Em busca do equilíbrio

Diante de um cenário de incertezas externas, a estratégia para os fundos é apostar em ações defensivas no primeiro semestre

23/12/2016 17:00

  • // Por: Flavia Galembeck

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Ruptura. Essa palavra define 2016 para Roberto Padovani, economista-chefe do Banco Votorantim. Em janeiro, as incertezas sobre o crescimento da economia chinesa derreteram os preços das commodities e chacoalharam as bolsas. Depois, em junho, a decisão inesperada do Reino Unido de sair da União Europeia exerceu efeito semelhante. E, para culminar, a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, em novembro, ajudou a manter alta a volatilidade. “Ganhou quem foi otimista e apostou na troca de governo no Brasil”, diz Padovani.

Ele avalia que a tradução dessa estratégia se deu, em um primeiro momento, na proteção cambial. Até abril, ganhou quem adicionou ações de empresas exportadoras ao portfólio. Depois, a partir do dia 12 de maio, com a posse da nova equipe econômica do presidente Michel Temer, lucrou quem acreditou em maior responsabilidade na condução da política macroeconômica, estabilidade cambial, inflação sob controle e início do ciclo de corte de juros. E também lucrou quem adicionou papéis de empresas que se beneficiariam deste cenário na carteira dos fundos.

João Braga, gestor de renda variável da XP Gestão, destaca, entre elas, as estatais, que estavam com preços deprimidos, processo revertido com a troca de gestores. E também os bancos. “O pior cenário para os bancos já passou e as instituições financeiras se beneficiaram por gerarem receitas com crédito, seguro e serviços.” Apostar na mudança rendeu ganhos generosos para a ACB Capital Gestão de Investimentos. Com dois fundos criados em 2016, o antigo time da Petra Capital, que formou a nova gestora, acumulou ganhos de 49,42% em seu fundo de dividendos de 74,65% em seu fundo de valor e crescimento nos últimos 12 meses.

“Acreditávamos que haveria mudança no cenário político e miramos nas empresas que se beneficiariam disso”, afirma o gestor da ACB, Rafael Burquim. Em fevereiro, eles apostaram em ações defensivas, como Cielo, Vivo, Ultrapar, CCR, Taesa e Tractebel Energia, além de bancos como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil, que respondiam por quase 30% da carteira. Em outubro, quando avaliaram que havia pouco espaço para ganhos, venderam os papéis, para fechar o ano com 30% dos recursos em caixa. Com R$ 1,4 bilhão sob gestão, dos quais R$ 25 milhões alocados em fundos de ações, a ACB Capital adota uma estratégia fundamentalista, que busca papéis com potencial de valorização.

“O nosso diferencial foi a disciplina de entrada e de saída das posições, privilegiando a gestão de caixa dos fundos”, explica João Piccioni, sócio da gestora. Para o ano que vem, ainda diante das incertezas do governo Trump nos Estados Unidos, Braga recomenda de novo ações defensivas – que são regulares nas receitas e previsíveis no pagamentos de dividendos – e geram retornos reais de 12% ao ano. Ele recomenda a BB Seguridade, as concessionárias de rodovias, empresas de shoppings centers e as de saneamento básico e de energia, como a Transmissão Paulista.

“Essas ações defensivas sofreram com a vitória de Trump, o que traz uma boa oportunidade de compra. Apesar do rali recente nos preços, os fundamentos não mudaram”, afirma Braga. Já para Burquim, da ACB Capital, as ações do Pão de Açúcar podem dobrar de preço. Assim como bens de capital e varejo. “Olhamos com confiança o cenário interno. Se a taxa Selic encerrar 2017 a 10%, isso pode representar um alívio de até 30% no custo da dívida de algumas empresas, cujos lucros aumentarão apenas com a redução do custo financeiro, mesmo que a receita não cresça.”

Outras ações que ainda têm espaço para a valorização são Petrobras, Banco do Brasil e as elétricas. “A discussão agora é a aceleração da economia que virá com o corte das taxas de juros. Depois de abril, quando os cenários internos e externos estiverem mais claros, teremos como fazer novas previsões”, diz Braga. Ele recomenda Sabesp, que pode se beneficiar de uma revisão tarifária, assim como Cesp e a Copasa, e também as companhias Sanepar, Energisa, Vivo e bancos. Padovani, do Banco Votorantim, faz coro. “Para o primeiro semestre, recomendo as ações de empresas que geram receitas estáveis, lastreadas por contratos de longo prazo, como as concessionárias de energia, os shoppings centers e as empresas de serviços como água e telefonia, as chamadas utilities.”

O gestor da XP também recomenda manter ou incluir essas ações no portfólio. De acordo com o Padovani, a previsão do Banco Votorantim é de que o Ibovespa encerre o ano que vem a 65 mil pontos. Com mais de R$ 7 milhões para investir em ações, o time da ACB Capital acredita que terá em janeiro uma janela de oportunidades para comprar papéis baratos. Para eles, o Ibovespa deve encerrar o ano por volta de 80 mil pontos. Com um resultado expressivo em seu primeiro ano, o time fez uma estreia e tanto. “Não temos pressa”, diz o sócio João Piccioni.

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