Mercado Digital

Prepare o seguro: o motorista sumiu

Seguradoras enfrentam um nó jurídico com a popularização dos carros autônomos. Afinal, se não há condutor, quem será o responsável em caso de acidente?

Prepare o seguro: o motorista sumiu

Pisa leve: Elon Musk, da Tesla, busca minimizar o impacto com acidente que matou o dono de um carro autônomo da marca (foto: EPA/JERRY LAMPEN)

Você já deve ter enfrentado essa situação alguma vez na vida. Logo após uma batida de carro, segue-se o momento de encontrar o culpado pelo acidente. Quem, por exemplo, cruzou a preferencial, avançou o sinal vermelho ou não acionou a seta antes de fazer a curva? Atualmente, atribuir a responsabilidade por uma colisão de trânsito não é algo tão complexo. Muito em breve, poderá ser. Isso porque o crescimento do mercado de carros autônomos – já produzidos por montadoras como GM, Toyota, Kia e BMW, além da Fiat Chrysler em parceria com o Google – está deixando as seguradoras em parafuso.

Como não existe legislação específica para o setor, cobrar a conta não será uma tarefa simples. “Em 90% dos acidentes, a culpa é do motorista”, diz Paschoal Baptista, sócio da consultoria Deloitte na área de serviços financeiros. “Mas se o carro é autônomo, quem vai dirigir o veículo no futuro? De quem é o seguro?” A preocupação faz todo o sentido. A indústria dos carros autônomos movimentará US$ 87 bilhões em 2030, pelas projeções do Bank of America Merrill Lynch.

E, além da dificuldade de as seguradoras acionarem o culpado, as companhias também serão forçadas a rever seus critérios de cálculo das apólices, hoje baseado em perfis. Atualmente, dado o risco maior de acidente, um jovem estudante paga, em média, 80% mais do que um senhor aposentado. Como computador não tem perfil, os valores tendem a cair. O problema, de fato, é algo a ser pensado. O acidente automobilístico que matou o americano Joshua Brown, aos 40 anos, um dos maiores entusiastas do carro autônomo, é um exemplo dos novos desafios da indústria de seguros.

Em maio, o empresário, dono de uma companhia que leva internet para áreas rurais dos Estados Unidos, estava em uma estrada da cidade de Williston, na Flórida, com um Model S. Esse veículo, da fabricante de carros elétricos Tesla, de Elon Musk, possui um modo de operação semiautomático, no qual o carro guia sozinho na pista. Mas, por um erro em seu software anticolisão, o sistema não desviou o veículo de uma carreta. O anúncio do acidente, feito pela Tesla apenas na semana retrasada, causou apreensão sobre a segurança desses modelos.

E, ainda, rendeu a abertura de uma investigação pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC (Securities and Exchange Commission), uma vez que o acidente não foi comunicado rapidamente ao mercado. Esse foi o caso mais grave, mas não o primeiro: um carro autônomo do Google bateu em um ônibus, em fevereiro, na cidade de Mountain View, na Califórnia, mas sem deixar feridos. Especialistas avaliam que, fatalmente, a Tesla será acionada pela empresa de seguros.

Mas, para Eduardo Dal Ri, presidente da Comissão de Automóvel da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), é preciso que a legislação se adapte às novas tecnologias. “Na há legislação aqui, nem no mundo. Hoje, por exemplo, os defeitos mecânicos são ainda de responsabilidade do próprio condutor”, diz. “A seguradora continuará indenizando, mas se provar defeito em software, poderá ir até a montadora para nos ressarcir.” Para ele, o maior desafio das seguradoras com os carros autônomos é manter o faturamento do setor, uma vez que, em tese, esses veículos deverão ser mais confiáveis, o que reduzirá o preço do seguro.

A aposta é que essa queda incentivaria mais pessoas a contratar uma apólice, avalia Dal Ri. No Brasil, 17,5 milhões de veículos são segurados, cerca de 30% da frota total de 60 milhões. “O nosso faturamento não vai cair.” Mas, para Paschoal, da Deloitte, no futuro a apólice “não vai ser para pessoa física, mas para a companhia que fez o carro”. Hoje, 42,5% dos prêmios do setor estão relacionados ao seguro de automóvel no Brasil, o que provocaria grande impacto na indústria.

Isso porque a economia colaborativa, em sua visão, vai chegar ao mercado de veículos, onde não será necessário ser dono da máquina. “A posse do carro vai ser substituída por completo”, diz André Marim, CEO da Fleety, que promove a locação de carros de terceiros. Os estacionamentos não precisarão mais ficar no centro da cidade, pois o carro pode deixar o passageiro e buscar outro local para estacionar. Nas estradas, haverá um limite de distância segura entre os carros. “Isso tudo vai mudar, conceitualmente, o cálculo do risco”, conclui Paschoal. “A revolução que está vindo é absurda.”