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Com a cabeça na nuvem

Aos 72 anos, o cofundador da Totvs, Ernesto Haberkorn, lidera uma startup que oferece um sistema de gestão via internet

Com a cabeça na nuvem

Dupla dinâmica: Com Laércio Cosentino, Ernesto Haberkorn fundou a  Microsiga, que deu origem à Totvs, sexta maior empresa de sistema de gestão do mundo (foto: Claudio Gatti)

A rotina dividida entre a natação, corrida de aventura, exercícios de musculação e tantas outras atividades físicas não deixa dúvidas. Aos 72 anos, o empresário paulista Ernesto Haberkorn tem um fôlego de menino. Entre as braçadas e pedaladas, o que mais chama atenção, no entanto, é a sua paixão pela programação de software. Não são raras as madrugadas em que ele se deixa levar pelos desafios escondidos em cada nova linha de código. O hábito ajudou a fazer de Haberkorn uma das referências no mercado brasileiro de tecnologia.

Ele, ao lado do empresário Laércio Cosentino, fundou a Microsiga, empresa que deu origem a Totvs, a sexta maior companhia de software de gestão (ERP) do mundo. Ainda um dos principais acionistas individuais da Totvs, que vale R$ 5 bilhões, e após cinquenta anos de carreira, o caminho natural seria uma aposentadoria tranquila. Mas sua veia de programador ainda pulsa. A nova aposta de Haberkorn é um sistema de gestão, chamado de ERP Flex, que funciona na nuvem. O produto é o carro-chefe da TI Educacional, empresa com 100 funcionários que ele fundou em 2007. “A nuvem é o futuro”, diz Haberkorn.

“Eu nunca tive vocação para ser espectador. Sempre gostei de participar.” No modelo de nuvem, os sistemas são acessados via internet. Baseados em assinaturas, os pagamentos são feitos de acordo com o uso. O formato traz uma nova dinâmica de adoção dos ERPs, conhecidos por implementações caras e complexas. A oferta dessa nova modalidade está sendo liderada por startups. No Brasil, além da TI Educacional, nomes como ContaAzul e a Market Up investem nesse filão. Entre os clientes, a vertente está ganhando escala nas pequenas e médias empresas. De olho nesse mercado, grandes companhias passaram a competir por uma fatia na nuvem.

A lista inclui a alemã SAP, a americana Oracle e a própria Totvs. “As startups levam vantagem”, diz Luciano Ramos, analista da consultoria americana IDC. “Elas já nasceram na nuvem e não terão que passar por essa transição.” Haberkorn é cauteloso sobre concorrer com a Totvs e com outras gigantes. “Somos uma gota no oceano”, diz. A participação desse modelo ainda é pequena, mas promissora. Segundo a IDC, as ofertas na nuvem representaram 6% do mercado brasileiro de ERP, que movimentou US$ 2 bilhões no País em 2014.

O caminho de Haberkorn rumo à nuvem teve início em 2007, após a abertura de capital da Totvs. Ele passou a integrar o conselho da companhia e se distanciou do dia a dia da operação. “Eu ficava 29 dias em casa”, diz. O empreendedor fundou então a TI Educacional, para oferecer cursos de ERP a empresas e universidades. E decidiu voltar a programar, o que não fazia havia quinze anos. O trabalho inicial foi desenvolver um ERP que pudesse ser acessado pelos alunos a partir de qualquer lugar. Três anos depois, o ERP Flex ganhou escala comercial. O foco são as companhias com receita anual entre R$ 1 milhão e R$ 50 milhões. O sistema já é adotado por mil clientes.

O negócio atraiu a e.Bricks Ventures, gestora brasileira de fundos de investimento, que fez um aporte de R$ 12 milhões por uma fatia 25% na operação, avaliando-a em pouco menos de R$ 50 milhões. Para profissionalizar a gestão, uma das primeiras medidas foi a criação de um conselho, presidido por Haberkorn. Apesar de ter sua própria sala, é mais fácil encontrá-lo, no entanto, nas baias que abrigam o time de 12 programadores. “Eu brinco que meu cargo é programador. É o que eu realmente gosto de fazer”, diz. A gestão da operação fica a cargo dos sócios Gustavo Beserra e Eduardo Nistal. “Esse foi o segredo da Totvs”, diz. “Eu era técnico e o Laércio, administrador.”