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Armação ilimitada

Óticas virtuais, como a Lema21 e a Livo, se consolidam no Brasil e atraem investimentos milionários

Armação ilimitada

Atrás dessas lentes: Jonathan Assayag e Naomi Arruda, da Lema21, atraíram investimento de R$ 8,7 milhões (foto: Rafael Hupsel)

Há tempos, a internet demoliu um velho tabu do comércio: o de que os consumidores gostam de “ver com as mãos” alguns produtos antes de comprá-los. A Netshoes, por exemplo, ajudou a desmistificar essa ideia no Brasil, ao fazer sucesso com a venda online de calçados. Agora, outra onda do e-commerce derruba esse mito em um novo nicho: o dos óculos. Empresas como a Lema21 e a Livo, fundadas em 2011, e a novata Hatsu já movimentam milhões de reais em vendas e investimentos. Além da evolução tecnológica, a nova visão dos brasileiros sobre os óculos estimula esse negócio. Antes tratados como um mal necessário para quem não enxerga bem, agora eles viraram acessório de moda.

Que o diga Naomi Arruda, a fundadora da Lema21. Com problemas de vista desde a infância, trocou as armações por lentes de contato aos 15 anos. Só voltou a colocar óculos no rosto em 2011, quando criou sua empresa. “Não era cool usar óculos de grau”, diz. A maior aceitação dos óculos como objeto de moda ajudou a Lema21 a atrair um investidor, o fundo Social+Capital Partnership, do ex-executivo do Facebook Chamath Palihapitiya, que já aportou R$ 8,7 milhões no negócio. O dinheiro já tem destino certo. “Vamos fortalecer o marketing”, afirma Jonathan Assayag, CEO da Lema21.

Com produtos fabricados na China, a empresa quer se diferenciar pelos preços mais baixos. Operar uma loja virtual é estratégico para isso, pois elimina intermediários até o consumidor final. Para ganhar a confiança dos clientes, a Lema21 oferece serviços como o provador virtual: através de uma webcam, o site aplica a armação escolhida no rosto do usuário. A empresa oferece, ainda, frete grátis para quem preferir experimentar os modelos em casa e devolvê-los depois. A nova fase de expansão da Lema21 também coloca um olho no varejo tradicional. Os shoppings Ibirapuera, de São Paulo, e Tamboré, em Alphaville, terão quiosques da marca.

O cliente poderá encomendar seus óculos no quiosque e recebê-los em casa. Para Assayag, os pontos de venda físicos serão importantes para fortalecer a marca. Nas pegadas da Lema21, outra empresa que não quer perder de vista o mundo real é a concorrente Livo. A ótica virtual também vai abrir um quiosque em um shopping paulistano. No último verão, a Livo já havia aberto uma loja na rua Oscar Freire, um dos endereços mais luxuosos de São Paulo. “Na loja, aprendemos muito sobre os clientes”, diz Arthur Blaj, fundador da empresa. Os óculos são produzidos no Brasil com matéria-prima italiana. Segundo a startup, seu faturamento foi de R$ 1,3 milhão no ano passado.

Com o mercado aquecido, algumas óticas online buscam os consumidores de maior renda, com armações de preços superiores a R$ 1 mil. A Hatsu, do interior de São Paulo, importa seus óculos do Japão e os envia, sem custos, para o cliente experimentar em casa. “A tecnologia japonesa é um grande diferencial”, diz Makoto Ikegame, fundador da Hatsu, que atualmente trabalha com apenas dois modelos de armações, com preços de R$ 1.487 e R$ 1.994. As três empresas de e-commerce de óculos desta reportagem têm outra coisa em comum: todas projetam um crescimento de três dígitos para 2015 e garantem que a ousada meta não é nenhuma miopia.