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Para japonês ver

NEC troca o comando, aposta em novas árease volta a lucrar depois de três anos consecutivos de prejuízos

Para japonês ver

Endo, CEO global da NEC,  Meta  é que faturamento  da NEC  Brasil salte de  1%  para 3% do  global até 2022 (foto: Fotos: Claudio Gatti

Durante os anos dourados do monopólio estatal das telecomunicações, na década de 1990, a japonesa NEC nadou de braçada no mercado brasileiro fornecendo equipamentos de infraestrutura para as principais operadoras regionais. Em 1997, um ano antes da privatização da Telebrás, suas vendas brutas chegaram a R$ 1,7 bilhão no Brasil, um recorde da operação. Mas, desde então, com a abertura do setor para grupos privados, a subsidiária local entrou em declínio. Nos seis últimos exercícios fiscais, ela teve prejuízos em quatro deles, sendo o maior em 2010, quando atingiu R$ 78,3 milhões.

Parte dos problemas pode ser atribuída à dificuldade de concorrer com os rivais chineses, principalmente a Huawei, que dominou o mercado brasileiro de equipamentos de infraestrutura de rede para empresas de telefonia. “Não tínhamos preço e escala, o que os chineses tinham de sobra”, afirma Daniel Mirabile, um ex-executivo da finlandesa Nokia, que assumiu a operação brasileira em setembro de 2014 com a missão de mudar esse quadro. Sua tarefa era criar um plano de emergência para reverter esse cenário. “Não falo japonês, fui recrutado jovem, aos 39 anos, o que é incomum no Japão, não tenho olhos puxados e venho do mercado”, disse Mirabile, entre um gole de café e um biscoito na maior feira de telefonia móvel do mundo, em Barcelona, na última semana de fevereiro.

Ciente de que a cultura japonesa baseia-se na confiança, logo que assumiu o cargo, Mirabile montou seu plano em três meses para apresentar ao presidente mundial da NEC, Nobuhiro Endo, e para o vice-presidente executivo da América Latina, Masazumi Takata. O trabalho pressupunha reestruturação de áreas, demissões de quase 200 pessoas do alto e médio escalão, mudança de fornecedores e novos executivos em posições chave. “Ainda há uma duvida do que eles querem, embora tenham uma marca muito forte, reconhecida pelo cliente final e uma boa reputação de produtos”, afirma Ivair Rodrigues, diretor de pesquisa da consultoria especializada em tecnologia IT Data, de São Paulo. Em sua essência, o plano do novo comandante da NEC brasileira era simples. O executivo sabia que não poderia mais competir com os chineses em equipamentos de infraestrutura de redes de telefonia. “Cerca de 70% da receita brasileira vinha de operações com operadoras locais de telefonia, um mercado canibalizado pelos chineses”, afirma Renato Pasquini, diretor de tecnologia da consultoria americana Frost&Sullivan.

O novo foco passou a ser soluções corporativas nas áreas de educação, saúde e segurança. Um exemplo dessa nova postura da subsidiária local poderá ser observada na Olimpíada do Rio de Janeiro, que acontece a partir de agosto deste ano. A NEC integrará toda a tecnologia do parque aquático do evento, da câmera de vigilância até as catracas que controlam a entrada do público. Uma das principais apostas da NEC, nessa nova fase, é a tecnologia de reconhecimento facial. A companhia fechou um contrato com a Polícia Federal, que usará a ferramenta japonesa para cruzar informações com um banco de dados de suspeitos quando estão passando pela  alfândega brasileira em aeroportos.

Os resultados já começaram a aparecer. No exercício de fiscal de 2015, a companhia lucrou R$ 29,5 milhões, depois de três anos consecutivos de perdas. As vendas também cresceram e chegaram a
R$ 479,7 milhões. “Nossa expectativa é que o Brasil represente 3% do faturamento global da empresa até 2022, algo em torno de US$ 1 bilhão”, diz Tanaka, o executivo responsável pela América Latina. Para atingir essa meta, não está descartada a aquisição de concorrentes. Uma delas já está fechada. Trate-se de uma empresa do setor de segurança, cujos ajustes finais estão em andamento. “Tudo o que for preciso para que a NEC volte a ser o que era está em estudo”, diz Mirabile.