AMBEV, A DONA DO MUNDO?

10/03/2004

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São Paulo, quarta-feira 3: Victorio De Marchi e Carlos Brito, da Ambev, anunciam a criação do maior fabricante global de cervejas

 

Os escritórios da Ambev foram tomados por uma comemoração na noite da quarta-feira passada, 3 de março. Numa festa animada por muita música e regada, é claro, a cerveja, cerca de 100 executivos festejavam a união da maior cervejaria brasileira com outra gigante do setor, a belga Interbrew. A festa encerrava um longo e tenso dia de trabalho que havia começado com o anúncio do negócio, feito naquela manhã em Leuven, na Bélgica, e em São Paulo. Uma faixa pendurada em um dos corredores resumia o sentimento predominante entre os jovens gerentes e diretores da Ambev: ?Sou Ambev e meu lugar é no mundo?. O mote pode revelar um certo traço de arrogância, mas torna-se aceitável diante das dimensões do negócio fechado horas antes. Concebido a partir de uma complexa e inédita engenharia financeira, envolvendo uma troca de ações no valor de US$ 11 bilhões, o negócio tornou-se o maior já realizado no Brasil. Nunca na história empresarial brasileira uma operação movimentou um volume tão espantoso de dinheiro quanto o casamento da Ambev com a Interbrew. Nem mesmo a fusão de duas arqui-rivais, como Antarctica e Brahma, há cinco anos, provocou tanta agitação no mercado internacional.

Da união dos dois colossos, surge a maior cervejaria do mundo em volume de produção. A cada ano, de suas fábricas, saem 190 milhões de hectolitros de cerveja. Engarrafada em vasilhames de 600 ml, essa produção cobriria três milhões de quilômetros, o que significaria cinco viagens de ida e volta à Lua. As 250 marcas das duas empresas são vendidas em mais de 150 países, e em 20 deles, ostentam a primeira ou a segunda posição no ranking. Três dessas marcas (Stella Artois, Beck?s e Brahma) ganham status de produtos globais. A participação da companhia no mercado mundial atinge 14%. Uma leitura do balanço consolidado das duas organizações revela uma eficiente máquina de fazer dinheiro. Com faturamento anual próximo a US$ 12 bilhões e lucro superior a US$ 1 bilhão, a Interbrew/Ambev, ou Interbev, como é provisoriamente chamada, possui uma geração de caixa de US$ 3 bilhões. O casamento poderá trazer sinergias no valor de US$ 350 milhões. Não bastasse, o acordo simboliza mais do que nunca a impressionante vocação do carioca Jorge Paulo Lemann, maior acionista individual da Ambev, em bancar negócios surpreendentes, polêmicos e, sobretudo, lucrativos. Não faltavam, portanto, motivos para o enorme entusiasmo que dominava os escritórios da Ambev no dia 3 de março.

A euforia, contudo, não ultrapassou os muros da sede da companhia. Os executivos das duas empresas esforçaram-se para convencer seus interlocutores de que se tratava de uma fusão entre iguais ? e igual seria o poder de cada um na nova organização. Mas ao final da extensa maratona de reuniões e entrevistas, sobraram mais perguntas do que respostas, mais dúvidas do que certezas. O negócio definitivamente não foi bem recebido pelo mercado. Resultado: no dia do anúncio da aliança, as ações preferencias da Ambev desabaram 15%. No dia seguinte, caíram 3%, e 4% na manhã de sexta.

 

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O anúncio foi feito na terça 3 a Lula e aos ministros Palocci e Dirceu
  

A interpretação dos investidores é que o negócio foi realmente excepcional para os três controladores da empresa (Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira), mas não para a Ambev. A interpretação teve origem no próprio desenho da operação. Nela, a holding dos três, a Braco, vendeu sua participação na Ambev, cerca de 52% do capital votante, para a Interbrew. Em troca, Lemann, Sicupira e Telles receberam um lote de 25% das ações da empresa belga. Na negociação, decidiu-se que um dos braços da Interbrew, a Labatt, segunda colocada no mercado canadense, será incorporada pela Ambev. A participação belga na mexicana Femsa também será transferida para a cervejaria brasileira.

Os analistas começaram a torcer o nariz quando os valores envolvidos foram divulgados. O lote de ações da Interbrew recebido por cada um dos três investidores brasileiros foi avaliado em US$ 1,35 bilhão. Ao todo, os papéis que Lemann, Telles e Sicupira receberam somam US$ 4,1 bilhões, o que representou um ágio de 78% em relação ao valor de mercado de suas participações na Ambev. Por outro lado, o valor das ações dos demais acionistas desabou porque muitos julgaram que a Ambev pagou caro demais para incorporar a Labatt. ?O preço da aquisição foi exagerado?, disse Tufic Salem, analista do banco Credit Suisse First Boston. Atualmente, segundo o banco, as cervejarias são negociadas por um valor equivalente, em média, a oito vezes a geração de caixa. No caso da Labatt, o múltiplo foi próximo a 11,4 vezes, o que representaria um sobrepreço superior a US$ 2,2 bilhões ? coincidentemente o mesmo valor pago como ágio para Lemann, Marcel e Sicupira. Ficou a impressão de que os minoritários da Ambev arcaram com a conta do sobrepreço pago para os três.

A reação mais virulenta partiu de outro grande banco de Wall Street, o Bear Stearns. ?A Ambev se tornou o depósito dos erros da Interbrew?, disse o analista Carlos Laboy, que recomendou a venda dos papéis preferenciais da empresa ? as ações ordinárias subiram porque a Interbrew terá de fazer uma oferta aos detentores desses títulos. ?Não houve sobrepreço?, afirma Victorio De Marchi, co-presidente do conselho de administração da Ambev. ?Vamos pagar na média de mercado. Se fôssemos comprar uma empresa como a Labatt pagaríamos muito mais. Além da vice-liderança no mercado canadense, ela é a segunda exportadora de cervejas para EUA.?

O debate se tornou mais acirrado quando uma pergunta foi feita: o negócio foi realmente uma ?aliança estratégica?, como definiram as duas empresas, ou se constituiu na compra da Ambev pela Interbrew? Agora, os principais acionistas da empresa, com 52% do capital votante, são os belgas da Interbrew. Caso comprem todas as ações ordinárias na oferta pública, sua fatia no capital total atingirá mais de 80%. Os diretores da Ambev, porém, afirmam que os três brasileiros ? Lemann, Telles, e Sicupira ? tornaram-se sócios da Interbrew no exterior, com o mesmo poder que os belgas, e com eles dividirão as cadeiras do conselho de administração. ?Eles deixaram de ser sócios diretos da Ambev para controlar a empresa indiretamente, via Interbrew?, disse Carlos Brito, diretor geral da Ambev.

De Marchi bate em outro ponto. Segundo ele, independente da participação acionária de cada sócio, o controle da companhia continuará dividido, em partes iguais, entre a Interbrew e a Fundação Antônio e Helene Zerrenner, dona de 15% do capital votante e controladora da Antarctica antes da fusão. ?Isso está garantido no acordo de acionistas cuja vigência se estenderá até 2019?, diz De Marchi. Desde a criação da Ambev, porém, o papel da fundação tem sido quase decorativo. Um ano depois, não havia um único executivo da Antarctica na diretoria da Ambev. Pelo menos dois conselheiros da fundação, Telles e Adilson Miguel, são oriundos da Brahma.

 

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Na quarta, Telles e Brock comunicavam o negócio na Bélgica.

 

?Se o negócio é tão bom para a Ambev, como dizem seus diretores, por que apenas três acionistas, e não toda a empresa, foram envolvidos??, questiona Cláudio Bueno, presidente da Associação dos ex-Funcionários da Antarctica. Oficialmente, a fundação foi chamada a participar. Mas preferiu ficar de fora numa reunião realizada em 2 de março, véspera do anúncio, quando a união Ambev/Interbrew já estava sacramentada. A convocação para o encontro sequer citava a operação com a Interbrew. Apontava como pauta o ?Aditamento ao Acordo de Acionistas celebrado em 1º de julho de 1999 entre Braco-Ecap e esta Fundação?. ?Houve conselheiros que não compareceram, pois consideraram a reunião pouco relevante, devido à pauta apresentada?, diz Bueno. Para De Marchi a fundação seria prejudicada no negócio. ?Pela lei perderíamos a imunidade fiscal se investíssemos no exterior?, afirma ele.

Todas as dúvidas que cercam o anúncio apareceram estampadas nas manchetes dos jornais internacionais. The Wall Street Journal e o Financial Times descreveram a transação como aquisição disfarçada da empresa brasileira pelas famílias belgas De Spoelberch, De Mevius e Van Damme, os três principais donos da Interbrew. ?Isso é uma aquisição?, disse à DINHEIRO o presidente da filial de uma multinacional européia no Brasil, que viveu 15 anos na Bélgica e conhece pessoalmente os controladores da Interbrew. De Marchi argumenta que, por 20 anos, os três acionistas brasileiros não poderão vender suas ações na Interbrew e que isso garante o comando compartilhado. Para um país como o Brasil que já desnacionalizou setores antes tidos como estratégicos, como telefonia e energia elétrica, essa questão seria irrelevante. O aspecto negativo seria apenas um possível aumento nas remessas de lucros e dividendos para o exterior no futuro. Em 2003, por exemplo, a Ambev lucrou R$ 1,3 bilhão. Por que então batizar o negócio de aliança e não chamá-lo pelo verdadeiro nome, ou seja compra e venda? Porque causaria desconforto para as duas companhias. A Interbrew construiu ao longo dos últimos anos a imagem de uma empresa que erra em demasia na hora de fechar negócios. Há cerca de um ano e meio, por exemplo, levou a alemã Beck?s e teria pagado um preço muito alto. Dois meses atrás, quando as equipes de comunicação das duas partes reuniram-se em Nova York para padronizar o discurso, os executivos da Interbrew bateram muito nessa tecla. ?Eles queriam passar a idéia de que levariam vantagem na transação, por temer reações negativas na Europa?, conta um participante do encontro. Do lado brasileiro, também havia constrangimento diante da palavra ?venda?. Em 1999, quando a Ambev foi criada, o argumento usado era a suposta necessidade de criação de multinacionais brasileiras, para enfrentar a globalização. O termo ?multinacional verde-amarela? foi utilizado até em anúncios publicitários. O próprio Telles assumiu compromisso público de não vender a Ambev. Na semana passada, executivos da empresa falavam que a declaração não passava de um comentário.

Tendo sido vendida ou não, um dos principais concorrentes da Ambev, a Schincariol, pretende usar o assunto como arma na ?guerra das cervejas?. Na última semana, o publicitário Eduardo Fischer, idealizador da campanha do ?Experimenta?, armou acampamento em Itu, sede da empresa. A primeira decisão foi estampar no logotipo da Schin a expressão ?100% Brasil?. ?Onde foi parar a multinacional verde-amarela??, indaga Luiz Cláudio Taya, porta-voz da Schin. ?Brasileiros, agora, somos nós?, reforça Fischer. O avanço da Schin foi responsável pela deterioração do resultado da Ambev em 2003. Entre setembro do ano passado e janeiro deste ano, a participação de mercado da empresa caiu de 70% para 64% ? justamente no período em que a operação vinha sendo negociada. ?Este foi o pior verão da história da Ambev?, diz Fischer. Brito, o diretor geral da Ambev, aposta que a empresa voltará a bater na fatia de 70% e voltará a ver seus lucros crescer, ao contrário do que ocorreu em 2003.

Para isso, Brito conta, entre outras coisas, com os chamados ganhos de sinergia, calculados em US$ 350 milhões. A Ambev, calcula Brito, se apropriará de 30% desse total, ou cerca de US$ 105 milhões. A economia virá sobretudo de ganhos de eficiência obtidos nas operações canadenses da Labatt. Além disso, afirma Brito, a companhia terá um custo de captação muito menor, pois terá uma parte das receitas vinculadas ao dólar. A Schin pretende espalhar outras pedras no caminho da Ambev. Nos próximos dias, entrará com um pedido de consulta junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que, em 1999, aprovou a criação da Ambev. ?Vamos analisar o negócio do ponto de vista da concentração no mercado brasileiro?, diz Cleveland Prates, conselheiro do Cade. Em outras palavras, é improvável que ocorra qualquer veto, já que as participações de mercado não serão alteradas. Os executivos da Ambev se prepararam para situações como essas. No dia anterior ao anúncio, De Marchi e Brito estiveram no Palácio do Planalto para apresentar a operação ao presidente Luís Inácio Lula da Silva. Lula ouviu com atenção e fez apenas uma observação. ?E quando vocês vão vender o guaraná Antarctica, o refrigerante mais gostoso do mundo, no exterior??, perguntou ele, entre risos dos participantes. Os dois executivos tiveram, então, a oportunidade de expor mais um plano da Ambev. ?Vamos aproveitar a estrutura de distribuição das cervejas da Labatt nos EUA para vender o guaraná?, diz Milton Seligman, diretor da Ambev. ?Antes do acordo, já tínhamos um executivo nos EUA com essa missão.?

 

 

 

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