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A fome do iFood

Com apenas cinco anos de vida, o aplicativo brasileiro de entrega de comida conquistou 80% do mercado

A fome do iFood

Vamos estar entregando: Felipe Fioravante, CEO e cofundador do iFood, diz que operação já atingiu equilíbrio financeiro (foto: Foto: Claudio Gatti)

O hobby do empreendedor Felipe Fioravante, fundador e CEO do aplicativo de entrega de comida iFood, é produzir cerveja. Mensalmente, ele prepara 40 litros da Fioras Beer, um produto artesanal que segue uma receita desenvolvida em conjunto com seu pai. A marca, no entanto, não pode ser encontrada em bares ou supermercados. Fioravante a produz para consumo próprio ou para presentear amigos. De sua microcervejaria saem os mais diversos tipos de cerveja, como as “american pale ale”. “É difícil produzir uma cerveja normal, mas uma boa dá”, afirma Fioravante, que diz se admirador do estilo de gestão da Ambev, dona das marcas Skol, Brahma e Antarctica.

O iFood está ainda longe de trabalhar com as margens da Ambev, a maior cervejaria do Brasil, que lucra R$ 0,47 para cada real faturado. Mas o aplicativo criado por Fioravante já conseguiu um feito superior ao da empresa de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Com apenas cinco anos de vida, o serviço de entrega de comida domina 80% do mercado brasileiro. A Ambev, por sua vez, detém quase 70% das vendas do setor no País. O único concorrente relevante é o PedidosJá, da alemã Delivery Hero. Como o iFood conseguiu essa façanha? Com uma agressiva estratégia de aquisições. Nos três últimos anos, foram nove compras, como de pequenas empresas regionais, a exemplo do Papa Rango, de São José de Rio Preto (SP) e o Apetitar, que atendia as regiões metropolitanas de Brasília e Goiânia. Mas o iFood buscou também grandes alvos. Em setembro de 2014, por exemplo, ele se uniu ao Restaurante Web, seu maior rival. A mais recente transação aconteceu em fevereiro deste ano, quando adquiriu a operação nacional da Hellofood, um investimento do fundo de investimento alemão Rocket Internet. Nos dois casos, as operações serão unificadas, mas as marcas deverão ser mantidas.

Não pense, no entanto, que Fioravante está satisfeito. Assim como a Ambev, que hoje faz parte da AB InBev, a maior cervejaria do mundo, o empreendedor quer mais. Ele não descarta novas aquisições, mas acredita que a expansão da operação online acontecerá organicamente. O exterior será o próximo destino do iFood, que hoje está presente em 100 cidades brasileiras. O plano é abrir a operação em três países. Os locais estão sendo guardado a sete chaves. “Vamos, com certeza, levar o iFood para outro país até o fim deste ano”, diz Fabrício Bloisi, sócio da Movile, desenvolvedora de aplicativos de Campinas que detém 60% da startup.

A ideia do iFood surgiu quando Fioravante trabalhava na Disk Cook, empresa de tecnologia dona de um software de entregas para restaurantes e lanchonetes. O primeiro investidor foi o fundo de investimento Warehouse, que já deixou a operação. A Movile comprou o aplicativo por R$ 5,5 milhões em 2013. Com a fusão com o Restaurante Web, a Just Eat, que era dona do site e do aplicativo, ficou com uma fatia de 30%. Ambos aportaram R$ 125 milhões no aplicativo de entregas no ano passado, dinheiro que foi usado para expansão para novas cidades, cadastro de novos restaurantes e para o marketing.

A startup conta, atualmente, com 10 mil restaurantes cadastrados, que faturaram R$ 1 bilhão com as entregas feitas por meio do aplicativo. Como o iFood fica com 12% de cada transação, é possível estimar que a empresa faturou por volta de R$ 120 milhões em 2015, o  que não é confirmado por Fioravante. Ele apenas diz que a operação chegou ao equilíbrio financeiro no fim de 2015. Mas ainda há muitos desafios. Um deles é convencer as pessoas a usarem o aplicativo em vez do telefone. “Acho que o uso do telefone é ainda maior porque as pessoas sentem mais facilidade e credibilidade,” diz  Reynaldo Saad, sócio-líder de varejo e bens de consumo da consultoria Deloitte.

Não é à toa que o ator Fábio Porchat, do humorístico Porta dos Fundos, tornou-se presença quase onipresente nos principais canais de tevê a cabo. Nos comerciais, ele enfatiza o fato de que é mais rápido e fácil usar o aplicativo do que fazer o pedido pelo telefone. Mas Fioravante quer ir além. Neste ano, o iFood começou a oferecer aos clientes pagamentos no próprio site ou aplicativo. No segundo semestre de 2016, um sistema de acompanhamento online do pedido será implantado. O iFood estuda também incorporar restaurantes de alta gastronomia ao seu cardápio e planeja também um serviço que fará as entregas ficarem 50% mais rápidas.