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Rally de investimentos

O empresário holandês Kees Koolen, cofundador da Booking.com e piloto nas horas vagas, chega ao Brasil para investir em startups e no agronegócio

Rally de investimentos

Fora de estrada: Koolen se prepara para a largada da edição 2013 do Rally Dakar, em Lima, no Peru (foto: AFP PHOTO/GERALDO CASO)

O empresário holandês Kees Koolen, cofundador e ex-CEO da agência de viagens online Booking.com, foi a primeira pessoa, no mundo, a completar o Rally Dakar, uma das provas mais perigosas da modalidade, em todas as categorias: carros, motos, caminhões e quadriciclos. Além do reconhecimento no mundo da velocidade, o empresário ganhou alguns ossos quebrados. Certa vez, ao tentar pular uma duna de areia com sua moto, ele não percebeu que, depois da subida, havia um abismo de algumas dezenas de metros.

O acidente lhe rendeu múltiplas fraturas, mas não o impediu de voltar a competir no ano seguinte. A façanha é uma mostra da determinação de Koolen, nascido em uma família de agricultores, responsável por fazer da Booking uma gigante no setor de turismo, que movimenta cerca de R$ 40 bilhões em reservas de hotéis, por trimestre. Até acertar a mão ao investir no site, em 2001, o empreendedor se arriscou em mais de 50 startups na área de tecnologia.

Em 2005, o empresário-piloto vendeu a Booking para o grupo americano Priceline.com, do qual se tornou o chairman. No início deste ano, ele deixou o posto para se concentrar na atividade que mais o agrada: investir. Desde então, vem dando algumas tacadas certeiras, como no caso da Uber, startup que desenvolveu um aplicativo de caronas que está fazendo barulho na Europa ao permitir que qualquer pessoa atue como taxista. Sua próxima aventura terá como cenário o Brasil. Assim como no rally, Koolen não pretende limitar-se a uma categoria ou mercado.

Ele se associou a um grupo de empresários brasileiros, entre os quais Rodrigo Borges, cofundador do Buscapé, maior site de busca de preços do País, para criar um fundo de investimentos em startups, o Koolen & Partners. Além disso, o holandês quer aproveitar suas raízes no campo e algumas terras que possui no Nordeste para investir na produção de leite e derivados. Com R$ 37 milhões em caixa, atualmente, a Koolen & Partners já tem em seu portfólio 12 empresas, todas com o mesmo perfil: sites ou aplicativos que facilitam a contratação de serviços.

Entre elas estão a GymPass, que vende aulas e horários em academias de ginástica, e a Loggi, voltada para a contratação de motoboys. “Estamos em busca de novos negócios com potencial de se tornarem globais”, afirma Borges. Além dele, figuram como sócios do fundo o ex-diretor do Buscapé Guga Stocco, já iniciado no mundo das startups ao criar a TeRespondo, empresa de buscas vendida para o Yahoo!, em 2005, e Marcello Gonçalves, executivo do mercado financeiro, com passagens por bancos como os britânicos Barclays e Lloyds Bank e o brasileiro Fator.

A meta, neste ano, é captar mais R$ 17 milhões no mercado, atingindo um valor de R$ 50 milhões para investir. Em uma segunda etapa, a Koolens & Partners pretende atrair outros R$ 100 milhões para formar um segundo fundo. Apesar de ainda modesto, o investimento em startups no País vem crescendo. Atualmente, cerca de 70 fundos atuam por aqui, segundo Naldo Dantas, secretário-executivo da Anpei, agência de fomento à pesquisa e à inovação. “Nos Estados Unidos são mais de dois mil”, diz Dantas. “A chegada de novos fundos ajuda a criar um ambiente favorável para as startups que, por falta de apoio, não conseguem se inserir no mercado.”

Mas o plano mais audacioso do empresário está no agronegócio. Em fevereiro deste ano, Koolen fundou a Agri Brasil, cujo objetivo é montar no País fazendas autossuficientes, capazes de produzir o próprio alimento para o gado, além de processar o leite no local. “Quero construir a maior fazenda do mundo”, afirmou Koolen, a uma revista holandesa. “Existem cada vez menos agricultores, mas cada vez mais pessoas dependendo deles.” Segundo a imprensa holandesa, ele estaria disposto a colocar € 100 milhões, o equivalente a R$ 302 milhões, no negócio.

Parte do dinheiro viria de outros investidores. Com previsão de iniciar as operações no final de 2015, a Agri Brasil espera produzir 3,4 milhões de litros de leite por dia. O projeto teve início quando Koolen adquiriu algumas propriedades no Nordeste, no início dos anos 2000. No final da década passada, no entanto, o governo estabeleceu limites para a compra de terras por estrangeiros, o que inviabilizou seu plano inicial de lucrar com a venda das propriedades. A julgar pelo seu desempenho no rally, não será esse pequeno obstáculo que vai impedi-lo de atingir seus objetivos.