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Saindo do túnel

Os prognósticos para a bolsa são ruins, mas quem souber procurar pode encontrar gemas ocultas. Conheça as receitas dos especialistas

Saindo do túnel

Todo investidor em ações precisa contar com uma razoável dose de otimismo. Exceto se for um profissional de mercado que especule na baixa, ao comprar uma ação, ele estará apostando na melhora da empresa e, direta ou indiretamente, na prosperidade do Brasil. Por isso, nos últimos tempos, as aplicações em renda variável têm sido vistas com uma dose elevada de desconfiança. O ano de 2015 está terminando com uma retração econômica estimada em 3,85%, o pior resultado desde a queda de 4,35%, em 1990. Com um agravante.

“No início dos anos 1990, a desaceleração foi sucedida por um período vigoroso de expansão, e nada indica que isso vai ocorrer em 2016”, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. “Estou procurando sinais de fim da recessão, mas ainda não achei nenhum.” Não surpreende, portanto, que o Índice Bovespa esteja amargando uma queda de exatos 10% no ano até a quarta-feira 16, e os prognósticos serem de mais perdas em 2016. Esse cenário não estimula os investimentos em ações, e o quadro piora quando se olha a situação de uma empresa como a mineradora Vale, uma das controladoras da Samarco.

No início de novembro, uma barragem da Samarco que continha rejeitos minerais rompeu-se, matando 16 pessoas na cidade mineira de Mariana e dizimando tudo ao longo de 800 quilômetros do Rio Doce, entre Minas Gerais e o Espírito Santo. A multa inicial a ser paga pela Samarco é de R$ 250 milhões, o que vai impactar negativamente os resultados da Vale. Como então explicar que o Deutsche Bank recomende a compra das ações? Um dos motivos é o baixo preço. As cotações da Vale chegaram a cair 33,8% nas primeiras semanas após a catástrofe, mas agora reduziram a perda para 27,3%.

O segundo motivo é a capacidade de recuperação. Em um relatório do fim de novembro, o analista Wilfredo Ortiz avalia que a Samarco será capaz de gerar caixa para pagar as indenizações e multas e voltar a produzir. E ele diz que a Vale, que opera com custos baixíssimos, vai se beneficiar da contração da oferta de minério. O acidente deverá reduzir a produção em 30 milhões de toneladas métricas, ou 2% do total mundial, impedindo novas quedas de preços. “A Vale deve demorar menos tempo do que o esperado pelas autoridades e pela comunidade para colocar as coisas para funcionar novamente”, afirma Ortiz.

Esse relatório é um exemplo bem-acabado de uma nova maneira de os analistas decidirem se recomendam ou não o investimento em uma determinada ação. Antes, os fatores de decisão eram quase que totalmente financeiros (veja quadro). Assim, uma multa de R$ 250 milhões seria uma recomendação expressa para fugir dos papéis. Agora, outros fatores entram na avaliação. “Na hora de decidir investir ou não em uma empresa, além da questão financeira, que permanece importante, também entram na conta a inserção da companhia no mercado e a capacidade de seus gestores reagirem a mudanças”, diz o administrador de empresas Maurício Lima, fundador da empresa de investimentos Invest Tech.

Lima avalia que a crise tornou o mercado bem mais seletivo. “Antes da crise, os valores estavam inflados, mas agora os preços caíram”, diz. Há outros casos. As ações de bancos, queridinhas dos investidores devido aos lucros polpudos, vêm sofrendo no segundo semestre devido à perda do grau de investimento e à desaceleração da economia, que costuma elevar a inadimplência dos empréstimos. As ações do Itaú caíram 17,7% em relação ao pico do ano, registrado em abril.

Mesmo assim, Tito Labarta, analista do Deutsche, aposta nesses papéis devido à busca de eficiência operacional e à diversificação. A partir de abril, com a conclusão da fusão do Itaú Chile com o chileno CorpBanca, 25% dos ativos do grupo estarão fora do Brasil, o que amortece os solavancos provocados pela crise. Avaliar um investimento, diz Lima, agora requer que o interessado compare não apenas a situação da empresa em si, mas também sua capacidade de enfrentar a concorrência em momentos de mudança do cenário.

Por exemplo, a perda do grau de investimento deverá fazer minguar a oferta de dólares, apreciando a moeda americana e tornando as ações brasileiras mais atrativas para investidores estratégicos. Isso abrirá oportunidades em bolsa. “O movimento de fusões e aquisições de empresas brasileiras por estrangeiras continuará forte em 2016”, diz Fábio Mourão, responsável pela área de banco de investimentos do Credit Suisse no Brasil.