Mercado Digital

A Netflix faz escola

As startups eduK, PrimePass e Gympass adotam modelo de assinatura e ganham espaço em mercados tradicionais

A Netflix faz escola

Luz, câmera e ação: Ricardo Cury, diretor da PrimePass, espera estender o serviço de assinatura para entradas de teatro e shows musicais (foto: Claudio Gatti)

Na década de 1990, o empreendedor americano Reed Hastings recebeu uma multa US$ 40 por conta no atraso na devolução do filme “Apollo 13” a uma locadora. Foi desse episódio que ele teve a ideia de criar a Netflix, em 1997. Seu plano era simples. Em vez de um preço fixo, os consumidores pagavam uma mensalidade e tinham direito a assistir a quantos DVDs quisessem. Melhor ainda. Não era nem preciso sair de casa, pois os vídeos eram entregues pelos Correios. Com o surgimento da internet em banda larga, Hastings tomou mais uma decisão ousada: transmitir os filmes por streaming pela internet.

De 2006, quando deu início à sua estratégia, até o fim de julho de 2016, a empresa conquistou nada menos do que 83 milhões de clientes em 190 países ao redor do globo. No ano passado, o faturamento chegou a R$ 6,7 bilhões. No Brasil, estima-se que sua receita já seja superior a R$ 1 bilhão. Seu valor de mercado supera os US$ 43 bilhões, um terço do que vale a mítica The Walt Disney Company. A Netflix pode não ter inventado o modelo de assinaturas – não é preciso ir muito longe para lembrar que as churrascarias brasileiras o praticam há muito tempo com o popular rodízio de carnes, em que você paga um valor fixo e come à vontade.

Mas a companhia fundada em Los Gatos, na Califórnia, foi responsável por levá-lo a uma escala estratosférica. Agora, uma nova geração de startups brasileiras está “netflixzando” seu negócio. São os casos de PrimePass, que dá acesso irrestrito a salas de cinemas em várias cidades brasileiras; da eduK, de cursos livres pela web; e da GymPass, na qual o usuário pode escolher diversas academias para praticar esportes. “Estamos vivendo a transição da posse para o uso”, diz Silvio Laban, coordenador acadêmico dos cursos de MBA do Insper. “No futuro, por conta das novas gerações, isso pode se tornar uma regra geral.”

 Fundamental para quem quer adotar o modelo Netflix é a internet. É ela que dá escala ao negócio. “A tecnologia reduziu os custos de vendas”, diz Marcelo Coutinho, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. É o caso da eduK, fundada pelos empreendedores Eduardo Lima, Robson Catalan e Bernardo Rezende, o Bernardinho, técnico medalhista de ouro da seleção masculina de vôlei nas Olimpíadas do Rio de Janeiro e de Atenas. Desde a sua criação em 2013, a eduK recebeu um total de R$ 12 milhões de investimento dos fundos de capital de risco Monashees Capital, Felicis Ventures e Accel.

A empresa, no entanto, só optou pelo modelo de assinaturas em agosto de 2015. Até então, cobrava um valor médio de R$ 180 por cada curso. Hoje, por R$ 29,90, o assinante tem acesso à todas as oito categorias de cursos ministrados pela plataforma, que são sempre voltados para o empreendedorismo. Com essa receita, espera faturar R$ 50 milhões neste ano. “Devemos conquistar 150 mil assinantes em 2016”, diz Eduardo Lima, CEO da companhia. “Quando observamos o movimento mundial, com a Netflix crescendo no mundo e o Spotify fazendo revoluções, encontramos nosso caminho.”

Há dois anos, a empresa ocupava uma sala de 120 metros quadrados, em São Paulo. Hoje, está localizada em um prédio de três mil metros quadrados, com dez estúdios de gravação. Pesquisa realizada pela eduK revelou que seus quatro milhões de ex-alunos têm, mensalmente, uma renda de R$ 1 bilhão. “É uma ferramenta de transformação de gente”, diz Bernardinho, que não revela o investimento no projeto, mas afirma que sempre esteve ligado a causas que envolvem a educação e a melhoria das condições de vida. Mas não é necessário ser exclusivamente online, como a eduK, para ser beneficiar do modelo de assinaturas. Ao contrário.

Inspirada na Movie Pass, de Mitch Lowe, cofundador da Netflix, a startup PrimePass leva seus assinantes ao cinema a partir do pagamento de uma mensalidade que varia de R$ 79,80 a R$ 189,90. Com isso, eles têm acesso a 2,2 mil salas em 430 cinemas de mais de 200 cidades brasileiras. “Em períodos de crise, a gente sofre menos que os varejistas tradicionais”, diz Ricardo Cury, diretor de marketing e digital do PrimePass. Segundo o executivo, o sistema ajuda tanto os cinemas, que garantem ocupação dos assentos, como os clientes, que têm uma economia que pode chegar a 80%.

A startup já está em todos os Estados, mas 70% da sua demanda concentra-se em grandes centros, como São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, Brasília e Belo Horizonte. “Há centenas de clientes ativos usando o aplicativo todos os dias, até mesmo em Florianópolis”, afirma Cury. No futuro, a empresa quer levar a assinatura para a área de teatro e shows musicais. O empresário César Carvalho, fundador da Gympass, viveu uma situação parecida com a de Hastings, da Netflix. Natural de Alfenas, em Minas Gerais, ele começou a enfrentar problemas com sua academia de ginástica quando se mudou para São Paulo para trabalhar na consultoria americana Mckinsey.

“Não conseguia malhar, porque estava em um lugar diferente a cada três meses.” Após fazer um MBA na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Carvalho conheceu a empresa de compartilhamentos de carros Zipcar e quis aplicar esse modelo ao mundo das academias, acabando com a história de o cliente dar cheques pré-datados na inscrição e o fim da multa por rescisão de contrato. A Gympass nasceu para oferecer aos clientes a compra de horas em diversas academias, no momento que o cliente bem entender. “As academias têm demanda irregular ao longo do dia. Esse tipo de iniciativa possibilita aproveitar melhor o capital”, diz Coutinho, da FGV. “Na medida em que a tecnologia possibilita redução de custos, é um negócio altamente interessante tanto para quem usa, quanto para quem oferece o serviço.”

Criada em 2012, a Gympass já conta com nove mil academias associadas espalhadas por todo o País. Com centenas de clientes corporativos no Brasil, a startup já atraiu três rodadas de investimento, de valores não revelados. Além de fundos de venture capital como o Redpoint eVentures, a lista inclui nomes como Kees Koolen, cofundador e ex-CEO da agência de viagens online Booking.com, e Romero Rodrigues, fundador do site de comparação de preços Buscapé. Seu alvo preferencial, atualmente, são as empresas, que pagam planos corporativos para seus funcionários. A companhia também já dá os primeiros passos de expansão internacional. Desde 2015, conta com operações no México e, em 2016, iniciou a atividade na Europa, em países como Holanda, Espanha, França e Alemanha.

É claro que o modelo Netflix não funciona em todos os setores da economia. Mas em alguns deles está provocando verdadeiras revoluções. A indústria de entretenimento mudou completamente com o serviço de streaming de filmes e músicas, como a Netflix e o Spotify, respectivamente. Emissoras de tevê tradicionais e pagas precisaram correr para se adaptar aos novos tempos. A educação também sofrerá o impacto dos cursos online. Conseguirá vencer quem oferecer um serviço barato, de qualidade e acessível. “O consumidor tem que fazer as suas contas para ver se é vantajoso”, diz Laban, do Insper.