Tempo é dinheiro

Conheça a rede social que permite a Executivos trocar seu tempo por uma moeda virtual capaz de comprar experiências, como aulas de piano e de culinária

11/07/2014 20:00

  • // Por: Natália Flach

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Onda de lucros: Caio Bonatto, empresário paranaense, dá aulas de surfe em troca de lições de piano
Onda de lucros: Caio Bonatto, empresário paranaense, dá aulas de surfe em troca de lições de piano ( foto: Guilherme Pupo)

O canteiro de obras é a praia profissional do curitibano Caio Bonatto. Não é raro encontrar o engenheiro civil de 28 anos nos empreendimentos de sua empresa, a TecVerde. A companhia desenvolveu um método construtivo que emite 80% menos gás carbônico que os sistemas tradicionais. Neste ano, Bonatto espera construir duas mil casas, em cidades do Sul e Sudeste. Não é fácil, e o preço desse esforço é escassez de tempo livre. “Tenho poucas horas vagas, mas surfo sempre que posso”, afirma Bonatto.

Por isso, quando consegue uma folga, o executivo coloca sua prancha no carro e cai na estrada, atrás de boas ondas no litoral paranaense. Seria uma história similar à de muitos outros executivos, não fosse um detalhe. Quando sobe na prancha, Bonatto não está só desfrutando do seu hobby, mas também está sendo remunerado por seu tempo livre. Desde o início do ano ele dá aulas de surfe em troca de uma moeda virtual chamada TimeMoney. Bonatto não conhece seus alunos até chegar à praia. Os contatos são feitos pela internet.

Por hora, o executivo recebe uma unidade do TimeMoney, com a qual pode pagar desde lições de culinária até alguém que leve seu cão para passear. Por enquanto, ele tem escolhido fazer aulas de piano. Esse é o princípio da rede social gratuita Bliive, criada em 2013. Ao todo, 30 mil pessoas participam da plataforma e já trocaram mais de 8,5 mil “experiências” – como são chamadas as aulas. Cada hora de atividade equivale a um TimeMoney. “Escolhemos o tempo como moeda porque uma hora é igual para todos em qualquer lugar do mundo”, diz o empresário paranaense Zeh Fernandes, um dos criadores da startup.

“A ideia é construir uma economia colaborativa”, diz ele. “Quanto menos se poupa, mais as pessoas ganham.” Foi pensando no bem-estar dos funcionários da TecVerde que Bonatto sugeriu a eles que entrassem no Bliive. “Era uma forma de eles investirem seu tempo e de trocarem experiências sem ter que pôr a mão no bolso”, afirma. “Acredito que a qualidade de vida potencializa a vontade das pessoas para trabalhar.” Segundo ele, até o momento, o resultado desse estímulo pode ser medido pela melhora do desempenho dos funcionários da construtora – dos diretores aos operários dos canteiros de obras.

Como saber se os usuários vão agir de boa-fé? Fernandes diz que é importante pesquisar quem é a pessoa antes de trocar a experiência. Uma boa pista é o próprio perfil no Bliive. Há, ainda, outra forma de avaliar a confiabilidade. O Bliive oferece um sistema de avaliações feito pelos próprios usuários, que dão notas para a pontualidade e para a qualidade do serviço prestado. Se a soma for negativa, o avaliado reprovado ganha um selo vermelho que representa “não confiável”. Se for zero, o selo é cinza; se positiva, verde. “Em geral, as pessoas escolhem amigos de amigos, o que reduz os riscos de haver algum problema”, diz Fernandes.

“Além disso, é sempre uma boa ideia trocar as experiências em locais públicos.” A transferência da moeda virtual para a conta do outro usuário só acontece depois de concluída a experiência. Isso ajuda a evitar que sejam feitos pagamentos de serviços que não aconteceram. “Se a pessoa não aparecer na data combinada ou se a experiência não for satisfatória, o TimeMoney que havia sido reservado não é entregue para quem ofertou o serviço”, afirma Fernandes, que já foi pago por ministrar aulas de preparação de chimarrão e usou as moedas recebidas para comprar cursos de culinária básica. Há algumas restrições. “Não permitimos o anúncio de atividades ilícitas nem nada vinculado à pornografia.”

A ideia tem dado tão certo que chamou a atenção da Intel, a maior fabricante de microprocessadores do mundo. A rede colaborativa venceu o desafio de empreendedorismo deste ano e, como prêmio, seus fundadores estão participando de um programa de aceleração de negócios no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Segundo Fernanda Sato, gerente de educação da Intel Brasil, o próximo passo é pensar em como medir o impacto das trocas na economia real. “Nossa proposta é que as pessoas tenham mais interações off-line”, diz Fernandes. “Está na hora de quebrar o cofrinho virtual e viver novas experiências.”

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