Mercado Digital

Nada abala a Samsung

A fabricante coreana enfrentou recall de smartphones e de máquinas de lavar. Agora, o herdeiro da empresa é acusado de corrupção. Apesar disso, suas ações valorizam-se e o lucro cresce

Nada abala a Samsung

Nos últimos seis meses, a fabricante coreana de eletroeletrônicos Samsung teve seu nome envolvido em uma série de incidentes. Em agosto do ano passado, a companhia lançou o Galaxy Note 7, um smartphone topo de linha que começou a explodir logo depois de seu anúncio por conta de problemas na bateria. Um recall global afetou 2,5 milhões de aparelhos, o que ocasionou um prejuízo estimado de US$ 5,1 bilhões. Em novembro, foi a vez de retirar de circulação 2,8 milhões de máquinas de lavar roupa de alta capacidade nos Estados Unidos, após relatos de ferimentos – a tampa se soltava.

Agora, em meados de janeiro, o herdeiro do fundador da Samsung, Lee Jae-yong, foi acusado de corrupção num caso que envolve um gigantesco escândalo e que culminou na destituição da presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye. Sua prisão chegou a ser pedida, mas a Justiça recusou. Para a maioria das empresas, os três episódios seriam suficientes para derrubar o valor de mercado, afetar vendas e gerar uma crise de credibilidade – veja o exemplo das construtoras envolvidas na Lava Jato, no Brasil, que estão vendendo ativos, perdendo clientes e com dificuldades para se recuperar.

Mas para a Samsung, até agora pelo menos, nada parece abalar sua imagem. As ações da empresa coreana valorizaram-se mais de 60% nos últimos 12 meses na Bolsa de Seul. O lucro operacional estimado para o seu quarto trimestre de 2016 é de US$ 7,8 bilhões, 50% maior do que o mesmo período do ano passado e o maior dos últimos três anos. Acredita-se, no entanto, que esse resultado deve-se a área de memória e telas e não a divisão de smartphones.

Por que a Samsung parece imune a essas crises? “Ninguém fora da Coreia do Sul ouviu falar em Lee Jae-yong, logo os consumidores não estão preocupados e isso não irá afetar as receitas da companhia”, afirma Vivek Wadhwa, membro eminente da Singularity University e da Stanford University. “O sucesso da Samsung deve-se a sua tecnologia superior e aos seus canais de distribuição.” A opinião é compartilhada por Ivair Rodrigues, diretor de pesquisas da consultoria IT Data. “A Samsung construiu uma marca forte e segue extremamente agressiva em preços”, diz ele. “No Brasil, esses casos não afetaram suas vendas.”

A fabricante coreana detém mais de 50% de participação de mercado tanto em smartphones como em tevês no País. No mundo, a Samsung lidera em celulares inteligentes, com uma fatia de 19,2%, à frente da Apple, com 11,5%, de acordo com dados do terceiro trimestre de 2016 da consultoria Gartner. A Samsung é um conglomerado gigantesco. O faturamento do grupo de quase US$ 300 bilhões, representa 20% do PIB da Coreia do Sul e tem ramificações em diversos setores da economia corena.

A companhia é conhecida globalmente por seus celulares e suas tevês, mas fabrica de tudo em seu país de origem: de navios a tanques de guerras, chegando até a produzir filmes. Estar alinhada com o governo, portanto, sempre foi algo fundamental para a companhia. “O episódio de Lee Jae-yong faz a empresa parecer fraca e pode remover o suporte do governo sul-coreano”, diz Rob Enderle, analista da consultoria Enderle Group. “Isso pode fortalecer competidores, particularmente a LG, também baseada na Coreia do Sul.”

Nesta semana, a Samsung deve divulgar o relatório completo das explosões do Galaxy Note 7, culpando exclusivamente problemas na bateria pelos incidentes. Lee Jae-yong, apesar de não ter sido preso, continuará a ser investigado. Segundo os promotores, Lee teria autorizado a doação de R$ 55 milhões às fundações de Choi Soon-sil, amiga da presidente afastada, Park Geun-hye, que é acusada de extorsão e tráfico de influência. Em nota, a Samsung disse que acredita que “o tribunal fará o julgamento apropriado sobre este assunto.”