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A caçadora de startups

A suíça Seedstars busca startups para investir em mercados emergentes, como São Paulo, Moscou e Belgrado. Alguém se candidata?

A caçadora de startups

Nellie Horn, diretora da Seedstars World: “Queríamos ser pioneiros e há muito potencial em países como Singapura” (foto: Airam Abel)

A empresa suíça de private equity Seedstars, fundada em 2012, é ávida por startups. Mas, ao contrário de suas concorrentes, não dá a menor bola para o Vale do Silício, tradicionalmente apontado como o celeiro de empresas de tecnologia e berço de alguns gigantes do setor, como o Google e o Facebook. Para descobrir negócios inovadores, a companhia também inovou na forma de procurá-las. Desde o ano passado, ela organiza a Seedstars World, ou SSW. Trata-se de uma competição entre empresas iniciantes de tecnologia de países emergentes.

Uma das motivações dos idealizadores da SSW foi que os eventos similares concentram-se em países desenvolvidos. “Queríamos ser pioneiros e há muito potencial em países como Singapura”, disse à DINHEIRO a diretora da Seedstars World, Nellie Horn, uma alemã de apenas 24 anos. Neste ano, a caçada às startups mais promissoras passou por 34 cidades, de Moscou a Buenos Aires. A última foi São Paulo, na quarta-feira 3. A carioca Kendoo sagrou-se campeã da edição brasileira. Ela apresentou o Ploog, um serviço contido num pendrive e na nuvem, que carrega seu sistema operacional em qualquer computador, além de fazer backup.

“Vamos amadurecer ainda mais o produto na parte de mercado e no processo de produção”, diz Hugo Carvalho, cofundador da Kendoo. Ele tem a expectativa de ganhar escala, graças à exposição adquirida no SSW. Carvalho conquistou o direito de participar, em fevereiro, da final mundial dessa competição, que acontecerá em Genebra. Lá, o empreendedor terá de enfrentar concorrentes como a peruana Busportal.pe, dona de um buscador de passagens de ônibus, e a mexicana Machina, produtora de jaquetas de alta tecnologia.

Quem vencer a competição receberá um investimento de US$ 500 mil do fundo de capital de risco da Seedstars. Como o aporte corresponde a cerca de 20% do valor de mercado da campeã, ela sai da competição valendo US$ 2,5 milhões, para começar a conversa. Um prêmio indireto é a exposição da vencedora a outros fundos que comparecem ao evento. Mesmo que não ganhem o primeiro lugar, as empresas finalistas podem não sair de mãos vazias de Genebra. Isso porque a SSW oferece também a possibilidade de as startups receberem investimentos de qualquer pessoa, a partir de US$ 1 mil, por meio do chamado crowd equity.

A Seedstars já aportou recursos em negócios como a suíça Jobooh, plataforma de empregos para startups, e a nigeriana Simple Pay, de envio de dinheiro por meio de celular. A companhia não divulga, entretanto, qual o tamanho de seu fundo, nem quanto já investiu. A competição, organizada por apenas oito pessoas, segue o esquema do chamado “elevator pitch”, similar a outros eventos do gênero, como The Next Web e TechCrunch Disrupt. Um porta-voz da startup deve apresentar, diante de um júri, seu produto ou serviço por seis minutos. Depois, o representante encara uma sessão de perguntas e respostas por quatro minutos.

“O ideal é que o produto seja apresentado em 30 segundos e que cerca de três minutos sejam dedicados à apresentação de números que provem sua viabilidade”, diz Nellie. Exigir números pode soar estranho, já que é comum companhias de tecnologia alcançarem cifras bilionárias, mesmo sem dar lucro algum. Nellie explica que, no caso dos investimentos em países subdesenvolvidos, os investidores são mais exigentes e esperam um retorno do capital em aproximadamente dois anos. Apenas startups convidadas pela Seedstars podem se inscrever no torneio.

“Pedimos aos parceiros regionais uma lista com as melhores, para garantir o alto nível da competição”, afirma Nellie. A parceira do SSW, no Brasil, foi a Fundação Getulio Vargas, que organiza um tradicional evento de tecnologia, o Desafio Brasil. Outros requisitos para participar da SSW são que a empresa tenha sido fundada há até dois anos e que tenha investimento inicial de até US$ 500 mil. A próxima e última parada da turnê Seedstars World 2014 será em Belgrado, capital da Sérvia, no dia 12 de dezembro. O evento itinerante foi criado por Alisee de Tonnac, CEO da SSW, e Pierre-Alain Masson, que criou os fundos da Seedstars e a Ensure Capital.

Na primeira edição, em 2013, a Seedstars World passou por 20 cidades, incluindo o Rio de Janeiro. Os organizadores mudaram, neste ano, para São Paulo ao constatar que a cidade tem mais startups e investidores. A campeã da etapa brasileira de 2013 foi a Kudo, especializada no ensino de idiomas para crianças, através de aplicativos de celular. Já a vencedora da etapa mundial foi o Flitto, plataforma de tradução da Coreia do Sul. O Flitto conta com três milhões de usuários de 170 países e 800 mil tradutores.