“O papel está muito longe de acabar”

10 perguntas para Karine Pansa, presidente da câmara brasileira do livro

20/06/2014 20:00

  • // Por: André Jankavski

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O Brasil é um país de extremos quando o assunto é o mercado de livros. Por um lado, o setor, o nono maior do mundo, movimenta cerca de R$ 5 bilhões por ano, de acordo com estimativas da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Por outro, o brasileiro é mundialmente conhecido por ler pouco. O lado bom desse contraste é que o mercado tende a crescer e enfraquece a tese de que os livros digitais irão acabar com os impressos. “Se metade da população não lê, temos um espaço enorme para crescer”, diz Karine Pansa, presidente da CBL.

O brasileiro, realmente, lê pouco?
Se compararmos a outros mercados mundiais, o Brasil é um dos últimos colocados. Aqui, lemos por volta de 1,8 livro por ano. Mas não podemos enxergar esses números de forma pessimista. Afinal, se metade da população não lê, temos um espaço enorme para crescer.

E como fica o mercado editorial nesse cenário?
Apesar de termos registrado queda de volume no último balanço, nosso faturamento aumentou. Mas reconheço que precisamos melhorar muito, especialmente nosso sistema educacional.

O que fazer para aumentar o interesse pela leitura?
Mesmo com bons programas do Ministério da Educação, tanto para escolas quanto para bibliotecas, isso é insuficiente para um país de dimensões continentais. Também é imprescindível estimular pais e professores, que são grandes disseminadores dos hábitos de leitura.

Financeiramente, o setor é dependente do governo?
Se olharmos em termos de faturamento, sim. Quase 40% das vendas são para o governo. Essa dependência não acaba do dia para a noite.

O vale-cultura surge como uma ajuda ao mercado editorial?
Certamente. Segundo dados do MEC, cerca de 90% do valor concedido é utilizado para a compra de livros, jornais e revistas. E, diferentemente do que muita gente prega, o vale-cultura não é um programa eleitoreiro. Ele fomenta algo que está em falta no País.

O que as editoras estão fazendo, ou precisam fazer, para contribuir para a melhora desse cenário?
As editoras estão analisando melhor os produtos que lançam e avaliando os melhores locais para colocá-los à venda. Além disso, estão se preparando para superar a fraca infraestrutura brasileira. Para um livro editado em São Paulo chegar ao Oiapoque, custa dinheiro e demora muito tempo.

Então, o livro no Brasil ainda é muito caro?
Ainda convivemos com essa percepção, mas não é totalmente verdade. Nos últimos dez anos, o preço do livro caiu 40% no País. Mas não é pelo preço que não temos leitores: uma pesquisa nossa mostra que o principal motivo é a própria falta de interesse.

O livro digital tem capacidade de crescer no Brasil?
Há cinco anos, víamos o livro digital como um bicho de 50 cabeças. Mais tarde, aprendemos a trabalhar com ele e constatamos que não era o flagelo que se desenhava. Dito isso, é preciso ficar claro que o papel está muito longe de acabar. O digital representa menos de 0,1% do faturamento, mas também não podemos desacreditar nele.

E como fazer para não depender do governo para o setor crescer, tanto no mercado físico quanto no digital?
Temos de mudar algumas práticas, pois não há um planejamento conjunto das editoras. Existe a preocupação, mas não posicionamentos. É necessário se atentar para ações que podem prejudicar o setor, como a lei dos direitos autorais. O setor livreiro viu que tudo mudou e, agora, precisa se atualizar.

As Bienais podem ajudar na busca por novos consumidores?
Sim. A Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, teve mais de R$ 7 milhões em vendas. Isso é resultado da criação de um ambiente diferente para leitores, que passaram a ver o livro como algo prazeroso, e expositores, que tinham um local estimulante de negócios.

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