Todeschini, da sanfona ao armário

22/06/2004

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Oempresário gaúcho José Eugênio Farina teria motivos suficientes para odiar os Beatles. No início da década de 70, o sucesso das guitarras elétricas, difundidas pelos quatro rapazes de Liverpool, enterrou seu negócio, a fabricação de sanfonas e acordeons. Farina também teria razão para ser supersticioso. No dia 13 de agosto de 1971, a fábrica de instrumentos musicais foi inteiramente destruída por um incêndio devastador. Ninguém o condenaria ainda por considerar o número 51 uma péssima idéia.

Afinal, o fogo consumiu a empresa exatos 51 dias depois de Farina adquiri-la do antigo proprietário, justamente no momento em que assinava o cheque para pagamento da última parcela. Pois bem, Farina nada tem contra os Beatles, não é dado a superstições e vê o 51 como um número qualquer. ?Ou eu reconstruía tudo, ou largava tudo. Escolhi a primeira opção?, diz ele. ?A partir daquela tragédia ergui isso tudo.?

Farina fala apontando para um imenso galpão de 44 mil metros quadrados onde funciona a unidade industrial da Todeschini, a maior fabricante de móveis da América Latina, com faturamento de quase R$ 200 milhões. O edifício, localizado no topo de uma colina do município gaúcho de Bento Gonçalves, se destaca na paisagem verde do Vale dos Vinhedos, que, como sugere o nome, concentra a maior produção de vinhos do País. É construção novíssima. Resultado de um investimento de R$ 40 milhões e de três anos de pesquisa na Europa, foi inaugurada em abril. Com ela, a Todeschini ganhou fôlego para triplicar sua produção até 2010 e estabeleceu as bases para um projeto ambicioso. Tatuada na mente dos consumidores de classe média como marca de móveis prontos, vendidos em grandes redes como Ponto Frio, a Todeschini está subindo um degrau no mercado consumidor. Sua estratégia é atingir um público mais endinheirado, batizado pelos executivos de classe A ? gente habituada a contratar marceneiros para móveis sob medida, mas que nos últimos anos perdeu a capacidade financeira de fazê-lo. ?O risco, nesses casos, é abandonar um público fiel e não conseguir colocar outro no lugar?, afirma um especialista no varejo.

 


O primeiro passo para evitar a armadilha foi criar uma segunda marca, a Italínea. Os móveis com essa assinatura foram, pouco a pouco, ocupando o espaço da Todeschini nas grandes redes de varejo. Ao mesmo tempo, a empresa atraiu donos de lojas de móveis e os transformou em revendedores exclusivos da Todeschini. Hoje, já são cerca de 220 pontos-de-venda espalhados pelo País. Neles, arquitetos e projetistas montam armários para qualquer tipo de ambiente (de uma cozinha a uma sala de ginástica) de acordo com a necessidade do cliente. ?São milhares de peças que, integradas, geram combinações cujo limite é a criatividade do designer?, afirma Rogério Francio, diretor comercial da empresa.

Para mudar a imagem dos produtos, a Todeschini foi buscar um dos mais badalados arquitetos brasileiros, João Armentano, para funcionar como uma espécie de ?garoto-propaganda? da marca. Nos próximos meses, Armentano será o protagonista de peças publicitárias da companhia. Ao mesmo tempo, correrá o território brasileiro onde dará 30 palestras para decoradores e arquitetos explicando ?por que recomenda Todeschini?, como afirma Francio. No futuro, haverá uma linha exclusiva, algo como Todeschini by Armentano. ?Com isso, reforçamos a associação entre os dois?, diz Farina.

Não há decisão na Todeschini que não tenha a participação de Farina. Aos 78 anos, ele desenhou um modelo de gestão à sua imagem e semelhança. O escritório da companhia ocupa um único andar no edifício sede, ao lado da fábrica. As poucas salas privativas têm paredes inteiramente de vidro. A maior delas abriga os quatro diretores. Cada um tem sua própria escrivaninha e, quando precisam, usam uma grande mesa de reunião. ?Quando há algum problema sentamos imediatamente e tomamos a decisão?, diz Farina.

Apenas duas secretárias atendem aos quatro manda-chuvas. ?É o suficiente e mais econômico?, afirma ele. A parcimônia nos custos é resultado, segundo ele, das lições da dona Lourdes, a fiel companheira com quem é casado há 54 anos. Dias depois do incêndio que destruiu a fábrica, Farina chegou em casa e perguntou sobre a empregada. ?Eu a dispensei?, anunciou dona Lourdes. ?Mas como você vai cuidar da casa e de quatro filhos??, perguntou Farina. ?Você esqueceu da tragédia que nos aconteceu? Você acha que podemos sustentar qualquer luxo??, devolveu ela. Não podiam. As economias, uma fazenda e até o automóvel de dona Lourdes, haviam sido vendidos para a compra da Todeschini. ?Naquela época só tinha a casa onde morava e o apoio da família?, conta ele.

Isso explica outro traço do estilo de Farina. Num momento em que as companhias familiares procuram colocar executivos nos postos chaves, ele cerca-se de seus familiares. Dois dos filhos são diretores ? Francio é o único executivo. A filha comanda a gerência de informática e um outro herdeiro é o diretor responsável pela Italínea. Mas eles só ganham o cartão de visitas da empresa depois de se formar, conquistar um canudo de MBA e trabalhar em negócios que não sejam da família. ?Eles que aprendam fazendo bobagens lá fora?, brinca. Certa vez um deles anunciou que iria estudar na França por dois anos. Farina o convidou a trabalhar na Todeschini. ?A empresa precisa de você?, alegou para o filho. E precisava, mesmo? ?Para falar a verdade, o que falou mais alto foi o coração de pai vendo um filho se afastar?, admite ele.

Atualmente, Farina tem falado bastante em aposentadoria. ?Quero mais tempo para descansar e fazer outras coisas?, diz ele. Outras coisas, em seu idioma, significa pescar. ?Já fisguei um dourado de 27 quilos?, gaba-se ele. Mas o empresário que chega cedo à fábrica e só sai de lá quando o sol já se pôs terá coragem de se retirar? ?De jeito nenhum?, confessa. ?Isso é só discurso. Quer me ver feliz? Me coloque no meio de uma reunião com gerentes para tomar decisões. Esse é meu mundo.?

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