Seu próximo carro será chinês?

21/05/2010

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Há um bordão, repetido por executivos da indústria automobilística da China, que soa quase como um mantra budista. Se os japoneses demoraram 30 anos para conquistar a confiança do consumidor mundial e os coreanos, 15, os chineses vão conseguir tal feito em apenas cinco anos. A previsão é baseada em uma premissa simples.
 

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Mosaico com logotipos de carros chineses. Com mercado fragmentado, há 118 empresas que fabricam veículos na China
 

A China se transformou na grande fábrica do planeta. Quase tudo que é produzido no mundo sai de uma planta industrial do país. Os chineses conquistaram a liderança mundial no setor automobilístico em 2009, quando venderam 13,6 milhões de veículos, ultrapassando os EUA. Logo, é uma questão de tempo para que seus veículos comecem a invadir o mercado global. Como todo sofisma, este parece lógico e verdadeiro. Mas há sérias dúvidas se o país asiático repetirá o caminho trilhado pelos japoneses e coreanos em tão curto espaço do tempo.

As muralhas a serem ultrapassadas, neste caso, ainda são muitas. A começar pelo design. O carro mais vendido da China é o F3, da BYD (Build Your Dreams), empresa que tem o norte-americano Warren Buffett como investidor. Ele é inspirado no Toyota Corolla. E este não é um exemplo isolado.

No Salão do Automóvel de Pequim, que é considerado um dos mais importantes do mundo, é fácil encontrar carros copiados de marcas mais famosas. O Tiggo, da Chery, que já é vendido no Brasil, mescla a carroceria do Honda CR-V com detalhes de Toyota RAV4.  A JAC, que começará a comercializar seus veículos no mercado brasileiro em 2011, conta com modelos que lembram carros da Mercedes-Benz e da Toyota.
 

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O fim das pedaladas: em Pequim, as tradicionais bicicletas perdem espaço para os carros.
Avenidas estão sempre congestionadas

 

A Geely, que comprou a Volvo por US$ 1,8 bilhão em março, tem um modelo igual ao Rolls-Royce. Até mesmo os logotipos das fabricantes chinesas guardam uma impressionante semelhança com as logomarcas de seus concorrentes ocidentais (confira o mosaico na abertura dessa reportagem).

O próprio consumidor chinês parece preferir os carros de montadoras internacionais. Apenas duas entre as dez empresas que mais venderam no primeiro trimestre de 2010 são do país. E a história mostra que os fabricantes que foram bem-sucedidos na exportação de carros só conseguiram tal feito após conquistar uma posição forte em seu mercado local.

Quando a Toyota superou a GM e se tornou a maior empresa do setor automobilístico, suas vendas representavam quase 50% do mercado japonês. A China tem ainda uma indústria fragmentada, com 118 fabricantes domésticos, um cenário que lembra o mercado americano no início do século 20.  A consolidação, acreditam os especialistas, começa nos próximos anos.

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Não é mera coincidência: O F3, da BYD (à dir.), é o carro mais vendido da China. Seu design é inspirado
no Toyota Corolla. A prática ainda é bastante comum entre os fabricantes do país

Os mais fortes candidatos a liderar o processo de consolidação no mercado chinês têm planos de expansão internacional ambiciosos. A Chery, principal montadora independente do país, contratou o argentino Lionel Messi, eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa no ano passado e astro do time espanhol Barcelona, para ser seu garoto-propaganda pelo mundo.

A meta é exportar 100 mil carros para 70 países, incluindo o Brasil, em 2010, disse à DINHEIRO Zhou Biren, vice-presidente da empresa.  A Geely divulgou planos de produzir dois milhões de carros até 2015. Metade deles deve ser vendida fora da China, informou Victor Yang, diretor da companhia, à DINHEIRO. A BYD vai começar a exportar seu carro elétrico para os EUA até o final de 2010. O chairman da fabricante, Wang Chuanfu, que já foi o homem mais rico da China, afirmou que quer transformar a BYD na maior fabricante mundial de carros até 2025.
 

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O astro do Barcelona Lionel Messi é o novo garoto-propaganda da chinesa Chery
 

Essa ambição global esbarra também na dificuldade em falar inglês. No Salão do Automóvel, a maioria dos materiais entregues aos jornalistas era em mandarim. ?Sorry, sorry, no english?, com sotaque carregado, era o som em inglês mais ouvido nos corredores. Outra muralha é a qualidade. Há a percepção de que o produto da China é ruim. É claro que isso não pode ser considerado verdade em todos os casos. Mas os fabricantes de veículos locais são adeptos da política de custo baixo.
 

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Embora suas fábricas estejam entre as mais modernas do mundo, os materiais utilizados para a produção dos carros são de qualidade inferior aos usados pelos brasileiros. Pior: um teste que a reportagem da DINHEIRO fez com os veículos da Chery, em Wuhu, mostrou um cenário que apenas confirma o mito.

Entre os veículos testados, um deles precisou de recarga na bateria. Outro tinha a porta enferrujada. E o trio elétrico de um dos modelos também não funcionava. ?Vamos quebrar este preconceito?, diz Luis Curi, CEO da Chery do Brasil. ?A qualidade é prioridade número 1. Os chineses aprendem rápido.? Será uma tarefa tão paciente e detalhista quanto construir mais de oito mil quilômetros de uma gigantesca muralha.

 

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