COTEMINAS, A EMPRESA DO VICE

11/09/2002

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Um em cada 90 habitantes de Montes Claros, norte de Minas Gerais, tem o mesmo patrão. Seu nome é ?Seu Zé?, ou pelo menos é assim que os moradores da cidade se referem a José Alencar, candidato a vice-presidente da República, na chapa de Lula (PT). Ele é dono da Companhia de Tecidos Norte de Minas, a Coteminas, uma gigante da indústria têxtil que fatura R$ 885 milhões e emprega 16 mil pessoas. A empresa tem uma saúde invejável: consegue financiar suas próprias exportações, o dinheiro em caixa é superior ao total das dívidas e as vendas cresceram 12% em 2001, quando o PIB do setor ficou negativo em 5,7%. Os resultados financeiros não são o único motivo de orgulho para o grupo. Mesmo em meio à crise no setor têxtil, não houve demissões em massa na Coteminas. A fórmula de Alencar não chega a ser mágica, mas tem funcionado: suas 11 fábricas operam 24 horas por dia, sete dias por semana, com os trabalhadores se revezando em quatro turnos. ?Com o custo do capital tão alto, o jeito é aproveitar ao máximo cada metro quadrado das unidades. Assim, mantemos o nível da produção e aumentamos o número de funcionários?, disse à DINHEIRO José Alencar.

 

O sistema não agrada a todos. Em Blumenau, a Coteminas tem enfrentado reclamações constantes do sindicato dos trabalhadores, que condena o chamado turno 3 por 1 (uma folga a cada três dias). ?Blumenau é uma cidade folclórica, familiar, todos querem estar em casa aos domingos?, diz Jaimir Ferrari, presidente do sindicato local. O assunto já foi parar na Justiça, que deu ganho de causa à Coteminas, por entender que o mais importante é a manutenção do emprego. Desentendimentos como esse são exceções na administração Alencar. A fábrica de Montes Claros é considerada exemplar pelo sindicato. Ali, o piso salarial é de R$ 228 e todos ganham aumento de 3,3% a cada ano. Além de descontos nas compras de remédio e em supermercados, os funcionários recebem prêmio por produtividade e um salário adicional no final do ano para quem não faltar ao trabalho. ?Ele é um administrador com espírito petista?, diz um funcionário. No início do ano, os trabalhadores receberam uma ajuda de R$ 90 na compra de material escolar para seus filhos. Eles têm educação gratuita até a 8a série e a própria Coteminas paga o transporte dos estudantes. Não é à toa que ?Seu Zé? obteve quase 100% dos votos da cidade quando eleito para o Senado. ?Nada disso é campanha. Os projetos sociais da Coteminas vêm desde 1980?, diz Vicente Rodrigues de Araújo, presidente do sindicato dos trabalhadores em Montes Claros.

De Minas para o mundo. Santinhos do PT não são permitidos dentro das instalações da Coteminas e Alencar quase não aparece por lá. Enquanto o presidente do grupo preocupa-se com a campanha eleitoral, seu filho, Josué Gomes da Silva, está no comando da empresa. Até o final do ano ele deve finalizar o estudo de um novo projeto: a construção de um centro de distribuição nos Estados Unidos, provavelmente na Costa Oeste e que deve custar US$ 40 milhões. ?Nossas exportações cresceram muito e precisamos eliminar algumas barreiras?, diz Gomes da Silva. As vendas para o mercado americano, que eram de US$ 7 milhões em 1997, este ano devem chegar a US$ 100 milhões. O grande impulso foi a parceria com a americana Springs, líder em têxteis para o lar. Quase 23% dos lençóis, fronhas e toalhas vendidos nos EUA têm a etiqueta ?made in Brazil? graças à Coteminas. A empresa, que também fornece camisetas para grandes marcas internacionais, como a Calvin Klein, viu-se obrigada a abastecer mais rapidamente o mercado americano. ?O varejista não quer saber se o fornecedor está no Brasil ou não. Ele quer o produto na prateleira?, diz Gomes da Silva.

Tudo indica que, no próximo ano, o foco será a Europa. Depois
de muitas negociações, a Associação Brasileira da Indústria
Têxtil conseguiu furar o cerco que protegia as indústrias do
Velho Continente. Na prática, isso significa que o setor passará
a contar com mais um amplo mercado para desovar seus produtos.
A Coteminas, até então concentrada nos Estados Unidos ? para onde vão 65% das suas exportações ?, já está em conversa com possíveis parceiros europeus. ?Agora sim poderemos atuar mundialmente?, diz o executivo da Coteminas. Esse cenário, somado às recentes valorizações do euro em relação ao dólar, deverá garantir um futuro tranqüilo para a empresa fundada por Seu Zé, que começou no setor como vendedor de tecidos. Grosso modo, Alencar compara a Coteminas ao Brasil: ?Ambos têm que enfrentar turbulências financeiras, fazer caixa e ainda cuidar do bem-estar de seus funcionários, no caso do País, dos habitantes?.

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