A vitória dos nerds

Saiba por que jovens com talento em tecnologia estão ganhando cada vez mais espaço em empresas como Magazine Luiza, Bradesco, Itaú, Ford, Ambev, Natura, Telefônica e Mastercard

08/01/2016 20:00

  • // Por: Moacir Drska e Ralphe Manzoni Jr.

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André Fatala, responsável pelo Luiza Labs: “Sinto como se estivesse trabalhando em um startup”
André Fatala, responsável pelo Luiza Labs: “Sinto como se estivesse trabalhando em um startup” ( foto: Murillo Constantino)

Pergunte ao empresário Frederico Trajano, presidente da varejista paulista Magazine Luiza, qual a maior inovação do LuizaLabs, laboratório que ele criou para acelerar a digitalização dos negócios da rede que nasceu em Franca, interior de São Paulo, nos anos 1950. “A calça jeans”, diz ele, em meio a uma sonora gargalhada. Não se trata de brincadeira de Fred, como ele é conhecido. Até quatro anos atrás, os funcionários tinham de trabalhar vestidos a rigor, com camisa e calça sociais. Com a chegada dos nerds do laboratório, uma exceção foi aberta, que se estendeu a todos os empregados.

Hoje, o LuizaLabs fica em um galpão de dois andares próximo à sede do Magazine Luiza, na Zona Norte de São Paulo, e os seus 93 desenvolvedores podem ir ao trabalho até de bermudas. E, como mostra a foto ao lado que ilustra essa reportagem, a informalidade é a tônica por lá, muito próxima do ambiente de uma startup do Vale do Silício. Mas sua colaboração ao negócio do Magazine Luiza vai muito além da calça jeans. “As boas ideias existem aos milhares”, diz Fred. “Mas a capacidade de pegar uma boa ideia e traduzir em uma plataforma digital é muito difícil.”

É exatamente isso que o LuizaLabs, sob o comando de André Fatala, diretor de digitalização do Magazine Luiza, vem fazendo ao longo dos últimos anos. Não faltam exemplos que mostram como o pequeno laboratório trouxe o frescor de uma empresa iniciante para dentro de uma companhia gigante, que faturou quase R$ 10 bilhões e conta com 780 pontos de vendas espalhados pelo País. Por lá foi desenvolvido o MagazineVocê, a primeira aplicação do mundo que possibilitava vendas por redes sociais até o novíssimo sistema de vendas por smartphones, que será implantado em todas as lojas neste ano.

“Sinto como se estivesse trabalhando em um startup”, diz Fatala. “Temos uma filosofia muito parecida com a do Google: lançamos rápido e vemos como o cliente está respondendo para decidir se evoluímos a solução ou matamos o projeto.” O Magazine Luiza não é uma exceção na cena empresarial brasileira. Cada vez mais companhias estão recorrendo aos nerds para turbinar o espírito de inovação, muitas vezes perdido na fase de maturidade. A lista inclui os bancos Bradesco e Itaú Unibanco, a cervejaria Ambev, a fabricante de cosméticos Natura, a bandeira de cartão de crédito Mastercard, a operadora Telefônica e a montadora Ford.

Todas adotaram estratégias que vão desde promover hackathons e boot camps até criar laboratórios e aceleradoras. Com isso, esperam quebrar suas estruturas burocráticas e engessadas e que, muitas vezes, acabam matando boas ideias. “Entramos em modo de paranoia para buscar coisas novas”, diz Sergio Vezza, diretor de tecnologia da Ambev, que abriu um escritório em Palo Alto, no coração do Vale do Silício, batizado de Beer Garage. Essa tendência poder ser considerada uma vitória (ou será uma vingança?) dos nerds, termo cuja conotação sempre foi usada de forma depreciativa para definir pessoas isoladas, impopulares e que usavam óculos com lentes fundo de garrafa.

Mas que, ao mesmo tempo, eram reconhecidas pelo grande conhecimento sobre tecnologia, ciência e afins. Agora, os rejeitados do passado começam a ser literalmente caçados para oxigenar as mentes dos executivos das grandes corporações. “As startups desafiam nossos tempos e burocracias”, diz Gerson Pinto, vice-presidente de inovação da Natura. “Esse espírito empreendedor nos traz um novo combustível.” Tome como exemplo o Bradesco, considerado um banco que sempre apostou na inovação desde sua origem – a instituição foi a primeira a adotar um mainframe e a lançar um internet banking no Brasil.

“Chegamos à conclusão que não era suficiente apenas o que fazíamos dentro de casa, principalmente nas soluções disruptivas”, afirma Maurício Minas, vice-presidente do Bradesco. Por essa razão, criou o InovaBRA, programa que seleciona startups que podem ajudar o negócio do banco. Na primeira edição, 553 empresas se inscreveram e oito foram selecionadas. “Em vez de dinheiro, queremos dar escala a elas, fazendo projetos-pilotos com nossos clientes”, diz Minas. Uma das startups escolhidas foi a paulista QueroQuitar, que desenvolveu uma plataforma de negociação de dívida online, sem interferência humana.

“O algoritmo de negociação calcula o que é possível ou não mediante os parâmetros que o credor define”, diz Marc Antonio Lahoud, um dos fundadores da startup. A outra foi a catarinense Rede Frete Fácil, uma solução para contratação de caminhões. “É uma espécie de Uber dos caminhoneiros”, afirma Murilo Domingos, sócio-diretor da empresa. A aproximação com startups também tem sido um dos motores da Ford. “Precisamos entender e participar desse mundo”, diz David Borges, responsável pela área de conectividade da Ford na América Latina.

“Se não fizermos isso, vamos perder o bonde.” Uma das prioridades é apoiar a criação de aplicativos para o Ford Sync, sistema de navegação que equipa os carros da marca. O primeiro aplicativo brasileiro a integrar a plataforma foi o LetsPark, que ajuda os motoristas a encontrar vagas de estacionamento. Criada em 2013, a startup foi procurada pela Ford há dois anos, em uma Campus Party, evento organizado pela Telefônica. Letícia Passarelli, cofundadora da empresa, conta que os executivos ficaram surpresos quando a LetsPark deu o prazo de um mês para entregar uma versão do aplicativo para o Sync.

“Para desenhar qualquer projeto, uma montadora leva pelo menos um ano”, afirma Letícia. “Só a validação do aplicativo demorou três meses.” Ela destaca, no entanto, que foi uma troca justa. “Eles ganharam velocidade e nós tivemos visibilidade e acesso a muitos usuários”, afirma a empreendedora. A cada lançamento da Ford, o aplicativo tem um crescimento de 10% em sua base, que hoje inclui 80 mil usuários ativos. O LetsPark também está presente em países como Japão, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Algumas empresas vão além da aproximação com as startups. Elas se transformam em sócios desses negócios inovadores, replicando estratégias de fundos de private equity. A Telefônica, por exemplo, criou a aceleradora Wayra, que atua em vários países onde a operadora espanhola está presente, inclusive o Brasil. “É como ter acesso a uma fábrica de inovação”, diz Mariano Amartino, diretor global da Wayra. Até agora, mais de 40 acordos com startups se transformaram em produtos da Telefônica. Uma das estratégias mais utilizadas por grandes corporações para incorporar os nerds em seus corredores são os hackathons.

Há vários modelos dessa espécie de Olimpíada do desenvolvimento, que podem variar de um simples desafio dado a um grupo de jovens até concursos globais, com várias fases. Esse é o caso da Mastercard, que criou o Master of Code, que contempla 12 etapas – uma delas aconteceu no Brasil, no ano passado. “A onda digital está evoluindo muito rapidamente”, diz Valério Murta, vice-presidente de produtos e soluções da Mastercard no Brasil e no Cone Sul. “Empresas do nosso porte podem não acompanhar esse processo se não olharem para fora.”

No Brasil, a vencedora foi a Bolsa Capital, plataforma de antecipação de recebíveis para pequenas e médias empresas. “O hackathon foi fundamental para validar nossa ideia”, afirma Anderson Pereira, fundador da agora rebatizada Kapitale. Além de participar da final mundial em Nova York, a empresa teve acesso a mentores e investidores. “A chancela da Mastercard abriu portas”, diz Pereira. A Ambev, por exemplo, promoveu seu primeiro hackathon no ano passado. A maratona foi focada em programadores, desenvolvedores e profissionais de negócios.

Com dois mil inscritos, foram selecionados 80 jovens para desenvolver soluções para aprimorar a experiência dos consumidores da marca nos pontos de venda. O diretor de tecnologia da cervejaria, Sérgio Vezza, observa que a companhia ainda está discutindo a evolução desse modelo. O leque pode incluir desde projetos em colaboração, contratações de participantes ou mesmo investimento em algumas das ideias. Alguns reflexos dessa convivência já podem ser observados. No início de 2015, a cervejaria de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira montou uma sala de inovação em Jaguariúna (SP).

No espaço, um grupo de nerds passa o dia pesquisando soluções para a companhia. Nesse processo, o time interno resolveu incorporar a agilidade desses aficionados por tecnologia, adotando o conceito batizado de 555: criar 5 inovações por mês, que demorem 5 dias para ser validadas e custem US$ 5. “Queremos testar muita coisa, com velocidade e pouco custo”, diz Vezza. O Itaú Unibanco está iniciando essa jornada de uma forma inusitada. Em setembro, inaugurou o Cubo, projeto de coworking que reúne startups, empreendedores e investidores.

Instalada em uma área de 5 mil metros quadrados, a iniciativa é uma parceria com o fundo de venture capital Redpoint eVentures. Com agenda de workshops e palestras, a estrutura tem capacidade para abrigar até 50 empresas. “O Cubo é a nossa startup”, diz Erica Janini, superintendente da área de canais do Itaú Unibanco. O Cubo não está restrito às startups de serviços financeiros. Atualmente, 41 empresas ocupam o espaço, dentro de um escopo inicial que avaliou mais de 450 projetos.

“É um microcosmo do Vale do Silício”, afirma Felipe Almeida, cofundador da startup Zup, que está instalada no Cubo. Diariamente, executivos de diversas áreas do Itaú Unibanco visitam o local para interagir com os empreendedores. No momento, o banco negocia parcerias com dez novatas. Como o projeto ainda é recente, o modelo das colaborações ainda não está definido. “Essas empresas estão começando do zero e não têm o peso de uma base de 50 milhões de clientes”, afirma Erica. Para ela, as startups conseguem ser mais ágeis e, em muitos casos, até melhores no desenvolvimento. “Queremos aprender com eles.”

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