forma arrojada e ambiciosa para o padrão de ensino e pesquisa”, diz Kakinoff, que cursou administração na Universidade. Os ex-alunos poderão virar nome de sala de aula, de centro de pesquisa ou fazer parte de uma espécie de calçada da fama, que está sendo criada. “Temos um cadastro com mais de 140 mil e-mails de mackenzistas, que vamos tornar cada vez mais ativos para que participem da vida da Universidade”, diz o presidente Maurício de Meneses. Esses recursos serão somados às parcerias com as empresas.

Atualmente, cerca de 30 dos mais de 40 prédios e auditórios que compõem o campus central do Mackenzie, na capital paulista, levam o nome de personagens da Reforma Protestante. No edifício João Calvino, que fica na rua da Consolação, seis salas foram disponibilizadas para serem patrocinadas. Banco Safra, Mitsubishi e Huawei foram os primeiros a fechar parcerias. Comgás, Eletropaulo, Itaú, Bradesco e TAM, por exemplo, aceitaram apoiar projetos de capacitação, consultoria e pesquisa. Há, ainda, algumas “salas secretas”, onde pesquisas específicas para empresas são desenvolvidas. Nesses locais, o acesso é restrito e só é autorizado para quem está cadastrado. O sigilo é uma exigência dos contratos.

PRAGMATISMO A busca por novas fontes de financiamento não é uma maneira de salvar as contas da universidade. Elas são rigidamente controladas e têm uma obrigação moral de se manter na linha. “A boa gestão é uma questão de ética”, diz o chanceler Davi Charles Gomes, que é a voz, ouvidos e olhos da igreja dentro da universidade. Os 42 cursos de graduação oferecidos têm um custo médio de R$ 1.500 por aluno. Alguns eram menos procurados e custavam quase R$ 1.000 para a universidade. Dez que estavam com baixa demanda foram extintos, como educação física e matemática.

Por outro lado, os de maior procura tiveram as vagas aumentadas, como engenharia e direito. Graças ao pragmatismo, nos últimos quatro anos as receitas aumentaram mais de 30%, chegando a R$ 527 milhões em 2013. Isso foi possível, também, por causa de um melhor aproveitamento do espaço do campus. Com quase 40.000 pessoas circulando diariamente em suas instalações, nos últimos dois anos o Mackenzie conseguiu atrair nove marcas de alimentação, como Starbucks, Bob’s e Per Paolo. Em 2015, a livraria Cia. dos Livros, do grupo Book Partners, abrirá uma filial na saída da universidade para a rua da Consolação, onde será inaugurada uma estação da Linha Amarela do Metrô.

“Soubemos atrair novas formas de investimento”, diz Meneses. Meneses, Gomes e o reitor Benedito Aguiar Neto formam o trio que rejuvenesceu e está reinventando o Mackenzie em todas as suas áreas. A gestão executiva está muito próxima do mundo empresarial, assim como a chancelaria, que ficou menos conservadora e passou a ser mais aberta ao diálogo. No caso da reitoria, foram realizadas mudanças no currículo para deixar o aprendizado mais dinâmico. Tudo sem derrubar os conceitos 4 e 5, equivalente a ótimo e excelente, atribuído a 80% dos cursos, pelo Ministério da Educação.

Foi definido o papel de cada curso e a sua importância para a sociedade. No passado não muito longínquo, o formato do ensino era distante das necessidades de interdisciplinaridade atuais. Por isso, houve a flexibilização para disciplinas iguais e a formação, que era feita exclusivamente em sala de aula, foi estendida para cursos complementares. O resultado pode ser visto na queda da taxa média de reprovação, de 26% para 18,5%. “A universidade tem de estar se reinventando continuamente”, diz Aguiar Neto. Sob essa nova visão, o empreendedorismo foi colocado como disciplina obrigatória.

Todos os cursos passaram a ter a matéria e os alunos são incentivados a criar seu próprio negócio. Não é difícil identificar aí o desejo de reproduzir o exemplo das universidades americanas, como Stanford, berço do Google, ou Harvard, onde nasceu o Facebook. Os alunos que apresentam boas ideias são convidados a fazer parte da incubadora da universidade, onde recebem apoio e meios para desenvolver o negócio, além de um espaço físico para trabalhar. “Saí da universidade empregado, mas com espírito empreendedor”, diz Belini, da Fiat, que se formou em administração.

“Dificilmente vejo essa característica como uma boa formação em alunos de outras universidades.” Os sócios Thais Polimeni, 29 anos, e Leonardo Cássio, 30, começaram com um blog de informação cultural, o Cult Cultura, e dentro da incubadora transformaram seu negócio numa startup de produção de eventos culturais. Eles souberam acelerar o desenvolvimento da empresa que deve faturar R$ 250 mil neste ano (o primeiro longe dos olhares da universidade). “O Mackenzie nos deu segurança e conhecimento, além de ter nos ajudado a adquirir experiência para a criação do negócio”, diz Cássio.

As startups podem criar os campeões do futuro, mas o reconhecimento internacional buscado pelo Mackenzie terá de vir da atividade acadêmica. A aposta do momento são as pesquisas com o grafeno, considerado por pesquisadores como o material que vai transformar o futuro da tecnologia. Formado por átomos de carbono, ele é praticamente transparente, altamente resistente, de espessura finíssima e dobrável. Além de tudo, é um excelente condutor de eletricidade e calor, o que o coloca como substituto natural de diversos produtos que servem de base para a indústria de transformação. Para visualizar esse material, basta relembrar de uma cena do filme de ficção científica Minority Report, estrelado por Tom Cruise, que se passa no distante ano de 2054.

Nele, o jornal americano USA Today aparece nas mãos de um passageiro no metrô. As notícias surgem, em tempo real, numa tela ultrafina, transparente e flexível. O Mackenzie é uma das poucas universidades no mundo que estão realizando pesquisas com o grafeno – uma delas é a britânica Cambridge. Com investimento de US$ 20 milhões (cerca de R$ 50 milhões), o pesquisador Eunézio Thoroh de Souza coordena uma equipe de oito especialistas nas áreas de química, engenharia de materiais e fotônica. No próximo ano, essa equipe será instalada no Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologia, o MackGraphe.

O edifício de seis andares e 4.230 m2 está em fase final de construção e deve ser inaugurado em meados de 2015. “Queremos dominar essa tecnologia em cinco anos”, diz Aguiar Neto. Embora o grafeno já tenha rendido um Prêmio Nobel de Física em 2010, para os cientistas Andre Geim e Kostya Novoselov, da Universidade de Manchester, que transformaram o elemento em um produto confiável, quem conseguir dominar a tecnologia e torná-la acessível às empresas pode ser um forte candidato à premiação. Um outro campo de pesquisa que está no radar do Mackenzie é o desenvolvimento de projetos na área de doenças tropicais.

Para isso, porém, o curso de medicina precisa ser aprovado pelo MEC. O primeiro pedido foi enviado a Brasília, em fevereiro de 2013. Nos bastidores, comenta-se que o entrave é o desejo do governo federal em localizar o hospital universitário, obrigatório para a instalação do curso, na região metropolitana de São Paulo. A universidade já recebeu a aprovação do projeto do prédio Século XXI, que começará a ser construído até abril, e a mudança acarretaria um custo extra estimado em R$ 15 milhões. A parceria com o Hospital Sírio-Libanês, já acertada, também ficaria prejudicada.

DERRUBADA DO MURO O Mackenzie quer que todas essas mudanças internas sejam vistas pela sociedade. Por isso, uma ação de visibilidade programada será a derrubada do muro vermelho a marretadas. Os pedaços serão utilizados para a criação de uma escultura que ficará exposta no campus. No lugar dos tijolos será colocada uma parede de vidro para mostrar a transparência da instituição e sua interação com todos os públicos. “Saber o que está atrás do muro é uma demonstração de que se pode ser tradicional, mas conectado com o futuro e com a modernidade”, diz Fernando Piccinini Júnior, vice-presidente da agência Rino, responsável pela nova campanha de comunicação do Mackenzie, que utiliza a letra M pulsando para reforçar o significado de ser mackenzista.

“Tinha muito orgulho de ter um adesivo do Mackenzie no meu fusquinha”, afirma Cortes, da Man, que se formou em economia. O gesto simbólico de colocar o muro abaixo representa uma tentativa de aproximação e de superação definitiva de algumas cicatrizes do passado. A instituição é frequentemente associada ao período da ditadura militar (1964 a 1985). O Mackenzie ficou conhecido por ter muitos representantes do Comando de Caça aos Comunistas, um grupo paramilitar de direita, entre seus alunos e mesmo professores. Ficou famoso, nesse período, o confronto entre mackenzistas e uspianos, na chamada Batalha da Maria Antônia.

A faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da USP, ficava em frente ao Mackenzie. O confronto entre os estudantes, em outubro de 68, mostrava que as instituições estavam em lados opostos naquele período de exceção. A briga teve troca de rojões, coquetéis molotov e tiros, e resultou na morte de um jovem secundarista, aluno de uma escola pública da vizinhança. Passados 46 anos, o Mackenzie quer mostrar que a democracia é um conceito que se desenvolve dentro de casa e que o respeito às diferenças ajuda a formar uma sociedade melhor e
mais justa.

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